Bases do PSD desiludidas com Marcelo

Sociais-democratas preferiam que o Presidente tivesse sido mais crítico sobre o Orçamento de Estado apresentado pelo governo do PS

Os militantes do PSD engolem em seco, medem as palavras antes de falar sobre Marcelo. Criticar alguém da "família" custa sempre e as bases não conseguem disfarçar algum incómodo com a proximidade entre o Presidente da República e o primeiro-ministro, António Costa.

João Carvalho da Silva, 30 anos e delegado ao congresso por Vale de Cambra (Aveiro), hesita antes de falar do antigo líder do PSD, mas lá começa por dizer que "a presidência de Marcelo é neste momento uma incógnita". O delegado diz não estar "surpreendido com o que se está a passar" pois estes primeiros tempos de mandato mostram um "Marcelo igual a si próprio". Isso é bom ou mau? "Na minha opinião, defendo que o Presidente não deve ter uma postura de comentador político, mas uma postura de Estado que transmita confiança aos portugueses e à Europa", critica o delegado.

Também Félix Falcão, consultor e delegado eleito pelo PSD-Barcelos, defende que Marcelo "está a gerir muito bem estes primeiros dias de presidência", mas adverte que "o futuro reservar-lhe-á momentos mais difíceis". Embora perceba a posição de Marcelo, Félix Falcão assume que "como militante do partido gostava que não fosse tão incisivo no apoio que está a dar a António Costa".

Já André Aidos, 36 anos, optometrista, eleito delegado por Seia, avalia "nem bem nem mal" os primeiros tempos de mandato de Marcelo e diz que não gosta que "esteja a dar um apoio tão declaradamente ou tão direto ao governo como tem feito". No entanto, acredita que essa postura do Presidente "não afeta o partido".

Eleito por Loures e militante há mais de trinta anos, Manuel Marques Dias está "convencido de que este estado de graça entre o Presidente e o governo só existirá enquanto houver equilíbrio: quando descambarem as contas públicas, espero que ele exerça o poder que a Constituição lhe dá". Marcelo, recorde-se, pode a partir de segunda-feira dissolver o Parlamento, uma vez que o travão constitucional deixa de existir. De mochila ao ombro, que o PSD deu a todos os delegados, o social-democrata admite que "os militantes do PSD possam sentir-se melindrados, pela proximidade do presidente com o PS".

Os militantes mediram a proximidade de Marcelo através da bitola do Orçamento. João Silva, que neste ano deixou de ser "jota", admite que "é preciso estabilidade", mas "devia ter tido uma posição em relação ao Orçamento do Estado que mostrasse que este não é um Orçamento perfeito e mandasse um ou outro recado ao governo de que este deve ser um Orçamento para o país e não um Orçamento para que os portugueses gostem". Também André Aidos concorda que Marcelo podia ter ido mais longe nos avisos que fez sobre o OE 2016.

A comunicação ao país sobre o Orçamento também não agradou a Félix Falcão, pois "não teve nada de novo." "Se não era para fazer críticas, como já tinha dito que promulgava, não tinha necessidade de todo aquele formalismo e de fazer aquela comunicação."

Mas, em matéria de orçamento, não é só Marcelo a ser alvo de críticas. Manuel Marques Dias - que até considera que o Presidente da República esteve na medida certa nas palavras que disse sobre o OE 2016 - critica o líder do partido, Pedro Passos Coelho, por demonstrar um certo "azedume" com a governação. O PSD - diz - "não se devia ter abstido de apresentar propostas no Orçamento do Estado, devia ter feito como o CDS". Para o militante do PSD-Loures, o que Passos deve fazer é "lutar para que, a curto prazo, o governo caia e ele volte ao poder".

No congresso, mesmo quando Cristo não desce à Terra, o partido desce às bases. Uma bandeira do PPD, de 1974, é mostrada por Manuel Cruz, militante fundador do PSD-Gaia no mesmo ano da bandeira. Observador no congresso, é um defensor de Marcelo, dizendo que o Presidente é "o homem certo no lugar certo". O militante, de 79 anos, vai mostrando a bandeira, mais velha do que a sigla PSD, em que se destaca uma assinatura do fundador do partido, Francisco Pinto Balsemão. Cruz elogia a "presidência de afetos" que está a fazer que esteja a ser um PR "melhor do que Cavaco Silva".

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