A 15 minutos de Lisboa e sem hotéis para turistas

Só faltam mesmo alojamentos na região em que o Cristo Rei, o desporto e gastronomia cativam visitantes

A 15 minutos de Lisboa de barco, mas a quilómetros de distância no aproveitamento do movimento de turistas que a capital tem gerado nos últimos anos. É esta a realidade de Almada, Seixal, Barreiro, Montijo e Alcochete. Cinco municípios que poderiam aproveitar - tal como Sintra e Cascais - o número cada vez maior de visitantes estrangeiros que escolhem a capital para passar férias ou fins de semana, mas que não o conseguem fazer por falta de infraestruturas básicas neste negócio: alojamento.

Tem monumentos - o Santuário do Cristo Rei (Almada) é um dos mais visitados a nível nacional -, mar para atividades náuticas e surf e uma gastronomia variada. Mas só agora, e em algumas daquelas cidades, começam a surgir hostels ou alojamento local para agarrar os turistas que, por agora, apenas chegam às cidades, visitam e regressam aos seus hotéis em Lisboa.

Foi o caso de Marco Aurélio e Daniela Cunha, um casal de fotógrafos brasileiros que no segundo dia de visita a Portugal foram a Almada ver Lisboa "do outro lado" e conhecer o Cristo Rei. "Não conhecíamos. Disseram-nos para vir aqui, tem uma bela vista para Lisboa. É legal." O casal fez a viagem de Lisboa para a margem sul de tuk-tuk - a viagem dura uma hora entre a saída de Lisboa, a passagem pela Ponte 25 de Abril, ida ao Cristo Rei e regresso e custa 50 euros - e depois de uma rápida visita regressou ao hotel onde está instalado.

Esta passagem por Almada de Marco e Daniela é o retrato perfeito do que é o turismo na margem sul do Tejo: sempre a subir o número de visitantes - por exemplo, o reitor do santuário, padre Sezinando Luís Felicidade Alberto, disse ao DN que este monumento terá recebido em 2017 cerca de um milhão de pessoas, mais 16% do que no ano anterior -, mas poucos são os que ficam alojados em algum dos municípios pois não há oferta hoteleira para aproveitar o aumento de estrangeiros que visitam a Área Metropolitana de Lisboa: no ano passado foram mais de seis milhões. O casal brasileiro - uma das nacionalidades que mais subiram numa lista de hóspedes estrangeiros em Portugal que tem no top 3, respetivamente, ingleses, franceses e espanhóis - saiu satisfeito da visita e passou a integrar as estatísticas que não param de crescer, apesar de neste caso apenas contarem para as do santuário inaugurado em 1959 como agradecimento do país por Portugal não ter participado na II Guerra Mundial.

Na realidade os dados oficiais que certificam o aumento da procura de uma região são os de dormidas divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e neste particular entre 2012 e 2016 Almada passou de 259 139 dormidas nos seus três hotéis para 355 426. Os novos números sobre o alojamento nos municípios no ano passado só serão conhecido mais para o final do ano, mas a autarquia reconhece que em 2017 este número terá subido.

A câmara liderada pela socialista Inês de Medeiros é um bom exemplo do que se passa com a maioria dos municípios do arco ribeirinho do Tejo - Almada, Seixal , Barreiro, Montijo (passou das 86 135 dormidas em 2015 para as 112 515 no ano passado) e Alcochete (de 14 918 para 19 177, de 2015 para 2016). Em quase todos houve um aumento da procura no ano passado. Há, todavia, um que está fora desta corrida: o Barreiro, que entre junho e dezembro de 2017 recebeu no seu posto de turismo 50 cidadãos estrangeiros. Um número residual e para o qual o vereador com o pelouro do Turismo, Rui Braga, tem uma explicação: "Falta-nos oferta de camas." Para o Barreiro, a aposta mais imediata tem, assim, de ser o investimento nesta área com o envolvimento "dos privados na reabilitação de edifícios para residências, hostels. Estamos atrasados alguns anos, mas estamos atentos", frisou.

