Afonso tinha comprado o primeiro terreno com a mesada e os presentes


Negócios de gerações Avós, filhos e netos de Castanheira de Pera que investiram na floresta. Incêndios adiaram os sonhos.

Afonso comprou neste ano o seu primeiro terreno. Com o dinheiro da mesada, dos anos e dos natais, que não guardou para comprar jogos e brinquedos como outros adolescentes. Conta Sandra Carvalho, a mãe, para explicar a importância da floresta para a família, que vive na aldeia da Moita, em Castanheira de Pera. Os sogros vivem do eucalipto, criaram a Serração Progresso & Transportes Palipau, ela e o marido apostaram no pinheiro e fundaram a Tomás-Floresta. O filho mais velho, 17 anos, comprou terra aos 16, 15 dias antes dos incêndios de Pedrógão Grande que queimaram os frutos de três gerações. Passaram seis meses e ainda há muito por fazer.

Na zona fazem-se as contas pelo calendário dos incêndios. A Serração Progresso voltou a produzir uma semana antes dos fogos de 15 de outubro - a segunda grande vaga de incêndios deste ano. Primeiro, limparam, recuperaram o possível e repensaram no que fazer. A fábrica, à saída do concelho, está a trabalhar a 50 % num barracão improvisado, com os mesmos 34 operários. Aqui, em Castanheira de Pera, começaram a produzir a partir do pinheiro-bravo, a sua matéria-prima.

Receberam o dinheiro do seguro, que tinha uma apólice de 720 mil euros, também o apoio estatal para recomeçar. Tudo somado, está muito longe dos cinco milhões de euros de prejuízo: equipamento no valor de dois milhões, a que se juntam 1,5 milhões dos edifícios, mais outro tanto de matéria-prima. Foram destruídos oito camiões, nove tratores e 11 reboques. "Só no ano passado comprámos cento e tal terrenos, 80% com madeira de pinho. Íamos começar a resinar em março", diz Sandra Carvalho, 40 anos, gerente da Serração Progresso e da Tomás-Floresta.

Os sogros iniciaram-se no negócio com a compra de uma fábrica falida, há mais de 30 anos. "Começámos aos poucos, na cofragem, depois comprámos a fábrica, ficava à entrada de Castanheira de Pera, onde hoje estão as escolas. Vendemos à câmara e viemos para aqui", recorda Manuela Tomás, 65 anos. Também não lhe sai da memória o sábado 17 de junho. "Os pneus a rebentar. Os camiões com gasolina a arder, parecia uma guerra, ficámos sem nada. No dia seguinte a fábrica ainda ardia, estiveram cá os bombeiros e disseram que não tinham autorização para usar a água dos tanques. Ficámos sem nadinha verde, nem uma macieira, um pessegueiro. Uma semana sem ir à cama, ficava na varanda, não conseguia dormir." Respira fundo e assegura: "Mas estou feliz, sabe porquê? Estamos vivos, foi um milagre, saí de casa meia hora antes de o fogo começar. Disse ao meu marido para fugirmos para Figueiró dos Vinhos e ele não quis, morríamos como os outros."

A Tomás-Floresta, Gestão e Exploração de Recursos Florestais é de Sandra Carvalho e do marido, uma gestão que denota outras preocupações. Investiram em pinheiros, árvore que leva mais tempo a crescer e com madeira para comercializar, mas que pode dar outras matérias-primas, como a resina, que é melhor e mais cara do que a importada. "A floresta estava limpa, com áreas de carvalho, tudo o que podia ser feito para evitar incêndios, fizemos tudo." O que resta está agora empilhado num terreno cedido pela câmara.

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