Aeroporto esgotado: até na zona da saída já há filas

Como vai o aeroporto de Lisboa aguentar até a alternativa do Montijo estar concluída? ANA pressionada para fazer obras

Já não é só no controlo de passaportes que os turistas têm de aguentar em longas filas, à chegada a Lisboa, grande parte depois de terem passado a noite em voos transcontinentais, como dos EUA, Canadá, China ou Brasil. Nas últimas semanas, com o verão à porta e o previsto aumento do número de voos e passageiros a concretizar-se, muitos turistas têm sido surpreendidos por esperas prolongadas, a seguir à recolha de bagagens, para passar a zona da alfândega e alcançar o exterior do aeroporto.

Confrontada com o inédito constrangimento, comprovado pelas fotos que publicamos, registadas na manhã do passado domingo, a Ana-Aeroportos de Portugal, concessionada aos franceses da Vinci, sublinha que "está disponível para realizar investimentos que permitam aumentar a capacidade devido a restrições do espaço", mas alega que isso "não se verifica nesta situação específica", pois tratou-se de uma "situação pontual".

Operadores turísticos (ver texto ao lado), companhias de aviação, fiscais da alfândega e inspetores do SEF refutam, garantindo que este cenário não foi caso único e alertam para o risco de colapso daquela infra estrutura aeroportuária nos próximos meses. Com o plano alternativo do Montijo sem previsão de conclusão (há estimativas que apontam cinco anos para as obras), entendem que Humberto Delgado não vai resistir este verão sem melhoramentos.

Fonte oficial da empresa afirma, porém, que "os constrangimentos atuais não se devem a características físicas do espaço". Reconhece que se "trata de uma infraestrutura com uma atividade muito elevada que, num continuado desafio, se tem vindo a superar". Nos primeiros quatro meses de 2018 o aeroporto Humberto Delgado subiu em 15,9% os passageiros (mais de seis milhões dos 27.4 milhões no último ano), colocando-o no topo dos negócios mais rentáveis da Vinci, entre as 36 infraestruturas que tem no mundo.

"O aeroporto está cheio de remendos e não dá para remendar mais. Esgotou", salienta Fernando Ramos, da direção da Associação Sindical dos Profissionais da Inspeção Tributária e Aduaneira (APIT), cujos fiscais têm testemunhado o congestionamento junto ao seu espaço operacional. "É incomportável fazer toda a gente sair pelo mesmo sítio. Basta interromper a passagem meia dúzia de vezes, para fazer alguma verificação de bagagem, para tudo ficar congestionado. É preciso ver que, há mais passageiros, mas nós temos o mesmo número de funcionários que há 20 anos e os corredores de passagem para o exterior exatamente os mesmos. É evidente que tem de esgotar", explica . E controlo mantém o mesmo nível de exigência? "Apesar da pressão ser muito grande, incluindo da própria ANA, que sabe perfeitamente o que está a acontecer, vamos fazendo o nosso trabalho, na medida das possibilidades".

A associação que representa as companhias aéreas, RENA, partilha a apreensão. "Andamos a avisar há muito que o aeroporto está a rebentar pelas costuras", recorda António Portugal. As novas filas "são mais um sinal de que esta infraestrutura precisa de melhoramentos nas zonas operacionais, com o mesmo esmero e proatividade que a empresa mostrou nas áreas comerciais".

Idêntica posição tem Acácio Pereira, presidente do Sindicato da Carreira e Inspeção e Fiscalização (SCIF) do SEF, que também já tinha apelado a uma requalificação da zona de controlo de passaportes. "Infelizmente, estes casos repetem-se quase todos os dias. A ANA precisa urgentemente de fazer obras no aeroporto de Lisboa! O Grupo Vinci já ganhou dinheiro mais do que suficiente, durante estes anos de concessão, para as fazer. Caso contrário o aeroporto de Lisboa pode transformar-se num inferno para os passageiros", assinala. Para este dirigente do SEF, "a questão que hoje se coloca é saber se o governo tem ou não tem capacidade para obrigar a ANA a cumprir as suas obrigações contratuais?".

Apesar da insistência do DN, o gabinete do ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques, não respondeu sobre que medidas podiam ser tomadas para não prejudicar o turismo nacional.

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