Sem hotéis, mas com rio

Inês de Medeiros reconheceu que Almada também tem de melhorar neste capitulo: "Temos uma área ribeirinha com potencialidades para ser um complemento à oferta turística de Lisboa, mas falta-nos hotelaria. Por isso vimos com bons olhos tudo o que seja projeto para o aumento da hotelaria. Isso [maior oferta] tem consequências e não é só na época alta, também queremos trazer congressos, festivais e por isso ter pouca oferta hoteleira é prejudicial." Um dos desafios é fazer que as pessoas que visitam o Cristo Rei alarguem a estada na região. "As pessoas vão ali, mas não vêm à cidade. Temos de criar uma relação entre o Cristo Rei e Almada", reconhece.

Outra aposta é a requalificação da Costa de Caparica, conhecida pelas praias e os seus surfistas - há na cidade diversas escolas. "Temos de preparar a Costa para todo o ano e de olhar para aquele território como ele é, praticamente todo em paisagem protegida. Temos de apostar no ecoturismo, o facto de haver ali uma reserva ecológica e agrícola é uma mais-valia para se apostar num turismo de qualidade. Não é uma limitação, é uma oportunidade para um turismo sustentável", frisou.

Já para o representante dos comerciantes de Almada, há muito trabalho a fazer, nomeadamente na melhoria de "acessos às praias, à Herdade da Aroeira, nas estradas. E a Costa de Caparica necessita de uma grande remodelação". Gonçalo Paulino defende que Almada tem de divulgar mais a sua gastronomia - "sabia que as amêijoas à Bulhão Pato são um prato de Almada?", diz ao DN - e, claro, a hotelaria. "Temos três hotéis e a Costa está agora a ter muitos hostels, tal como em Cacilhas. Mas temos de dinamizar o alojamento local", defendeu.

Porto de recreio no Seixal

A par de Almada, o Seixal é o outro município do arco ribeirinho que está a receber cada vez mais estrangeiros. A falta de alojamento também é um problema, mas tem um trunfo para cativar turistas: a baía. "É a nossa pérola", sublinhou ao DN Carla Russo, a coordenadora do Gabinete de Desenvolvimento Económico e Turismo da autarquia.

O concelho tem registado um aumento de estrangeiros que procuram informações no posto de turismo - 5649, em 2017, e 3424, em 2016 -, mas não tem dados sobre dormidas de não residentes. Há, todavia, projetos para investimento em unidades hoteleiras aproveitando algumas quintas que a autarquia tem vindo a recuperar. Mas é na ligação ao rio Tejo que o Seixal aposta. A autarquia dirigida pelo comunista Joaquim Santos tem feito divulgação da sua baía e decorre até ao final do mês "um estudo de viabilidade técnica para se fazer um porto de recreio", explicou Carla Russo. Infraestrutura que deverá ter cem locais de acostagem e que pretende corresponder ao aumento de interesse por parte dos amantes da náutica que, frisa a responsável, é cada vez maior.

Esta aposta no rio e na zona ribeirinha é comprovada por Homero Videira, o vice-presidente da associação de comerciantes. "A zona ribeirinha está em crescendo e está muito perto de Lisboa, de barco é rápido", sublinhou. Homero apresenta como vantagem da Margem Sul o facto de o alojamento ser mais acessível do que em Lisboa e o investimento em restaurantes, além do desejo do Seixal em ter uma marina "para outro tipo de turismo". Por outro lado, lamenta a "grande carência de camas. Há poucos hotéis, Cacilhas já tem vários hostels, que até ajudam a requalificar os edifícios. A estratégia tem de passar pelo desenvolvimento de mais alojamentos".

Aposta nos nichos

Em Alcochete também há problemas na oferta de alojamento - mesmo assim registaram 19 177 dormidas nem 2016, comparando com as 14 918 de 2015 -, mas o município está apostado em atrair turistas com ofertas de nicho. "Fazemos um trabalho de valorizar os monumentos de interesse público e cultural que temos, no turismo da natureza, vigília de aves, percursos pedestres e o trabalho na Fundação das Salinas do Samouco", explicou ao DN o vereador com o pelouro do Turismo, Vasco Pinto. O executivo liderado pelo socialista Fernando Pinto espera que os dados de dormidas referentes ao ano passado confirmem a subida de visitantes em cerca de 25% quando comparado com 2016.

"Temos também de valorizar a gastronomia local", acrescentou Vasco Pinto, que adiantou estar a autarquia em contacto com a administração do espaço comercial Freeport para que os turistas que vão de Lisboa nos autocarros que a empresa coloca à sua disposição passem a ter a possibilidade de visitar o centro histórico de Alcochete. Projetos em estudo sim, mas com uma certeza: "Queremos um planeamento que atraia visitantes, mas sem menosprezar aquilo que é a identidade local e a vida normal de uma vila ribeirinha. Valorizamos muito a qualidade de vida."

