12 milhões para reduzir as listas de espera em cirurgias

No primeiro semestre deste ano, havia 1493 obesos a aguardar pela operação. Há casos em que é preciso esperar até dois anos

O Ministério da Saúde vai avançar com um programa para reduzir as listas de espera na cirurgia da obesidade. Para isso vai disponibilizar 12 milhões de euros para operar 2 mil doentes no próximo ano. Até junho estavam em lista de espera 1493 doentes. E há quem espere dois anos pela operação. De acordo com os dados do Portal do Serviço Nacional de Saúde (SNS) - relativos a abril, maio e junho -, dos 20 hospitais que apresentam tempos de espera (alguns do mesmo centro hospitalar), oito têm tempos de espera superiores aos máximos recomendados de 270 dias para doentes de prioridade normal. Carlos Oliveira, presidente da Associação de Doentes Obesos (ADEXO), lembra que há muito é pedido um programa para dar resposta a estes doentes.

Na lista sobressai o hospital de Évora, com 703 dias de espera: quase dois anos. Mas há outros onde é ultrapassado o máximo recomendado: 566 dias no Centro Hospitalar de Gaia/Espinho, 326 dias no Entre o Douro e Vouga, 360 no do Porto (hospital de Santo António). O Sistema de Gestão da Lista de Inscritos para Cirurgias mostra que 2015 terminou com 1289 doentes a aguardar e a mediana era de 5,3 meses. 27% já estavam à espera acima do tempo máximo. Nesse ano foram operados 1337, menos 8,2% do que em 2014. Até junho deste ano estavam na lista 1493 doentes.

Em 2017, o Ministério está apostado em reduzir a lista de espera. "Está a ser estudado um programa de financiamento específico a integrar no contrato-programa a estabelecer com os hospitais do SNS em 2017, incentivando-se a resolução destes casos, recriando um programa que já existiu e foi suspenso nos últimos anos. Prevê-se que o mesmo inclua cerca de 2000 utentes (o que significaria um crescimento superior a 30% face a valores de 2016), o que representará um verba de cerca de 12 milhões de euros anuais", adianta o gabinete do ministro Adalberto Campos Fernandes. O programa inclui que a avaliação ao doente "seja efetuada por uma equipa multidisciplinar, por um período nunca inferior a três anos".

Segundo a tutela, "são abrangidas por este programa de financiamento as instituições reconhecidas pela Direção-Geral da Saúde, como centro de tratamento ou de elevada diferenciação para o tratamento cirúrgico da obesidade grave". Na última lista, publicada há um ano, havia 18 centros reconhecidos pela DGS, entre público e privado.

Carlos Oliveira, presidente da ADEXO, mostra-se satisfeito com a decisão de recuperar um programa lançado quando Ana Jorge era ministra. "É uma ótima notícia e faz parte do que há muito pedimos e que irá pôr os hospitais a funcionar." Os motivos de preocupação são claros: "Há cada vez menos hospitais a operar e o número de doentes está a subir. Em Lisboa já só há dois hospitais a fazer tratamentos cirúrgicos à obesidade: Curry Cabral e Egas Moniz. Santa Maria está praticamente parado. E as listas de espera para cirurgias da obesidade chegam a 300, 400 e até 700 dias, como acontece em Évora", afirma. Garantindo que "o Curry Cabral e o S. João estão a fazer a quase totalidade das cirurgias", Carlos Oliveira deixa uma questão: "Porque é que os outros pararam? É a pergunta que tem de ser feita. O Estado gasta 680 milhões por ano em doenças associadas à obesidade. Enquanto o governo não resolver fazer algum tratamento, este dinheiro está a ser mal gasto."

À associação chegaram queixas de três doentes do Amadora-Sintra há muito inscritos para cirurgias, "que não tiveram resposta, nem foram encaminhados para outro centro", refere Carlos Oliveira. Fonte do Hospital diz ao DN que as cirurgias da obesidade estão a ser feitas mas a casos considerados urgentes e que apresentaram um plano de resposta integrada em que se propunham fazer 600 operações por ano, que aguarda resposta da Administração de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.

Rui Ribeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas, refere que vários hospitais suspenderam atividade. "Há uma redução do número de doentes operados por ano. Em 2014 foram cerca de 3 mil, no ano passado 2400 [SNS e privados]. No caso do meu serviço, no Centro Hospitalar Lisboa Central, ficámos aquém da capacidade porque o hospital não consegue contratar mais anestesistas. É o que se passa um pouco por todo o país. Há casos em que falta material, noutros há limite de cirurgias. É uma decisão de cada administração. Os pagamentos que são feitos atualmente não são atrativos e os hospitais perdem dinheiro por cada cirurgia."

O médico aponta as vantagens de se investir nas cirurgias da obesidade: "Ao fim de três anos e meio, o custo da cirurgia está amortizado. No caso das mulheres que ficam mais magras, reduz-se duas vezes e meia o risco de cancro" e o de sequelas como doenças cardiovasculares, AVC e enfartes, "prolongando em 15 anos a vida de doentes operados com menos de 40 anos".

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