Ana Gomes: Saída de Sócrates é "uma boa notícia para o PS"

A eurodeputada foi a primeira personalidade do partido a dizer que o PS não podia continuar a fingir que os casos de Sócrates e Manuel Pinho não existiam. Mas ontem ficou surpreendida quando soube da desfiliação do ex-líder.

Como é que vê a desfiliação de Sócrates?

Está em linha com a estratégia dele de se vitimizar. O PS tem de passar por cima disso. Fazer o trabalho que tem de fazer - introspeção e tomar medidas e ultrapassar isto. Não há problema nenhum para o PS, pelo contrário, com a desfiliação de José Sócrates.

Estava à espera desta decisão?

Não estava à espera de que acontecesse tão rapidamente.

Ou seja: não estava à espera...

Não, não estava à espera de que acontecesse. Mas ainda bem que aconteceu. As declarações dos dirigentes do partido [César, Santos Silva, Costa] foram extremamente importantes para desencadear esta reação de Sócrates e também no sentido de fazer o que o PS precisa de fazer: demarca-se de Sócrates e fazer a sua introspeção. É um processo que vai ser longo, interno, que vai passar por tomar medidas de controlo externo e interno. E isto para que as mensagens do partido sejam credíveis, ou seja, para que não sejam atingidas pela descredibilização que resulta do que já se sabe sobre Sócrates e do que ainda pode vir a saber-se.

Disse, a propósito dos casos de Sócrates e de Pinho, que o PS não podia continuar a esconder a cabeça na carapaça da tartaruga. Mas tiveram de passar duas semanas para altos dirigentes do partido começarem a falar. Não foi demasiado tempo?

O que importa é que falaram. E isso foi retumbante e deu início ao tal processo de reflexão e introspeção que há muito eu dizia que o PS devia fazer. Não é de agora que digo isto. No congresso de 2014 falei de corrupção - sem falar de Sócrates, seguindo a instrução de António Costa - e da amnistia fiscal de 2005, um momento que para mim demonstra como o PS se deixou capturar por interesses privados e criminosos.

Teme que António Costa, Santos Silva ou Carlos César, ao falarem agora, não pretendam apenas retirar o tema do congresso?

É evidente que quanto mais cedo esse assunto for tratado, melhor - e já deveria ter sido. O que foi revelado naquela reportagem da SIC - independentemente do ato criminoso que foi mostrar as filmagens dos interrogatórios - mudou qualitativamente a natureza do problema e não se podia mais varrer para debaixo da mesa. O processo de libertação do que tinha sido no PS uma espécie de omertà [lei do silêncio] em relação a Sócrates começou agora. O PS tem de assumir que houve erros e que quer corrigi-los.

Esse processo terá de passar pelo congresso?

É um momento alto para o PS propor caminhos. Mas é um momento também para o PS olhar para si próprio e ver como é que pode ser credível. Não é possível pensar que se podia ir para o congresso fingindo que não estava ali um elefante. O abcesso foi furado e vai começar a ser esvaziado - e isso reforça o PS, não o põe na defensiva.

Voltando ao princípio: independentemente de achar que Sócrates se está a vitimizar, esta desfiliação representa ou não para o PS uma boa notícia?

É uma boa notícia para o PS.

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