Câmara de Cascais torna Cavaco cidadão honorário. Oposição vota contra

Decisão foi aprovada pela maioria PSD/CDS, mas recebeu os votos contra do PS, PCP e movimento independente Ser Cascais

A Câmara de Cascais aprovou hoje, pela maioria PSD/CDS-PP, que o Presidente da República Cavaco Silva seja distinguido como cidadão honorário do município, uma decisão que mereceu os votos contra de toda a oposição.

Em reunião de câmara, o executivo liderado por Carlos Carreiras aprovou que fosse entregue a Cavaco Silva a chave da vila e um diploma.

"O professor doutor Aníbal Cavaco Silva, no exercício da sua vida política, tanto no desempenho das funções de primeiro-ministro como de Presidente da República Portuguesa, marcou, sem dúvida, o município de Cascais", refere a proposta.

A requalificação e musealização dos espaços do Palácio da Cidadela de Cascais, do qual foi "enérgico defensor e insubstituível promotor da sua afirmação no plano nacional" foi uma das fundamentações apresentadas.

Além disso, acrescenta a proposta, também como primeiro-ministro, Cavaco Silva, deixará uma "marca importante no desenvolvimento do concelho", pela reforma do saneamento ocorrida na década de 90, pelo Programa Especial de Realojamento (PER), pela instalação da Escola Superior de Gestão Hoteleira e pela construção da autoestrada A5, que liga Cascais a Lisboa.

"É legítimo pressupor que a proposta que aqui se apresenta terá acolhimento junto dos cidadãos de Cascais que, ato eleitoral após ato eleitoral, em legislativas ou presidenciais, fizeram de Aníbal Cavaco Silva o cidadão mais votado de sempre em eleições realizadas no concelho. Para além de vitórias robustas no país, o cidadão Aníbal Cavaco Silva conquistou sempre grandes maiorias nas urnas em Cascais num reconhecimento inequívoco da sua obra", lê-se.

A decisão foi aprovada pela maioria PSD/CDS, mas recebeu os votos contra do PS, PCP e movimento independente Ser Cascais.

"Trata-se de uma proposta partidária. Nunca a câmara atribuiu esta distinção a nenhum Presidente da República e nem sequer houve respeito pela deliberação do órgão, porque ontem [na quinta-feira] já tinha saído o convite a dizer que ia haver atribuição da medalha, ou seja, a decisão estava tomada à partida", justificou a vereadora do PS Teresa Gago, em declarações à Lusa.

Além disso, a vereadora socialista criticou o reconhecimento das obras atribuído apenas a Cavaco Silva, que exclui a contribuição que teve, na altura, o autarca do PS José Luís Judas.

Também para o vereador comunista, Clemente Alves, a distinção só pode ser vista como "uma homenagem a uma pessoa que, no exercício dos cargos de representação nacional, sempre orientou os seus atos pela afirmação de ser o representante dos piores interesses de alguns e de nunca ser o representante de todos os portugueses".

Isabel Magalhães, do Ser Cascais, também não reconheceu "nenhuma ação extraordinária ou especial" de Cavaco Silva no concelho e, por isso, considerou a distinção "desadequada e inoportuna".

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