Arménio suaviza discurso mas anuncia "semana de luta"

Desfile da CGTP em Lisboa confirma a lua-de-mel entre o governo e os sindicatos. PS sublinha "clima de compromisso e diálogo"

O desfile da CGTP pelas ruas de Lisboa confirmou aquilo que a manifestação do 25 de Abril já tinha demonstrado: a nova correlação de forças no Parlamento e a existência de um governo que tem tido como palavra de ordem reverter as medidas do executivo de Passos Coelho levou a que os sindicatos enterrassem os "machados de guerra" e suavizassem o tom nas jornadas de luta.

Os milhares de pessoas que subiram do Martim Moniz até à Alameda D. Afonso Henriques ilustraram bem a lua-de-mel que ainda existe entre António Costa e as diversas estruturas sindicais, embora a Intersindical (bem como o BE e o PCP) não baixe a guarda e mantenha um exigente caderno de encargos ao governo.

Agora, os speakers e os manifestantes já não exigem a demissão do executivo nem pedem a cabeça do Presidente da República - também Marcelo Rebelo de Sousa continua em estado de graça junto das principais franjas da esquerda -, embora Arménio Carlos, secretário-geral da maior central sindical do país, tenha sinalizado que não vai cruzar os braços ou passar cheques em branco ao primeiro-ministro.

Ainda que sem subir demasiado o tom, o líder sindical anunciou que a CGTP "irá realizar uma semana nacional de luta", de 16 a 20 de maio, "com greves, concentrações e manifestações" em nome do aumento dos salários, do emprego com direitos, da contratação coletiva, das 35 horas de trabalho semanal para os trabalhadores dos setores público e privado, da revogação das normas "gravosas" da legislação laboral e de "mais e melhores serviços públicos".

"Só com a luta se alcança a mudança", justificou Arménio Carlos, que também disse que "as medidas implementadas [pelo governo socialista], embora limitadas, invertem o rumo de cortes sucessivos nos salários, nas pensões e nos direitos". Contudo, e perante milhares de pessoas que preenchiam aquele espaço numa tarde de muito calor, adensou a pressão sobre o primeiro-ministro e respetivo elenco governamental ao vincar que é "nesta nova fase", no novo quadro político, que "é preciso ir mais longe" na conquista de direitos.

Especificamente sobre as leis que regulam o mercado de trabalho, Arménio dirigiu-se ao primeiro-ministro, pedindo que Costa "tome medidas", apesar da "pressão dos patrões" e "daqueles [sindicalistas] que se subjugam" - numa clara alfinetada ao secretário-geral da UGT, Carlos Silva. O líder da Intersindical falava em concreto da extinção da caducidade da contratação coletiva (um instrumento, frisou, "de progresso social") e da reintrodução do princípio de tratamento mais favorável.

Mas os recados não ficaram por aí. E, paradoxalmente, também as mensagens de apoio. Arménio entende que o governo tem de "resistir às chantagens e ingerências internas e externas", mas avisou que a CGTP não será cúmplice "de políticas que perspetivem a cedência e subjugação aos ditames da troika ou a hipotéticos consensos alargados defendidos pela direita" em torno da saúde, educação e Segurança Social - a que o Presidente da República também tem apelado.

O caminho que até aqui tem vindo a ser trilhado, sustentou Arménio, tal como "o cumprimento das promessas, credibiliza os políticos e a política e reforça a democracia", mas o aumento dos salários "tem de contemplar os trabalhadores da administração pública". E indicou o caminho para que isso seja possível: "Coragem de cortar com as PPP [parcerias público-privadas], os swap, as negociatas com escritórios de advogados e de consultadoria, o fim dos apoios aos banqueiros e ao financiamento do sistema financeiro com o nosso dinheiro."

Antes da subida ao púlpito, e ainda na Avenida Almirante Reis, Arménio cruzou-se com a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, e com Catarina Martins, porta-voz do BE. A socialista saudou "o clima de compromisso e de diálogo" em que se comemorou o Dia do Trabalhador e o líder sindical sublinhou que conta com o PS "para a mudança que é necessária". Hoje, podemos dizer que a valorização da concertação social, a reposição dos direitos, de salários, a valorização do salário mínimo nacional - aumentámos para já o que é possível aumentar - são conquistas muito importantes", disse Ana Catarina Mendes. Arménio insistiu na recusa de cedência "às pressões internacionais". A deputada rosa devolveu: as novas políticas têm de ser afirmadas "aqui", mas "também na Europa".

Já a porta-voz bloquista, após o encontro com o dirigente sindical, aproveitou para sublinhar as prioridades do seu partido. À atenção de Costa: "Queremos mais: combater a precariedade, mais emprego, mais direitos no trabalho, mais respeito pelo trabalho. (...) Em Portugal, a precariedade é a regra do trabalho e quem está precário é quem tem medo no local de trabalho e não está a viver a democracia como deve viver."

Jerónimo de Sousa, por outro lado, realçou a "janela de esperança" aberta com as legislativas de 4 de outubro, mas destacou que "ao contrário do que se diz [o novo quadro político] "não vem travar ou esmorecer a luta". "Antes pelo contrário", atirou o secretário-geral do PCP.

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