"António Costa é o primeiro-ministro da extrema-esquerda"

Miguel Morgado, o ex-assessor político de Passos Coelho é agora uma das estrelas da bancada social-democrata. Durante o debate do programa do governo ficou responsável pela réplica ao ministro das Finanças, Mário Centeno

Qual é agora a estratégia do PSD uma vez que há um governo PS em plenitude de funções?

O presidente do PSD deixou bem claro qual é a estratégia. Por um lado, defendermos os valores e as ideias que foram expostos na campanha eleitoral e, por outro, ir ao encontro das aspirações dos portugueses que não se reveem nesta solução de governo adotada agora.

Acredita que Passos Coelho se aguentará na oposição uma legislatura ou ficará a "assar", para usar um termo do próprio?

Essa pergunta não tem grande cabimento, em primeiro lugar porque o presidente do PSD foi - ao contrário do que está atualmente em funções - o primeiro-ministro escolhido pelos portugueses. E portanto é nele que a maioria dos portugueses vê as capacidades de liderança e o projeto político para Portugal. Em resultado desta fraude perpetrada pelo líder do PS, ele será líder da oposição. E é como líder da oposição que assumirá as suas responsabilidades e cumprirá as suas funções políticas.

Faço-lhe a pergunta de outra forma: acredita que este governo vai durar a legislatura toda?

Não faço ideia. Quem tem de responder por isso é o atual primeiro-ministro porque ele pôs-se nas mãos do PCP e do BE, assumiu perante os portugueses que esse compromisso era durável, ele é que tem de responder pela durabilidade do governo. Nós cá estaremos para escrutinar o trabalho dele e Costa terá de compreender que, assim que lhe faltar o apoio parlamentar da extrema-esquerda, terá de se demitir.

Acredita que o atual primeiro-ministro está refém do PCP e do BE?

Não é uma crença minha, é o dado mais objetivo que existe na política portuguesa hoje. É o que resulta do debate que tivemos aqui no Parlamento: António Costa é o primeiro-ministro da extrema-esquerda.

É professor de Ciência Política mas chamou a esta solução da esquerda uma fraude. Não acha interessante para a democracia haver esta geometria parlamentar, quase uma solução nórdica?

Ao contrário do que se tem dito não é uma solução nórdica. Neste caso o que nós temos é um governo constituído integralmente nas eleições e que foi derrotado duma maneira muito expressiva. Isso não acontece nas soluções nórdicas, onde o que acontece, por vezes, é existir coligações de governo. E antes de ser professor de Ciência Política sou português e, por isso, nunca posso achar interessante uma solução de governo que tem todos os condimentos para conduzir o meu país, uma vez mais, ao desastre tal como aconteceu em 2011.

Mas apenas do ponto de vista teórico da ciência política, como um sinal de evolução democrática?

Repare, a ciência política, como qualquer ciência social, ao contrário do que quis fazer crer o positivismo do século XX, não está isenta de juízos de valor. O cientista social que queira adotar uma posição de neutralidade axiológica está também ele a cometer uma fraude intelectual.

No debate do programa centrou os ataques em Mário Centeno. Esta estratégia é porque acreditam que é nas questões orçamentais que o governo vai falhar?

Não me parece que tenha uma estratégia para centrar as críticas no ministro das Finanças. Se expusemos as fragilidades de credibilidade do ministro das Finanças de uma maneira particularmente evidente, isso deve-se a essas fragilidades, não se deve a uma estratégia de concentrar as críticas em Mário Centeno. Até porque este governo tem muito mais fragilidades para além do ministro das Finanças.

Na altura, com alguma graça, comparou Centeno a Marx, o Groucho, uma piada ao jeito de Woody Allen. No que se inspirou para essa comparação?

A única coisa que disse foi que existe este fascínio arqueológico, arcaico, com as teses da esquerda radical, por isso a minha evocação de Marx, mas claro que Mário Centeno não é um marxista e por isso a única maneira como se podia identificar com a família marxista seria com a versão Groucho.

Quanto a Marx, o Karl, já vi que também não é entusiasta...

Eu ensino Marx na universidade já há muitos anos. Foi um pensador importante, invulgarmente erudito e inteligente e que nessa medida merece o meu respeito intelectual. Quanto ao sistema que ele criou, às ideias que laborou, à política que gerou, isso eu sou e sempre fui um opositor incondicional.

E com este acordo há hipótese de a sociedade portuguesa ser influenciada por inspirações marxistas?

As circunstâncias históricas mudaram radicalmente desde a queda do Muro de Berlim. Esse não é o ponto. O ponto é que os partidos que têm agora o PS na mão são partidos que se reveem integralmente em teses marxistas, que são não só erradas como muito perigosas.

Como politólogo, como definiria António Costa?

Não o conheço a ponto de perceber quais são as suas convicções. Pelo que eu vi até agora, Costa não é um homem com uma cultura política, económica ou literária particular. Só posso julgá-lo pela sua conduta desde que assumiu funções políticas nacionais em outono de 2014. E a partir daí o que vi foi um homem obcecado com o poder e disponível para se apropriar da ideologia, do saco de ideias, que lhe proporcionasse a obtenção do poder. Neste caso foi a extrema-esquerda, mas não sei o que ele teria feito noutra conjuntura.

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