"A Marinha Grande devia liderar um grupo de estudos sobre o 18 de janeiro"

Hermínio de Freitas Nunes, o investigador autodidata que mais se debruçou sobre a revolta, diz que foi "destratada" e "maltratada" pelo poder político.

Há 84 anos, estava tudo combinado para que o país assistisse a uma greve geral sem precedentes, em todo o país. "Ninguém se levanta de manhã e dizolha, vamos fazer uma revolução", lembra Hermínio de Freitas Nunes, o homem que, a partir da Marinha Grande (onde a revolta assumiu contornos guardados na história, como o assalto ao posto da GNR e dos Correios) tem dedicado grande parte do seu tempo à investigação dessa revolta, revolução ou insurreição - como é chamada. Quando a 18 de janeiro os operários se revoltaram, não era sequer sonhado pelo casal de ferroviários de quem viria a ser filho. Anarquista militante, passou pelas juventudes comunistas desde os 16 anos, numa altura em que contabilizava já "0 12º emprego". Aos 61 anos, é este autodidata o autor da maior parte dos trabalhos de investigação publicados a propósito do 18 de janeiro: 9 livros de sua exclusiva autoria, mais três em parceria, sem contar com os inúmeros artigos de jornal que foi escrevendo sobre o assunto, a partir do momento em que chegou à Marinha Grande, em 1977.

A derrota dos operários


Por esta altura, na cidade do vidro há sempre uma romagem ao cemitério, onde agora repousam já todos os que integraram a rebelião. A Câmara dedica-lhe também alguma programação cultural, e o Sindicato dos Vidreiros faz questão de lembrar a data. As marcas desse 18 de janeiro de 1934 ficaram gravadas por lá e em várias zonas do país. "Registaram-se greves gerais de caráter pacífico em Almada, Barreiro, Sines, Silves, e manifestações operárias, mais ou menos violentas na Marinha Grande, Seixal, Alfeite, Cacilhas e Setúbal", escreve o Almanaque Republicano, nos 80 anos dessa revolta. "Teve muito impacto sobretudo nas zonas corticeiras", lembra Hermínio Nunes, que sintetiza a revolta como "a grande derrota do operariado revolucionário, e do sindicalismo democrático". O mesmo que tinha conseguido "sair vitorioso de uma série de lutas, durante a Primeira República, e na ditadura militar que antecedeu a de Salazar, com a criação das associações de classe". Hermínio considera que a data e o que ela representa tem sido "destratada e maltratada na Marinha Grande". Lembra, a título de exemplo, as comemorações do ano passado: "só porque a Câmara liderou ao assunto e convidou para uma conferência o Carlos Silva, secretário da UGT, caiu o Carmo e a TrindadeDevia ser um ponto de união e há muitas tricas políticas". Mas há uma Casa Museu, dedicada ao 18 de janeiro. "Tem pouca atividade" lamenta Hermínio.

"A Marinha Grande devia liderar um grupo de estudos sobre o 18 de janeiro", sustenta o investigador, pois que afinal existem já dois doutoramentos baseados nessa revolta: o do algarvio João Vasconcelos, deputado do Bloco de Esquerda, e um outro, de António José Ferreira, diretor do Jornal da Marinha Grande, pronto a ser defendido. O primeiro foi defendido já em 2002, o último incide "no papel da imprensa local na (re)construção do mito". António José Ferreira, que cresceu a ouvir as histórias da revolta, lembra que esse "movimento insurrecional que eclodiu há 84 anos, foi facilmente controlado pelo regime liderado por Salazar, que em 1933 recebeu mandato popular para avançar com o Estado Novo, através da Constituição que limitava a ação sindical. A nova ordem é legitimada por um plebiscito que deu uma vitória esmagadora ao regime autoritário". Não conformado com o fim do sindicalismo livre, "a oposição republicana e a corrente mais à esquerda tentou reagir e andou meses a debater as respostas a dar. Os comunistas liderados por Bento Gonçalves preconizavam uma greve nacional. Os anarco-sindicalistas de José de Sousa queriam ir mais além: uma ação insurrecional". Acabaria por vingar a corrente mais radical.

O diretor do Jornal da Marinha Grande que inicialmente dedicou ao tema a sua tese de mestrado, avançando agora para o doutoramento recorda como os acontecimentos da Marinha Grande tiveram eco nacional, n" O Seculo e no DN: "noticiam os factos, condenando-os de forma veemente, uma vez que colocaram em causa a ordem pública, restabelecida ao princípio da manhã. Aliás, o número de horas que os operários assumiram o controlo da vila é contraditório entre os investigadores, bem como a eventual constituição do soviete da Marinha Grande sugerido por alguns sem qualquer suporte científico. O controlo da autarquia local não foi igualmente comprovado até hoje", sublinha. "Ou seja, a literatura existente mostra-nos que não há um 18 de Janeiro de 1934, há vários, contados de formas distintas". Ferreira socorre-se dos jornais O Avante e A Batalha, entre 1975 e 1984, e perceber as visões de comunistas e anarco-sindicalistas. "Foram estas diferenças de pensamento, entre muitas outras, que levaram à construção de um mito, ou melhor, de mitos que se têm vindo a perpetuar no tempo em função de interesses, sobretudo políticos", conclui. Entretanto, o movimento acabaria por ser perpetuado no tempo pelo Partido Comunista Português, sobretudo a partir de 18 de janeiro de 1975, quando Álvaro Cunhal vai à Marinha Grande apadrinhar a efeméride, "passando a constar do seu património, não reconhecendo que mais ninguém retire dividendos políticos. A pancadaria no cemitério da Marinha Grande, em 1982 entre comunistas e socialistas, é um exemplo desta apropriação, que se mantém até aos dias de hoje".
O golpe fechado "numa caixa hermética"