Já o Barreiro, que tem "cinco milhões de euros para investir no turismo", como sublinhou ao DN o vereador Rui Braga, vai tentar começar por cativar turistas com a oferta de um circuito de arte urbana "com o maior mural feito pelo Vhils [a inaugurar hoje numa zona inserida no antigo complexo industrial da Quimigal e num investimento da Baía do Tejo]". Aposta que não reduz a impotência de a cidade estar "atrasada alguns anos. Neste momento não temos capacidade para aproveitar o fluxo de turistas que chega a Lisboa. Temos de nos adaptar rapidamente", concluiu.

Um processo em que Almada está mais avançada. Voltamos ao início: o Cristo Rei e o constante movimento de carros, autocarros, tuk-tuks e pessoas a tirar selfies com a Ponte 25 de Abril e Lisboa em fundo. "Amo isto aqui. Já cá vim outras vezes e como trabalho em turismo no Brasil aconselho a virem sempre aqui. Há postais à venda que as pessoas pensam que são de Lisboa, mas são de Almada", diz ao DN Naiara Drumond. "Estou à espera de sete pessoas que vêm num cruzeiro e quando chegarem vou dizer-lhes para virem a Almada", garantiu. Mas o grupo só vai passar porque vão ficar alojados "no Cais do Sodré". Em Lisboa, claro.

Lisboa é uma marca para o turismo e não pode ser "vendida" apenas como a cidade, mas sim como uma região com 2,5 milhões de habitantes. Esta é uma das ideias centrais de Vítor Costa, o presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa que defende a urgência do novo aeroporto no Montijo e a segmentação da área metropolitana para um melhor acesso aos fundos comunitários.

Vítor Costa "É preciso aumentar a qualidade dos transportes e o investimento no alojamento"

Lisboa é uma marca para o turismo e não pode ser "vendida" apenas como a cidade, mas sim como uma região com 2,5 milhões de habitantes. Esta é uma das ideias centrais de Vítor Costa, o presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa que defende a urgência do novo aeroporto no Montijo e a segmentação da área metropolitana para um melhor acesso aos fundos comunitários.

Como é que a Área Metropolitana de Lisboa está a aproveitar a subida no turismo na região?

Há muito que promovemos a região de Lisboa e não só a cidade. No entanto, o crescimento verificado nos últimos anos e algumas questões estruturantes colocam-nos à beira de um novo desafio para atingirmos um novo patamar. O desafio é passarmos a considerar Lisboa como um destino urbano de 2,5 milhões de habitantes, em vez de um destino de 500 mil. Continuarmos a desenvolver a marca Lisboa, que é o que atrai os turistas e, ao mesmo tempo dar-lhe mais conteúdos, considerar uma abrangência territorial mais vasta. Uma cidade com duas margens, em que o Tejo seja um fator de união e, também, uma cidade que não acaba em Algés, no Prior Velho, no Senhor Roubado ou em Carnide. Este desenvolvimento da marca Lisboa é compatível com o espaço próprio das marcas Cascais e Sintra, já consolidadas, e com o desenvolvimento da marca Arrábida, que é outro desafio.

Há alguma estratégia mais vocacionada para a Margem Sul ou a estratégia é regional?

Além desta nova abordagem, nomeadamente no marketing, que constitui o desenvolvimento lógico do que tem sido a evolução do turismo na região, há três questões de fundo: a oferta aeroportuária, a mobilidade interna e o investimento. O atual défice aeroportuário tem de ser resolvido porque estamos no limite. A solução do segundo aeroporto de Lisboa na atual base aérea do Montijo não só resolve os constrangimentos, como será um fator-chave na estratégia regional que referi. Outra questão é a da mobilidade interna. Resolver esse problema é essencial para o turismo mas, sobretudo, beneficia as populações e o ambiente. Quando se fala da cidade das duas margens torna-se óbvio que é preciso investir muito e rapidamente na melhoria e no desenvolvimento do transporte fluvial. Mas também é necessário investir na mobilidade interna na península de Setúbal. Um turista que chegue ao futuro aeroporto no Montijo e pretenda ficar alojado em Almada não pode ser obrigado a fazer uma viagem Montijo-Lisboa e outra Lisboa-Almada. E a questão não se esgota no transporte fluvial, mas também no ferroviário e no transporte público rodoviário. É preciso aumentar drasticamente a qualidade destes transportes. E há outras questões em termos de mobilidade que são fundamentais, como a articulação entre todos os meios e o preço. Uma terceira questão diz respeito ao investimento. Não há turismo sem investimento na oferta, nomeadamente no alojamento.

