A intriga búlgara que envolveu Durão Barroso

Barroso apressou-se a desmentir o apoio a uma búlgara na corrida para secretário-geral. E já tinha anunciado apoio a Guterres

Na origem da informação, desmentida por Barroso, que ontem quase provocou um terramoto - segundo a qual o ex-presidente da Comissão Europeia iria apoiar uma candidatura à ONU contra Guterres - estará um antigo colaborador seu, atualmente próximo , como lobista, de países pró-Rússia.

O ex-eurodeputado do PSD e ex--secretário de Estado dos Assuntos Europeus do governo de Barroso, Mário David, está no centro dos acontecimentos. Se foi surpreendente a notícia publicada num credível jornal online - o Euroactiv - que colocava Durão Barroso a apoiar a atual vice-presidente da Comissão Europeia, a búlgara Kristalina Georgieva, para o mais alto cargo da ONU, recuando assim na sua anterior posição a favor de António Guterres, o que esteve na origem da mesma, inspirará qualquer filme de intriga internacional.

Esta sexta-feira de manhã, em plena comemoração do Dia de Portugal (o que também não deixa de ser irónico) o Expresso referia, citando o Euroactiv, que o ex-presidente da Comissão Europeia tinha aproveitado o encontro do grupo Bilderberg, que decorre em Dresden, na Alemanha, para angariar apoios a favor de Georgieva, deixando cair o candidato do seu próprio país. Um perentório desmentido de Barroso, lembrando que apoiou "desde sempre" Guterres, acabou com as dúvidas, mas o sucedido provocou uma avalanche de movimentos nos bastidores diplomáticos.

De acordo com o Euroactiv, Kristalina Georgieva, que exerce o cargo de comissária do orçamento e recursos humanos, teria escolhido para procurar apoios, precisamente, Mário David, tido como "amigo" dos países de Leste desde que foi conselheiro especial para o alargamento da UE a estes Estados, o que lhe permitiu ficar com contactos de topo de todos os mais importantes dirigentes.

Mário David teria alegadamente contactado os governos da Albânia e da Hungria. Deste último recebeu, em abril passado, das mãos do próprio primeiro-ministro, Viktor Orban, uma condecoração, na embaixada húngara em Lisboa pela "amizade" e "defesa dos interesses políticos e económicos" daquele país. "É um verdadeiro amigo, ficou ao nosso lado mesmo quando outros nos viraram as costas", salientou na altura Orban, que dirige um governo marcado ultimamente pelas suas posições antirrefugiados.

Segundo fontes do DN conhecedoras dos bastidores lobistas europeus, Mário David é neste momento "uma personalidade com grande influência a leste e o seu papel neste processo será determinante para uma candidatura desta região". Moveu habilmente as peças do xadrez geopolítico, lançou a confusão e, principalmente, serviu fria a vingança contra Barroso, de quem já foi íntimo, devida por um processo movido por este contra o governo húngaro (por adoção de legislação contra os princípios europeus, em 2012) numa altura em que David já faria lóbi pelo primeiro-ministro Viktor Orban. Recorde-se que Mário David foi o responsável por toda a campanha de angariação de apoios internacionais para Barroso chegar ao mais alto cargo da UE.

Ao que o DN apurou, David, até ao ano passado vice-presidente do eurogrupo PPE, conta também para apoiar Georgieva, com o primeiro-ministro da Sérvia, Alexander Vucic, o qual, juntamente com Viktor Orban, terão tentado convencer o chefe de Estado búlgaro, Boyko Borissov, a desistir da candidatura oficial do seu país à ONU, que é nesta altura Irina Bokova, diretora-geral da UNESCO (ver caixa com candidatas oficiais). Borissov terá refutado, contava o Euroactiv, alegando ter na sua posse informações sobre a ligação de Kristalina aos antigos serviços secretos búlgaros, conotados com a ex-URSS. Ponto em comum entre a Hungria, a Sérvia e a Bulgária? Têm todos assumido posições pró-Rússia e este movimento serve os interesses de Vladimir Putin de conseguir, de forma indireta ter um candidato que defenda o seu país. O voto da Rússia é, além do mais, determinante para a vitória do próximo (a) secretário-geral das Nações Unidas.

Outro pormenor que não pode deixar de ser assinalado em toda esta situação é que o autor do artigo do Euroactiv é um jornalista búlgaro. "Pode bem ser uma coincidência, mas tendo em conta os contactos a todos os níveis de Mário David, é difícil não pensar que também aqui houve o seu dedo", admite uma das nossas fontes. Segundo o site da publicação, Georgi Gotev, um editor "sénior" do Euroactiv desde 2008, foi membro de uma equipa de cinco diplomatas que em 1993 abriu a primeira delegação da Bulgária na Comunidade Europeia. Desde 1998 tem feito a cobertura da adesão do país à UE para vários órgãos de comunicação social búlgaros e internacionais.

O DN tentou contactar, sem sucesso Mário David e José Manuel Durão Barroso.

Entretanto, em Bruxelas, a candidatura de Georgieva começa a assumir alguma dimensão. Kristalina Georgieva já abordou Jean-Claude Juncker sobre a possibilidade de o tema da candidatura, ao lugar disputado pelo português António Guterres, "poder aparecer". "Posso confirmar que, na verdade, o presidente e a vice-presidente Georgieva discutiram a possibilidade de que essa questão possa aparecer", disse a porta-voz de Juncker, salientando a "grande admiração" que o presidente tem pelo perfil da sua atual comissária. "O presidente tem uma grande admiração pela experiência internacional, capacidade de negociação e a capacidade de trabalho da senhora Georgieva, especialmente nestes tempos da crise de refugiados, em que ela organiza, a toda a hora, o orçamento necessário para que possamos gerir a crise de refugiados", adiantou.

No site da ONU ainda não consta a candidatura oficial de Kristalina Georgieva.

Com João Francisco Guerreiro, Bruxelas

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