Atuais e ex-dirigentes da Saúde enviam carta ao PS a criticar política no setor

São médicos, enfermeiros, ex-bastonários e membros de sindicatos que defendem que é fundamental que o SNS centre também a sua missão na promoção da saúde e na prevenção da doença

É um documento "contra esta política de saúde exclusivamente centrada na doença". Quem o descreve ao DN é o professor universitário Cipriano Justo, um dos 25 signatários, entre médicos, enfermeiros, ex-bastonários e membros de sindicatos, de uma carta enviada à secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, a pedir uma reunião para discutir os resultados da saúde e propostas para mudar a atual política. Este é um grupo de profissionais que assume que apoiou os acordos que permitiram ao PS formar governo, mas agora mostram um "cartão vermelho" à esquerda por não ter sido ainda impulsionadora da discussão. Perante a ausência de resposta socialista, estão já a preparar um manifesto.

Entre os signatários estão alguns ex-bastonários como José Aranda da Silva, que esteve à frente da Ordem dos Farmacêuticos, ou Maria Augusta de Sousa, que foi bastonária dos Enfermeiros, ex-presidente de secções regionais da Ordem dos Médicos como Jaime Mendes e Fernando Gomes e vários membros de sindicatos dos médicos e enfermeiros. Na carta, enviada no dia 8, explicam que a razão da iniciativa decorre da análise que fazem da atual situação do setor da saúde, "a qual, quase a meio da legislatura, permanece sem sinais de mudança que alterem a natureza do modelo de política de saúde, que reabilite e requalifique o SNS".

Com recurso a dados publicados lembram que somos o país, entre os do sul da Europa, com uma esperança média de vida saudável aos 65 anos mais baixa, que há excesso de mortalidade na população idosa no verão e no inverno, que mais de 50% da população tem excesso de peso, os episódios de urgência estão a aumentar e que só nos 30 principais hospitais do país havia no final de 2016 mais de 200 mil utentes à espera de uma primeira consulta acima do tempo recomendado.

"O SNS não se esgota no tratamento da doença. A grande falência do SNS neste momento está aí. Mantém a sua missão fundamental orientada quase exclusivamente para o tratamento da doença e as outras duas missões, particularmente nobres, a promoção da saúde e a prevenção da doença estão fortemente esquecidas. E esse é o principal alerta que queremos dar ao atual governo", explica Cipriano Justo, também dirigente da Associação Renovação Comunista.

"Mais do que qualquer outro governo, este seria o que estaria em melhores condições para tomar consciência deste problema e potenciar um outro tipo de orientação e outro tipo de estratégia à política de saúde", aponta, referindo-se ao facto de o atual governo ser suportado pelo PCP e Bloco de Esquerda, partidos cujas intervenções "têm sido pontuais relativamente a um ou outro aspeto do SNS".

O grupo defende a criação de infraestruturas locais, que juntam saúde, escolas, autarquias e segurança social para impulsionar a promoção da saúde e a prevenção da doença. "A sustentabilidade do sistema reside no facto de termos pessoas mais saudáveis e durante mais tempo. Com padrões de doença como temos, o sistema de saúde há de ser sempre insustentável", diz.

Sendo os signatários ligados ao PCP, BE e PS, Cipriano Justo admite que esta carta é "a esquerda a apresentar um cartão vermelho à esquerda, que não está a fazer o que devia fazer. Dá a ideia que a esquerda está um pouco acomodada porque existem as urgências hospitalares que vão sempre resolvendo as coisas. Isso é claramente o caminho mais errado que se pode caminhar".

Défice do SNS a aumentar

A Direção-Geral do Orçamento publicou ontem a execução orçamental de maio e o saldo do SNS cifrou-se em 150,5 milhões de euros negativos, um agravamento de 31,7 milhões em relação ao período homólogo. O aumento da despesa deveu-se aos fornecimentos e serviços externos, às despesas com pessoal e à despesa com produtos farmacêuticos. Já a Conta Satélite da Saúde, divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística, mostra que em 2014 e 2015 "as famílias concentraram, em média, 89,4% da despesa corrente em saúde. Esta foi canalizada para prestadores privados de cuidados de saúde em ambulatório, em farmácias, em hospitais privados e em todas as outras vendas de bens médicos".

Vigília em frente da residência de Costa

Os enfermeiros especialistas em saúde materna vão fazer uma vigília em frente à residência oficial do primeiro-ministro amanhã às 21.30. Contestam o facto de não estarem a ser pagos como especialistas, o que os levou a anunciar um boicote a partir de 3 de julho. Em comunicado, a bastonária, Ana Rita Cavaco, refere que é "urgente encontrar uma solução que permita a regularização da situação destes enfermeiros". A bastonária alerta que o funcionamento de blocos de parto de vários hospitais pode ficar condicionado.

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