Hermínio Nunes corrobora essa posição do atual diretor do Jornal onde começou por escrever a base de toda a investigação. "O problema é que o 18 de janeiro fica fechado numa caixa hermética, qual vitória da ditadura de Salazar. O único jornal que de vez em quando escrevia alguma coisa era o Avante. Os anarquistas fiaram sem imprensa. E eles é que levaram ao colo toda a organização do 18 de janeiro, e ficaram decepados de todas as suas chefias, que foram parar ao Tarrafal. No grupo de mais de 150 presos que vai de Portugal, em 1936, ia toda a direção da Confederação Geral Portuguesa". Estava arrumado o caso, por muitos anos.

Quando vai às escolas, falar sobre o tema, Hermínio Nunes vê-se a braços com duas dificuldades: "uma é explicar como é que, aos cinco anos, já vinham miúdos trabalhar para as fábricas de vidro. Outra é explicar o conceito de liberdade. É complicadíssimo explicar como foi viver sem ela". Amiúde, fala não só nas escolas como noutros fóruns. "Aqui [na Marinha Grande] quase todos ouviram pelo menos falar da data, porque em todas as casas houve um bisavô, um avô, alguém que esteve ligado ao movimento", conta ao DN Hermínio Nunes, depois de ter participado numa conferência alusiva ao tema, por iniciativa do Sindicato dos Vidreiros, sexta-feira passada, na Marinha Grande, ao lado do diretor dos Arquivo Nacionais/Torre do Tombo, Silvestre Lacerda. O investigador recua uns anos, até 1977 (quando chegou à cidade vidreira) para constatar, de novo, como ficou "tão desiludido com o Partido Comunista que encontrei aqui, onde era fácil ser comunista. Vi algumas atitudes que me chocaram. Ainda hoje apoio no que é preciso, sempre que me é solicitada a presença numa conferência eu vou, mas chocou-me o profundo analfabetismo dos comunistas da Marinha Grande sobre a história do partido deles, o que ainda agora se viu de novo".

Hermínio fala do memorial erguido na localidade de Casal Galego, "onde faltam uma série de nomes", a título de exemplo. E quando foi, afinal, que este antigo funcionário da CP - mais tarde convertido à indústria de moldes, hoje (aposentado) dedicado à oficina onde repara sobretudo relógios, mergulhado na investigação de revoltas e ofícios começou a interessar-se pelo 18 de janeiro? "Quando assisti às primeiras comemorações, ao chegar à Marinha". Depois veio a crise de 1985, e foi aí que o tecido social lhe acabaria por mostrar a importância da data e de tão pouco se saber a respeito do que fora. Em casa do sogro antigo funcionário da fábrica Manuel Pereira Roldão, que o país inteiro haveria de conhecer nos anos 90, pelas cargas policiais sobre os trabalhadores juntava-se "um monte de miúdos a comer sopa. E os pais só não vinham porque tinham vergonha", recorda. Uma década depois, perante a crise da Pereira Roldão,

Hermínio decide que era tempo de ampliar a coluna de opinião que mantinha no Jornal da Marinha Grande. "Percebi que alguma coisa estava mal, porque o que eu ouvia nos discursos alusivos ao 18 de janeiro não condizia com a verdade dos factos". Por essa altura conhece o jornalista e escritor Jorge Reis, radicado em França, na sala de espera do aeroporto, em Paris. "Foi ele que me abriu imensas portas e apresentou tanta gente importante para a investigação sobre o 18 de Janeiro". Ele conhecera pessoalmente [na clandestinidade] Manuel Domingues, uma das figuras dessa revolta, assassinado na Marinha Grande em 1951. Apresenta-lhe Maria Branca, a companheira, e muitas outras figuras conhecedoras da história. Até aos anos 90, Hermínio Nunes ouvira falar da data "como se fosse uma coisa muito local. E afinal não era". Das centenas de presos na sequência da revolta, apenas dois "apanharam a pena máxima: António Guerra, da Marinha Grande, e um anarquista de Coimbra, Arnaldo Simões Januário", ambos mortos no Tarrafal. Alguns conseguiram regressar. Foi o caso de Júlio Marques. Desterrado, escreve um poema que se tornou emblema de muitos camaradas:

E nunca desanimai
Que um castelo também cai
A vingança há de chegar
Lacraram a nossa mãe
Que tantos filhinhos tem
Que se andam a abraçar
A ferros quatro lá estão
Sem se saber a razão
No Aljube estão enterrados
Encerram no coração
Que é a firma Roldão
Que de tudo são culpados

Entretanto, na Marinha Grande, o camarada João Pedro Tojeira registava o encerramento do sindicato também com poesia:
À frente de tanta gente
Foi um tenente quem lacrou
E que levou para a prisão
Sem ter razão quem a fundou
Ainda há de vir o dia
Em que a alegria venha a meu lar
Pois então hei de dizer
Vou combater para me vingar

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