As mulheres que já não são da Triumph

Durante 20 dias foram "as mulheres da Triumph", uma epopeia fabril como há tanto não se via, a ecoar hinos proletários e solidariedades nostálgicas. Agora estão em casa, os sonos ainda trocados das vigílias, a adrenalina em queda, a incerteza em alta. Crónica do vazio depois da luta.

"O que é que eu posso fazer por vocês, como é que posso ajudar?" Eram cinco e tal da manhã quando o homem apareceu ao piquete, "lágrimas a correr pela cara abaixo" conta Lucinda, 40 anos de operária na fábrica que a que Madalena, com 27 de casa, chama "a falecida". Foi das coisas, prossegue Lucinda, que mais a sensibilizou durante as duas semanas e cinco dias em que estiveram de guarda à fábrica, a certificar que os donos, já em insolvência, não retiravam as máquinas, materiais e encomendas não pagas e nas quais receberam muitas manifestações de apoio. "Passava lá muita gente, pessoas de carro que buzinavam e nos saudavam, outras que abriam os vidros e nos davam paletes de leite, sacos de compras. E apoio moral, que para nós era muito importante. Também achei muito bom irem lá os partidos - o BE, o PCP, o PS... E acho que também foram lá os Verdes. O PSD e o CDS é que não, já se sabe; mas também não fizeram falta."

A colega - ou ex colega, melhor dito, agora que já não trabalham no mesmo sítio - e amiga Madalena Lourenço faz que sim: "Foi muito bonito. Duro mas bonito. Porque éramos muito unidas e as vigílias ainda nos uniram mais. Acordava a meio da noite a pensar "já lá não está ninguém, está frio e a chover." Tínhamos um grupo no Messenger [do Facebook] e ia lá ver se estava gente, quem estava, falávamos. E muitas noites não consegui dormir e deixava o meu marido na cama e ia ter com elas." Comove-se. Vão comover-se as duas várias vezes, e a quem as ouve. Como não? Quantas vezes nas últimas décadas vimos uma luta assim, sem conformismo nem desistência, por essa coisa antiga, caída em desuso, a que se dá o nome de direitos dos trabalhadores?

Nem todas e todos, porém. "Somos 463 e estivemos lá só cento e tal. E nos últimos tempos já havia muito pouca gente, estávamos a atingir o ponto de saturação. Éramos sempre as mesmas a fazer, estávamos muito cansadas", comenta Lucinda, que se diz "sindicalizada desde sempre". "E houve pessoas que só apareceram quando estava tudo conseguido - como em tudo há sempre os que criticam, não é? Havia quem dissesse que era uma palhaçada. Mas agora vão beneficiar do que conseguimos", acrescenta Madalena.

E o que conseguiram foi aguentar, com o mínimo de perdas - porque, afiançam, chegaram a desaparecer coisas - a maquinaria e demais bens que ainda estavam na fábrica. Que agora, à guarda da administradora da insolvência, irão ser vendidos em hasta pública - o modo escolhido pela maioria na reunião que aquela fez com as trabalhadoras na quarta-feira 23, quando terminou o piquete - para depois desse produto serem pagas as indemnizações e os ordenados em atraso (não recebem desde outubro).

"Ainda digo a nossa fábrica"

Lucinda Carvalho, que começou como costureira e era agora controladora de qualidade, tem 61 anos; Madalena 46. Estão as duas em casa de Madalena, em São João da Talha, num bairro chamado da Esperança. E esperança há, claro - mesmo se, uma semana depois do desmontar do piquete, chegou o momento do desalento, do vazio. É altura da "papelada", de irem à fábrica, onde a Segurança Social instalou uma equipa de atendimento, buscar os documentos do subsídio de desemprego e do fundo de garantia salarial, de lhes fazerem as contas que nem sabem quais são. Não sabem ainda quanto vão receber de subsídio e durante quanto tempo, nem tão-pouco a quantos dias por ano de trabalho respeitará a indemnização, se houver o suficiente para pagar tudo de acordo com a lei. E muito menos o que vão fazer a seguir. Ainda estão a digerir a revolução que lhes apareceu numa vida que tinham imaginado a trabalhar na Triumph até à reforma.

"Hoje já estou um bocadinho melhor", admite Madalena, que fala de tirar um curso de inglês e de, talvez, ter um trabalho com atendimento ao público. "Até ontem foi muito difícil. A gente vê-se com uma vida alucinada, sem tempo para fazer nada e de repente não sabe como preenchê-lo. O despertador não desperta, não temos hora para almoço, nenhum sítio para ir. E ainda não estou com os sonos normais. Ontem eram três da manhã e não conseguia dormir. E há um sentimento de perda da camaradagem que tive durante 26 anos. Estávamos muito ligadas umas às outras, temos saudades. Quando entrava um modelo novo andávamos ali à roda a tentar perceber como se fazia. Tínhamos muito orgulho no nosso trabalho. Tenho muitas saudades daquelas correntes, daquela energia, da amizade: quando as minhas colegas estavam grávidas, aqueles bebés eram nossos. Tenho saudades de sair de casa de manhã bem arranjada, poderosa, para ir trabalhar. "

