A amêndoa coberta de Moncorvo resiste e está pronta para o futuro

É o mais recente produto português a ter a certificação europeia de Indicação Geográfica Protegida. Páscoa é um dos picos de produção

Pode não ser o produto de confeitaria mais consumido nesta época pascal mas a amêndoa coberta de Moncorvo é uma das especialidades mais antigas e famosas do concelho transmontano do distrito de Bragança. Em Torre de Moncorvo, a confeção desta amêndoa mantém-se, agora com renovado entusiasmo após ter recebido, em março, a certificação de Indicação Geográfica Protegida pela Comissão Europeia, tornando-se o mais recente produto gastronómico português a receber esta classificação (há mais de 160) e a única amêndoa nacional a possuí-la. Ficou na classe dos produtos de padaria, de pastelaria, de confeitaria ou da indústria de bolachas e biscoitos.

"São mais-valias para o produto, para os produtores e os consumidores. Esta certificação obriga a uma garantia de qualidade, com uma série de requisitos a terem de ser cumpridos. Por exemplo, não podem ser utilizados quaisquer corantes", disse ao DN Joaquim Morais, do Agrupamento de Produtores de Amêndoa e de Amêndoa Coberta de Moncorvo, entidade que com a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo iniciou este processo de certificação europeia. A amêndoa coberta já era, a nível nacional, uma Denominação de Origem Protegida.

O concelho de Torre de Moncorvo insere-se no Douro, a região do país com mais amendoeiras, e será o município com maior produção de amêndoa, aponta Joaquim Morais, um professor que se dedica à produção de amêndoa coberta e ao comércio de produtos artesanais da região. "O peso da amêndoa coberta no total de produção é muito relativo. No concelho há indústrias a produzir amêndoa nas várias qualidades." Este é um produto artesanal , com um tratamento já posterior à produção para a tornar um produto gastronómico apetecível. O agrupamento representa oito produtores.

"Inicia-se com a compra da amêndoa que é cá de Moncorvo. Tem de ser, a importada é muito diferente, o sabor não é o mesmo", refere Joaquim Morais, realçando que o processo que se segue é totalmente artesanal. "Isto é um ciclo de oito horas por dia em oito dias. Primeiro é escolhida a amêndoa, depois é escaldada para ser retirada a pele, de forma manual. O passo seguinte é ir ao forno para torrar. E a calda de açúcar é preparada", explica.

Quando a calda de açúcar está no ponto, a amêndoa é colocada numa bacia de cobre e então, sobre fonte de calor, é regada com a calda. "Aqui entram as cobrideiras, que são as mulheres que mexem a amêndoa até a calda ficar agarrada." Depois este processo repete-se, com a temperatura sempre controlada, para ficar mais calda agarrada, quanto mais ficar mais bem definidos ficam os bicos da cobertura que lhe dão o aspeto característico. Demora dias. "É um processo artesanal que é uma autêntica missão", diz Joaquim Morais.

Há três tipos de amêndoa coberta: a tradicional, coberta só com açúcar; a peladinha, quase só o grão, coberto por uma ligeira camada de açúcar, e a morena em que se junta canela ou, em vez de açúcar, se utiliza chocolate.

A produção é feita durante todo o ano. "Os meses de fevereiro e março, até esta época da Páscoa, são os de maior produção em quantidade. As amendoeiras em flor trazem muitos visitantes e é quando se vende mais. Na Páscoa também vivemos um pico", explica o produtor. Além da venda no concelho, a amêndoa coberta pode ser encontrada em todo o país. "Temos distribuidores que nos compram. Está no El Corte Inglés e noutros locais de grande venda. Há também procura de países onde há emigrantes, com Brasil, França e Alemanha."

Sabor quase tropical

Quanto ao volume de produção deste produto típico, Joaquim Morais diz não conseguir precisar. "Agora, com a certificação europeia, vamos ter uma melhor organização. Atualmente não posso dizer um número. Mas, no universo da amêndoa, falamos de quilos e não de toneladas", refere.

O preço é variável. "Isto já é considerado um produto gourmet. Um quilo pode custar 50 euros", mas é vendida normalmente em pacotes de cem gramas.

E o que a distingue quando vai à boca? "É o sabor, a amêndoa tem uma certa acidez, como é torrada fica com um sabor quase tropical", aponta Joaquim Morais, que vê na região mais interesse na produção de amêndoa em geral. "É preciso fiscalização, há situações pouco claras. O Douro tem cada vez mais plantações de amendoeiras, com os subsídios à plantação. Mas deveria haver penalizações a quem planta e não colhe", adverte o produtor.

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