Adriano Moreira: de opositor a ministro de Salazar e conselheiro da República

Académico acaba de ser eleito para o Conselho de Estado, em que vai fazer algo que lhe está na massa do sangue como pedagogo: ouvir e aconselhar os mais novos, desde os outros conselheiros ao futuro chefe do Estado

Adriano Moreira é eleito como conselheiro de Estado quando está confirmada uma previsão que fez há 20 anos: o "predomínio de um único país" no espaço europeu.

"A Europa vai confrontar-se com o risco de um diretório de potências ou até do predomínio de um único país. Portugal [vai] ter de esforçar-se para que a cultura de igualdade que vigorou 50 anos na NATO não seja ferida" na União Europeia, afirmou o académico em 1995, à Visão.

Ao contrário da previsão (1957) sobre a guerra em África começar "em 1961", que o levou ao governo de Salazar, o convite para o Conselho de Estado não se deveu à que fez sobre a evolução europeia. "Para aquela função, ele é o melhor", diz o líder do CDS. "Também foi um ato de homenagem" com quem, no Estado Novo, era "a única figura com suficiente visão estratégica, carisma e determinação para resolver o problema ultramarino pela via pacífica e de acesso à independência" das colónias, assim como, "a partir daí, reformar o regime" ditatorial, enfatiza Paulo Portas.

Adriano José Alves Moreira, 93 anos desde 15 de setembro, pai de cinco filhos, diz ser "um dever cívico aceitar" o convite num tempo em que é figura praticamente consensual e não só uma referência da Direita - como sucedeu nos anos pós--25 de Abril. "Beneficia de um reconhecimento que está muito para lá das fronteiras partidárias e ideológicas", diz Portas.

Formado em Histórico-Jurídicas pela Faculdade de Direito de Lisboa, defensor da doutrina social da Igreja, Adriano foi advogado no início da carreira e dedicou-se logo na casa dos 20 anos ao que seria a grande paixão profissional: dar aulas.

Adriano Moreira começou por ser da oposição: assinou listas do Movimento de Unidade Democrática a pedir eleições e defendeu a família de um general falecido na prisão, entrando em choque com o poderoso ministro Santos Costa - e daí resultou a ida para a prisão do Aljube, onde encontrou Mário Soares.

Sem pertencer à União Nacional, entrou no radar de Salazar pelas posições sobre África. "O que fez como ministro do Ultramar [1961-63] é absolutamente extraordinário", sublinha Portas, como "a revogação do Estatuto do Indigenato, a igualização dos portugueses que vivam em África aos de cá, a abolição do trabalho forçado, a abertura das universidades no que viriam a ser Estados soberanos de língua portuguesa...."

Dadas as reservas à sua política, que o fez sobressair como putativo delfim de Salazar e acabou por o levar à demissão, regressou ao Instituto. A presidência da Sociedade de Geografia (1965) acompanhou a travessia do deserto associada à ascensão de Marcelo Caetano ao poder e à escolha de José Hermano Saraiva para ministro da Educação.

Em 1975 foi ao Brasil e aí ficou, ao saber do mandato de captura que o esperava em Lisboa. Dedicado à docência no Rio de Janeiro, regressou após o Conselho da Revolução lhe devolver os direitos políticos (1977). Hoje tem tanto orgulho em afirmar que "nunca saíu do CDS" desde que lá entrou - em 1979 - como, antes, em dizer que nunca pertenceu "a nenhum partido" nem teve "nenhum chefe carismático".

José Ribeiro e Castro, ex-líder centrista, enaltece "o fundador de uma escola de Ciência Política em Portugal, o ISCSP (antigo Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina). Formou gerações de grandes quadros do Estado e da Administração Pública" e, frisa, "é um obstinado do pensamento estratégico, uma das pessoas que, de forma mais consistente, mais estruturada e persistente chama a atenção para o vazio" nessa área no país.

Também "é dos civis mais respeitados pelas Forças Armadas", em particular na Marinha. "A Língua e o Mar são peças essenciais do seu pensamento", adianta o ex-deputado sobre quem "organizou os primeiros congressos da Lusofonia ainda antes do 25 Abril". Adriano Moreira, elogia, "teve a perceção do que seriam os caminhos da História e estimulou a criação de laços entre o que viria a ser, depois da descolonização, a grande riqueza dos países africanos lusófonos".

Para o general Loureiro dos Santos, outra figura que assume consultar Adriano Moreira "sobre certas questões e como devem ser abordadas", o transmontano de Grijó "é uma pessoa de superior envergadura intelectual, extremamente simpática e humana na forma como lida com os outros".

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