Abandono escolar do superior caiu no Estado mas subiu no privado

No público, 9,8% desistem no 1.º ano das licenciaturas. No privado, 12,4%. Partidos sugerem medidas. Ministério do Ensino Superior diz estar já a atuar

Entre 2015 e 2016, o abandono escolar entre os novos alunos do ensino superior - estudantes que já não se encontravam no sistema um ano após iniciarem os seus cursos - baixou nas instituições públicas, aumentando no superior privado. O combate ao abandono é o tema de projetos de resolução de todos os partidos, que serão discutidos esta tarde na Assembleia da República. Mas o Ministério da Ciência, tecnologia e Ensino Superior (MCTES) garante que já estão a ser dados vários passos com esse objetivo.

De acordo com dados do portal Infocursos, no ano letivo de 2015/16 registou-se uma taxa de abandono de 9,8% nas licenciaturas e de 2,3% nos mestrados integrados do ensino superior público. Números que comparam favoravelmente com, respetivamente os 10,3% do ano letivo anterior. No que respeita aos mestrados integrados a queda é mesmo para menos de metade do ano anterior.

Já em relação ao superior privado, a tendência foi inversa, com níveis de abandono de 13,5% nas licenciaturas e de 12,4% nos mestrados integrados quando, um ano antes, esses valores tinham ficado nos 12,6% e 5,5%.

Os dados aos quais o DN teve acesso não permitem quantificar exatamente quantos estudantes de politécnicos e universidades públicas e privadas acabaram por abandonar os estudos ao fim de apenas um ano de curso. No entanto, tendo em conta que cerca de 72 mil alunos iniciaram em 2015/16 a sua formação inicial no superior, o total de abandonos no 1.º ano não estará longe dos cerca de 7000.

Para João Redondo, presidente da Associação de Estabelecimentos do Ensino Superior Privado (APESP), não há mistério em torno do agravamento da situação no privado: " O efeito crise faz -se sentir mais em quem tem de pagar a totalidade das propinas. Essa é a explicação mais plausível que existe", defende. "No ensino público, mesmo que o insucesso académico surja, pode haver uma certa persistência, porque os alunos não têm de suportar os custos desse insucesso. Quem o suporta são os contribuintes".

Já no privado, acrescenta, "acontece com frequência que, se o estudante vislumbra que não tem possibilidade de ter sucesso em determinadas disciplinas, abandona. E isso sente-se particularmente quando os problemas do país afetam mais as famílias".

No que respeita ao setor público, Nuno Mangas, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, admite que a ligeira recuperação possa já estar relacionada com a maior atenção que está a ser dada ao problema.

"Há uma preocupação crescente por parte das instituições do ensino superior, em particular dos politécnicos, em relação ao abandono escolar, e estas têm vindo a adotar estratégias tendo em vista a redução desse abandono", diz, admitindo: "Sabemos que há um caminho longo ". Entre as medidas, "diferentes de instituição para instituição", aponta como exemplo o "maior acompanhamento dos estudantes"; que passa por "perceber qual é o seu percurso académico ao longo do ano letivo e por ter programas de apoio aos estudantes com dificuldades económicas".

Estudos e mais ação social

Na sessão plenária desta sexta-feira, na Assembleia da República, serão discutidas iniciativas de todos os partidos com assento parlamentar com o objetivo comum de fazer baixar o abandono. Entre elas, algumas -como a realização de um estudo sobre este fenómeno e o reforço dos mecanismos da ação social - que o governo diz estar já a implementar.

"O combate ao abandono escolar no contexto do ensino superior é uma medida já constante no Plano Nacional de Reformas", lembra o Ministério do Ensino Superior em resposta enviada ao DN, no qual lembra que o objetivo foi "contratualizado" nos acordos assinados em julho de 2016 com as instituições do setor, tendo estas "assumido o compromisso de reduzir o abandono".

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