A ver as feridas e em busca de soluções para a desertificação

PS "não precisa de novos aliados" mas o PSD pode tornar-se um "interlocutor válidos", diz Carlos César

Anabela continua com a casa em ruínas, Antero quase só tem cinzas para cultivar e António está a reerguer a empresa praticamente sozinho. As feridas dos incêndios do ano passado - e, em última análise, da desertificação que afeta parte do território nacional - tardam a sarar no concelho de Penacova (distrito de Coimbra). Foi para conhecê-las que os deputados se fizeram à estrada, ontem, no arranque das Jornadas Parlamentares do PS, subordinadas ao tema "Proximidade, Transparência e Descentralização". Para hoje fica a discussão de eventuais soluções, sem precisar de "novos aliados", mas com a expectativa de que o PSD, sob a liderança recém-eleita de Rui Rio, se torne um "interlocutor válido" nesse debate - como reconheceu o líder parlamentar dos socialistas, Carlos César.

Com o grupo parlamentar dividido em visitas a 12 dos concelhos mais afetados pelos fogos de junho e de outubro (nos distritos de Coimbra, Leiria e Viseu), coube ao líder da bancada socialista encabeçar a comitiva que percorreu as paisagens ainda enegrecidas de Penacova e ouvir as histórias do que as chamas levaram. "Pensei que não saía daqui viva", contou, em Travanca do Mondego, Anabela Santos, à espera que o projeto de reconstrução da sua casa, e do marido, António Dias - uma das 56 danificadas no concelho -, seja desbloqueado.

"Máquinas e alfaias... tudo o que tinha para serviço ardeu tudo", lamentou-se, quilómetros adiante, em Ribeira, Antero Mendes, agricultor de subsistência ("uns cereais para as cabras e as ovelhitas, umas couves, umas batatas..."), a quem já não compensa coletar-se nas Finanças para pedir compensações pelos 30 mil euros perdidos. "Temos de avançar. Há muita gente à espera de receber [indemnizações], para só depois fazer obras, mas eu não quis", explicou, em Outeiro Longo, António Almeida, que não esperou pela candidatura a apoios para começar a reerguer a fábrica de reciclagem onde terá sofrido um prejuízo de 300 mil euros ("ainda não tive tempo para tratar disso").

Foi à porta do pavilhão reconstruído da empresa que Carlos César fez o balanço da jornada. "Esta não é uma visita para fazer propaganda do Governo, mas também não é para estimular desesperanças. É destinada a - tomando conhecimento daquilo que carece de uma solução - procurar melhorar as condições, para que o Governo tome a decisão adequada", afirmou. Esse é o trabalho de curto prazo. A longo prazo, "há outras medidas de natureza mais estrutural e reformista [de descentralização e combate à desertificação do interior do país], que implicarão um debate mais aprofundado e conclusivo no âmbito parlamentar". E esse será um dos temas em discussão hoje, em Coimbra, no segundo e último dia das jornadas parlamentares do PS - o outro será a transparência

Com essas reformas em cima da mesa, o líder parlamentar (e presidente) do PS estende a mão ao PSD, mesmo admitindo não necessitar de novos parceiros. "Não precisamos de ter novos aliados, mas precisamos de todos os interlocutores", referiu, já depois de ter mostrado expectativa de que o maior partido da oposição se torne "um interlocutor válido". "No plano partidário temos uma situação de transição num partido político que é relevante para a democracia portuguesa, e para todos os acordos e consensos que são sempre necessários. Desejamos que resolvido este período em que o PSD se tornou um pouco terra de ninguém, estejam criadas condições para uma interlocução mais sólida", referiu, sem querer alimentar polémicas quanto a algum mal-estar no BE e PCP devido à eventual aproximação PS/PSD. "É muito importante manter a atenção naquilo que nos trouxe até aqui", frisou - eram as feridas de desertificação.

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