Caminho do Opus Dei deve ser a transparência

Padre Anselmo Borges criticou "linha autoritária" da obra e o ateísta Ludwig Krippahl falou no perigo de atropelo de "direitos fundamentais". Por outro lado, Manuel Morujão (Conferência Episcopal), Pedro Gil (Opus Dei) e o padre Tolentino Mendonça legitimaram as práticas da prelatura. No geral, todos concordaram que o Opus Dei deve ser mais transparente.

O Opus Dei deve sair da sombra e tornar-se menos opaco. Este foi o único ponto com o qual concordaram todos os oradores do debate sobre "O Papel do Opus Dei na Igreja e na Sociedade", ontem realizado na sede do Diário de Notícias e que encerrou a Grande Investigação DN sobre a obra. De resto, utilizando uma frase do fundador do Opus Dei, o painel esteve de "acordo em discordar" e dividiu-se entre os que defendem a normalidade da obra e os que duvidam da legitimidade de algumas práticas.

O padre e filósofo Anselmo Borges considerou que o Opus Dei deveria ser "mais transparente" e não poupou nas críticas à organização, que acredita ter uma "linha autoritária". Sobre as práticas do Opus Dei o sacerdote da Igreja Católica disse do que "não gosta" na obra: da "conceção dolorista", que as "mulheres sejam discriminadas" ou da "orientação elitista".

São precisamente as práticas que o professor universitário e vice-presidente da Associação Ateísta Portuguesa, Ludwig Krippahl, considera perigosas: "Se [no Opus Dei] a orientação vem de cima, há uma estrutura hierárquica e não se respeita a diferença entre o que é do domínio associativista e aquilo que é do domínio privado, aí sim temos uma ameaça aos direitos fundamentais". Assim, a par de Anselmo Borges, Lud-wig Krippahl referiu o risco de a prelatura "violar a intimidade das pessoas".

Na resposta às críticas dirigidas ao Opus Dei o diretor do gabinete de comunicação da obra, Pedro Gil, começou por dizer que a investigação do DN contribuiu para que "fossem dados passos importantes em frente para o conhecimento da organização". Mas admitiu que "ainda terão de ser dados muitos mais" para que a prelatura saia da sombra e se torne menos opaca. Pedro Gil tentou sintetizar o que o Opus Dei faz, lembrando o objetivo da obra: promover "a oração e a formação". Pretende-se que "qualquer pessoa, qualquer estilo de vida, possa encontrar Deus na vida de cada dia sem ter de esperar pelos batizados, funerais, casamentos, sem ter apenas de pensar n'Ele apenas quando tem uma aflição na vida". Defendeu, portanto, a "normalidade" da organização, deixando um repto a todo o auditório do Diário de Notícias: "Se quiserem podem todos aparecer nas ações da obra, não é preciso convite, basta verem como no site do Opus Dei."

Também o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Morujão, explicou que considera a obra "parte integrante da Igreja" e que esta é exemplo do "pluralismo" que existe na Igreja Católica.

Manuel Morujão disse ainda que o Opus Dei possui algumas das "más famas" que os jesuítas tiveram em tempos. Lembrou também que a canonização de Josemaría Escrivá de Balaguer - feita em tempo recorde - não é sinal de influência da obra no Vaticano, pois o processo da madre Teresa de Calcutá promete ser "mais rápido".

Também o vice-reitor da Universidade Católica, Tolentino Mendonça, defendeu que se olhasse para a prelatura com normalidade, devendo ser dado algum "respeito" às práticas escolhidas pela obra (como o aconselhamento de livros). "Não julgar, para não ser julgado", disse.

O Opus Dei sempre foi associado a um certo elitismo, visão que Pedro Gil contrariou: "A obra tem membros de todas as classes sociais, mas se tiver dez banqueiros, os jornais só vão referir esses. Mas, para nós, os membros não são números, são pessoas." Tolentino Mendonça também referiu que um dos aspetos que mais o sensibilizam no Opus Dei "é precisamente a heterogeneidade social".

Em cima da mesa esteve ainda a discussão sobre a lista dos livros que o Opus Dei proíbe os seus membros de lerem. Pedro Gil admitiu que o aconselhamento feito relativamente a obras literárias e de não ficção "é um tipo de opinião muito sumária e (...) falível", mas atualmente já "existe como uma ferramenta que está disponível à discussão pública, na Internet", podendo por isso ser melhorada.

Tolentino Mendonça defendeu que esta plataforma é "muito importante", lembrando que não pretende destilar "ódio pelos autores e livros", mas procura apenas "fazer uma leitura moral do próprio livro". Também Manuel Morujão defendeu que esta classificação de livros "é mais um aviso à navegação, um aconselhamento como o que fazemos aos nossos amigos".

Do outro lado da barricada, Ludwig Krip-pahl e Anselmo Borges mostraram-se críticos de qualquer lista que sugira "censura" de obras. Após os restantes oradores legitimarem a listagem, dizendo que esta poderia ser mais uma recomendação do que proibição, o ateísta lembrou que esta questão não se poderia discutir no domínio dos "jogos de semântica". Krippahl sustentou que "o facto de uma obra não estar de acordo com a crença de uma pessoa não é o motivo para não a ler. Independentemente do tipo de pressão que existe para que as obras não sejam lidas, é um absurdo". Anselmo Borges opôs-se igualmente a qualquer forma de censura e lembrou que "a Inquisição foi uma das coisas mais vergonhosas da Igreja".

A função destinada às mulheres na prelatura foi outro dos assuntos em debate. Sobre este propósito, Pedro Gil referiu que "dois terços dos membros do Opus Dei são mulheres e que a proposta espiritual que existe é para todos". Na investigação o DN levantou a questão das numerárias-auxiliares. Estas são mulheres da obra que se dedicam exclusivamente às lides da casa, sendo esta a única atividade profissional que desenvolvem. Por outro lado, os homens não fazem esse tipo de tarefas (onde se inclui cozinhar, lavar a roupa, etc.), porque - dizem os membros desta prelatura pessoal - não têm a mesma sensibilidade.

Anselmo Borges - embora sacerdote - foi o mais crítico quanto à atuação do Opus Dei. O padre e professor universitário levantou mesmo dúvidas quanto ao facto de a obra respeitar o "pluralismo". Criticou ainda a obra por no "Opus Dei haver mais insistência na doutrina do que na fé". E concluiu: "Os cristãos não se caracterizam por um conjunto de doutrinas, mas na confiança de se entregarem a Deus."

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