Com 16 anos como costureira e mais de dez como monitora, Madalena, que vive com o marido e duas filhas gémeas de 20 anos, foi muitos anos delegada sindical da fábrica e, em 2009, a grande impulsionadora do RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências) no qual muitas das trabalhadoras da fábrica conseguiram o certificado do 9º ano, incluindo ela e Lucinda (que até aí tinha a sexta classe). Um momento que recordam, embevecidas - "Foi uma altura tão boa, andávamos todas muito empenhadas, tudo com sede de aprender" -, contando peripécias e apontando para fotos que Lucinda espalhou na mesa. Elas no dia em que receberam os diplomas, aqui e ali em confraternizações, ou no meio da fábrica ou em desfiles de trabalhadores mascarados, à guisa de marcha popular, no dia da Triumph (uma comemoração em maio, organizada pela empresa), um grupo de operárias vestidas a preceito para dançar o can-can ou equipadas numa turma de ginástica que a fábrica pagava, ideia de um gestor alemão que Lucinda recorda com carinho: "Era o senhor Dante Bernardino, um homem que tinha fugido para cá na altura da Segunda Guerra, que tinha passado fome e achava que era muito importante a nossa saúde e bem-estar, por isso pôs-nos a fazer ginástica no Sacavenense."

As regalias que a empresa, na melhor tradição social-democrata, concedia aos trabalhadores não ficavam por aí: atribuía subsídios por cada filho (Lucinda tem também dois, uma rapariga e um rapaz "ambos formados"), disponibilizava um refeitório gratuito para almoço mais chá e café e pequeno almoço , tinha prémios de assiduidade que chegavam a mais 200 euros por mês e ainda de antiguidade (com bónus de dois salários para quem perfizesse quatro décadas) e uma política salarial acima do ordenado mínimo. Em contrapartida, os trabalhadores empenhavam-se a fundo, garantem as duas ex operárias: "Trabalhámos domingos se fosse preciso." A informação dos trabalhadores sobre a estratégia da empresa fundada em 1886 na Alemanha era também valorizada: Madalena fez durante vários anos parte do "comité europeu", representantes de todas as fábricas que se reuniam com os patrões para serem informados das "estratégias". "Eles diziam que a nossa fábrica - ainda digo nossa - era a fábrica-estrela." Uma unidade na qual foram sendo instaladas, até ao fim, máquinas de ponta: "Éramos o topo de gama da Triumph no mundo. Mas cada ano que já íamos víamos morrer fábricas na Europa. Há quatro anos foi a da Áustria, depois a da Hungria. Ficámos só nós." E por fim foi a vez da portuguesa, crismada Triunfo Internacional na sua fundação, em 1961 - é o que se lê na ainda ativa (apesar da venda, no final de 2016, a outra firm, a Gramax, que agora declarou insolvência)página na net da Triumph Portugal, cuja apresentação termina de modo anacronicamente triunfante: "Produzindo tanto para o mercado interno, onde os seus produtos são distribuídos em múltiplos pontos de venda do Continente e Ilhas, como também para a exportação destinada ao Mercado Europeu, bem como a diversos países extra-europeus, a empresa tem vindo a alargar continuamente o âmbito das suas atividades."

Não, não tem vindo a. E, apesar das promessas de investimento milionário que mereceram a visita do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, há um ano, a compradora Gramax levaria 10 meses a deixar de pagar aos trabalhadores e menos de um ano a entrar em insolvência. "Fomos vendo as encomendas desaparecer. Durante um ano ainda tivemos as coisas da Triumph para fazer, mas depois isso acabou e fomos recebendo cada vez menos pedidos e cada vez menos volumosos", narra Lucinda. Chegaram a ter, por exemplo, encomendas de apenas 15 peças da La Perla (uma prestigiada e cara marca italiana de lingerie). E, acusa, "vinham as coisas para fazer sem a descrição - antes tínhamos sempre uma descrição para cada peça - sem preceitos, tínhamos de estar a experimentar, a fazer e desfazer. Ninguém nos dava as orientações como deve ser. Depois queixavam-se de que o trabalho não estava bem. Como poderia estar?"

"Ainda não percebi o que aconteceu"

No fim, ficavam dias inteiros sem nada que fazer. Faziam malha - como fizeram depois no piquete - liam livros, jogavam jogos no telefone. Houve quem ficasse doente e quem, desenganado, se fosse embora, para a reforma, para outro emprego, para nada. Em dezembro, já com ordenados em atraso, surgiu uma ordem de serviço a dizer que quem quisesse podia ir para casa. Terão ido cento e tal. E a 5 de janeiro apareceu a notícia de que uma transportadora vinha buscar uma encomenda não paga. Foi o início da luta. Houve até uma operária que se atravessou, no parque de estacionamento, à frente do carro de um dos gestores, dizendo que não podiam elas estar sem salários e ele continuar a usar o carro da empresa, e a meter combustível com o cartão da empresa. "E ele e a outra gestora saíram dali de táxi", diz Lucinda com uma gargalhada.

Mas a epopeia daqueles 20 dias terminou; agora, mesmo se entrevistas como esta e idas à TV prolongam o calor de uma glória breve, é preciso olhar para a frente. Sílvia Pestana, 39 anos, suspira. Mesmo sendo das operárias mais recentes - estava na empresa ainda nem há sete anos - fez piquete. "Não fazia noites por ter uma filha pequena, com nove anos. Mas estive lá. Nunca me tinha acontecido algo assim, parece um filme de terror. Caiu a tristeza quando levantámos a barraca, mas acho que ainda não percebi bem o que me está a acontecer." Era, lamenta, uma empresa muito boa. "Entrei no dia em que fez 50 anos cá. Preferiam operárias com filhos, diziam que éramos mais responsáveis. E quando contava às pessoas que recebia abono pela miúda diziam-me "isso não deve ser cá em Portugal"." Já não.

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