Com o aumento de turismo registado há o risco de a área metropolitana ficar "esgotada"?

Não vejo a possibilidade de tal acontecer, se forem resolvidas as questões estratégicas referidas. Aliás, a questão do esgotamento está prestes a acontecer se não forem tomadas medidas, mas por causa da questão aeroportuária. Como, por razões de localização, o nosso turismo depende em 90% do transporte aéreo, se não houver crescimento da capacidade aeroportuária não haverá aumento do turismo e ficamos por aqui. A verdade é que o turismo elevou o prestígio da cidade, gerou novas procuras, estimulou a reabilitação urbana, criou postos de trabalho, aumentou a riqueza, melhorou as finanças públicas. Por causa do estímulo gerado pela valorização da imagem da cidade aumentaram os turistas, mas também os estudantes estrangeiros, novos empresários, trabalhadores qualificados, novos residentes millennials e seniores, novas iniciativas e novos investimentos. Isto não significa que não haja um lado "negro". Por causa da valorização da cidade, a habitação ficou mais cara, o fenómeno da gentrificação nalguns bairros históricos acentuou-se, os serviços públicos tiveram dificuldade em acompanhar o aumento do número de utilizadores, os transportes públicos estão mais pressionados. A resposta a estas questões tem de ser dada através de uma gestão adequada do desenvolvimento, nomeadamente através de políticas públicas que encarem estes fenómenos, facilitadas pelos novos meios financeiros que foram gerados.

Há algum apoio previsto para os municípios do arco ribeirinho - Almada, Seixal, Barreiro, Montijo e Alcochete - investirem no aumento da sua oferta turística, nomeadamente na hotelaria?

Nessa matéria há um problema grave, que é a limitação do acesso da região de Lisboa, no seu conjunto, aos fundos comunitários, por causa dos indicadores médios de desenvolvimento. A verdade é que a região não é uniforme. Se se pretende aproveitar melhor o conjunto do território para o desenvolvimento sustentado do turismo e, para o conseguir, é preciso atrair investimento hoteleiro, não se pode tratar por igual a cidade de Lisboa - que concentra 76% das dormidas hoteleiras - nem mesmo Cascais ou Sintra, face a municípios que, tendo grande potencial turístico, não têm investimentos que o permitam aproveitar. O problema do discurso oficial é insistir muito na necessidade de corrigir desequilíbrios territoriais no nosso país, olhando para as regiões no seu conjunto, mas esquecendo que o município do Porto tem acesso a fundos comunitários que os municípios do Barreiro ou do Seixal não têm. Esta situação deve ser corrigida, segmentando-se a região de Lisboa, quer em termos de programas comunitários quer em termos de programas nacionais.

O mercado de cruzeiros é uma aposta com potencial de crescimento na área metropolitana. O que está a ser feito para o conseguir?

A expectativa é que o atual número de passageiros de cruzeiros, de cerca de 500 mil, possa duplicar a médio prazo. Além disso, espera-se rentabilizar melhor este segmento, aumentando o número de passageiros que começam ou acabam o cruzeiro em Lisboa e, para o efeito, aqui permanecem alguns dias. Fruto desta estratégia teremos neste ano em Lisboa, pela primeira vez, a maior feira do setor, a Seatrade.

Quais os principais mercados que procuram Portugal e a Área Metropolitana de Lisboa?

Os mercados europeus são, e vão continuar a ser, o nosso core business - França, Espanha, Alemanha, Reino Unido e Itália são os mais importantes. Ainda há muito para crescer. A nossa quota de mercado na Alemanha, por exemplo, ainda é de apenas cerca de 2%. O mercado que mais cresceu no ano passado foi o brasileiro [segundo o Turismo de Portugal subiu 34,6% para cerca de um milhão de dormidas] e o mercado dos EUA também teve um crescimento significativo. Da Europa do Leste também houve crescimento, especialmente da Polónia e da Rússia. As dormidas de chineses também passaram a ter significado estatístico.

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