Ana Gomes acusa direção do PS de deixar Sócrates manipular o partido

A eurodeputada insurge-se contra a possibilidade de o seu partido abrir as portas à reabilitação política
de José Sócrates. Mas a direção do PS considera "normal" que o ex-primeiro-ministro participe na vida do partido

A eurodeputada Ana Gomes mantém as críticas que fez aos dirigentes do PS por não levantarem a voz contra o facto de José Sócrates estar a "manipular" o partido e a tentar reabilitar a sua imagem política.

"Sei que sou uma voz isolada, mas não me importo", disse ao DN a eurodeputada socialista, apesar de admitir que há militantes que lhe ligam indignados com as aparições do ex-primeiro-ministro em iniciativas do partido. Como a de ontem, em que foi homenageado num almoço no Parque das Nações. E no dia anterior, numa iniciativa promovida pela Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL).

Foi neste encontro de sexta-feira que José Sócrates afirmou que "muitos quiseram afastar-me. Detemos-te, pomos-te na prisão, não dás entrevistas. O primeiro objetivo era isolar-me da sociedade portuguesa. Porventura conseguiram esse objetivo com a direção do PS, mas quero dizer-vos que não conseguiram afastar-me do coração dos militantes".

Ana Gomes considera que Sócrates "está a sequestrar e a manipular o partido", que é "chocante", sem que haja "vozes morais no PS". Embora se mostre crítica da justiça pela demora no processo que envolve o ex-primeiro-ministro, a eurodeputada entende que o que já se sabe do comportamento de Sócrates - admitido pelo próprio, em particular o modo como "vivia à custa do amigo" Carlos Santos Silva - torna "impensável a sua recuperação política".

A eurodeputada insiste: "Como é possível não haver consciência moral para demarcar o PS disto?" E a sua crítica estende-se a todos os dirigentes socialistas, incluindo ao secretário-geral do partido, atual primeiro-ministro.

A secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, considerou "normal e natural que um ex-secretário-geral do PS seja convidado para iniciativas do PS". Recordou que Sócrates já tinha sido convidado para estar no aniversário do partido, que se comemorou no Largo do Rato, e para estar no congresso.

Ontem, foi o próprio António Costa que negou que José Sócrates seja uma voz incómoda para o PS. Defendeu, aliás, a "liberdade crítica" do ex-primeiro-ministro quando criticou o governo por querer acabar com o sigilo bancário sobre as contas acima de 50 mil euros.

"Respeitamos muito a liberdade crítica. Não é a única pessoa que é contra o levantamento do sigilo bancário no combate à fraude e à evasão fiscal, outras pessoas também se têm manifestado nesse sentido", declarou António Costa, ao visitar uma chocolataria na Ribeira Grande, Açores, onde foi questionado se as palavras de José Sócrates foram amargas para o governo e para o PS.

José Sócrates tinha criticado na sexta-feira o PS e o governo pela aprovação do diploma relativo ao sigilo bancário, considerando que por trás do discurso do combate à fraude está uma perigosa concentração de poder nos organismos do Estado.

Neste ponto, Ana Gomes insurge-se também contra o antigo líder do PS. "Querer manter o sistema de sigilo bancário é manter a evasão fiscal, a corrupção e a criminalidade associada." Lembra ainda que foi o governo de Sócrates que começou a fazer "as famigeradas amnistias fiscais", em 2005 e 2010, que, diz, "não são mais do que esquemas para lavagem de dinheiro acumulado indevidamente ou de fuga de impostos".

A "manha" de Costa

O politólogo José Adelino Maltez lê nesta aparente normalidade com que António Costa encara o reaparecimento de José Sócrates nas iniciativas do PS "manha" do secretário-geral socialista. "António Costa se quisesse tinha condicionado as estruturas de forma indireta" para não convidarem José Sócrates, mas não o fez." Encarar isso com naturalidade "até pode ajudar Costa a virar a página no PS", mostrando que as iniciativas "do ex--primeiro-ministro não são mais do que fait divers".

José Adelino Maltez não acredita que esta atividade de Sócrates possa causar danos ao PS.

Na segunda iniciativa do PS em que foi figura central, um almoço em que foi homenageado por militantes do PS, ontem, o ex-primeiro-ministro anunciou que vai lançar em outubro um livro de teoria política, que garante que não é "de mexericos".

"Queria sossegar-vos quanto a uma coisa: nem é um livro de mexericos nem é um livro de um paranoico. É um livro que pretende ser de teoria política. Pus de lado tudo o que escrevi sobre este processo. Não é o momento, mas lá chegará", disse, em declarações registadas pela SIC, numa crítica implícita do livro do ex-diretor do Expresso e do Sol, José António Saraiva.

Na sexta-feira, foi o primeiro evento institucional do Partido Socialista em que apareceu desde que foi constituído arguido na Operação Marquês, uma conferência na Universidade de Verão do Departamento Federativo das Mulheres Socialistas da FAUL. Com Lusa

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