Um português no centro da reforma da zona euro "será bom"

A eventual vitória do português Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo, hoje, tem um valor simbólico para o país e para o próprio ministro das Finanças. Mas os desafios que a zona euro tem nos próximos anos também lhe vão dar influência e capacidade de intervenção, segundo várias fontes ouvidas ontem pelo DN

Ainda sem saber o desfecho da votação, o eurodeputado socialista Carlos Zorrinho considera que a candidatura do ministro das Finanças português já é "uma grande vitória". Mas se se concretizar a eleição, "Centeno pode ser o presidente do Eurogrupo que mata a "TINA" (There Is No Alternative [Não há alternativa]), ou seja a ideia de que estar no euro só implica políticas neoliberais e austeridade". Carlos Zorrinho frisa que não é indiferente o perfil do presidente daquele órgão e que Mário Centeno tem uma política concreta, colocada em prática em Portugal, para demonstrar o que é possível fazer.

De uma família política bem diferente, o vice-presidente do PPE e eurodeputado social-democrata Paulo Rangel também considera que "será bom" para Portugal a eleição de Centeno. O facto de ir acumular a pasta das Finanças com a presidência do Eurogrupo é, na opinião do eurodeputado, uma desvantagem porque não dá grande margem para defender os interesses nacionais naquele órgão informal. "Vai ter que fazer um esforço de conciliação que pode, num caso ou noutro, limitar a defesa dos interesses do país", argumenta.

Ainda assim, Rangel entende que é muito atrativo ser um português a presidir ao Eurogrupo quando está a ser pensada a reforma da zona euro. "É importante estar a coordenar os esforços desta agenda entre chefes de Estado e de governo, com regras que vão perdurar durante anos, e ser uma pessoa com uma visão dos países do sul. É uma influência que pode ter relevância e ter acesso a informação privilegiada é muito positivo", afirma o eurodeputado do PSD.

Idêntica visão tem o conselheiro de Estado Marques Mendes, ao considerar que "no momento em que Mário Centeno preside ao Eurogrupo, Portugal vai ter uma voz mais ativa na definição do futuro modelo da reforma". No seu comentário na SIC, o antigo líder do PSD frisou ainda que a eleição, a concretizar-se, também é uma boa notícia para os que defendem contas públicas nacionais em ordem. "Portugal tem de dar o exemplo de disciplina orçamental".

Já a nível interno, Mendes vê na nova função do ministro das Finanças alguns "amargos de boca" para os parceiros de coligação, PCP e BE, que já disseram não achar qualquer graça à candidatura. "É mais um atrito dentro da coligação", tanto mais que com a eleição de Mário Centeno deixará de existir a desculpa de que quando alguma coisa corre mal a culpa é de Bruxelas, do euro e do Tratado Orçamental.

Ministro competente

"Mário Centeno é um ministro tecnicamente muito competente", começa por dizer o ex-ministro Luís Campos e Cunha. Acresce que "tem uma formação académica que lhe pode dar uma grande vantagem de interpretação e resolução de problemas. Como tal, poderá certamente contribuir de uma forma positiva para que a zona euro seja mais forte do ponto de vista económico e do ponto de vista monetário", adiantou.

Mário Centeno é um dos quatro candidatos à presidência do Eurogrupo, a par do luxemburguês Pierre Gramegna (liberal), do eslovaco Peter Kazimir (socialista) e da letã Dana Reizniece-Ozola (conservador). Além do apoio oficial da família socialista, o governante português terá igualmente o de alguns conservadores - à cabeça dos quais estará o da Alemanha. O vencedor terá de recolher o voto de 10 dos 19 países membros da zona euro. Caso não haja fumo branco à primeira volta, haverá novas rondas até ser escolhido um dos candidatos (que podem desistir no final de cada votação).

Para Eugénio Rosa, Centeno "pode fazer pouco [porque] não é ele que manda". O economista da CGTP sublinha que "o facto de ser nomeado" para a liderança do Eurogrupo "tem um certo simbolismo", porque "Portugal torna-se mais conhecido" - mas para "fazer mudar alguma coisa tem a capacidade certamente limitada", na medida em que "quem manda são os grandes países e ele não tem" essa força. "Não sei se é vontade dele alterar alguma coisa profundamente mas, como vai ser obrigado a defender as políticas que sejam aprovadas ali, acaba por dar cobertura a isso, o que é negativo", adianta.

Eduardo Catroga, outro antecessor de Centeno, enfatiza que a sua eventual eleição traduzirá "o reconhecimento da política de ajustamento orçamental" iniciada com o governo PSD/CDS e prosseguida pelo do PS. Mário Centeno, ao atingir os objetivos aprovados pela UE, ganhou "prestígio pelo facto de ser ministro das Finanças de um governo com parceiros que eram contra as regras orçamentais europeias".

João Duque relativiza a eleição de Mário Centeno, desde logo porque "os ministros das Finanças não fazem o que querem, não são donos da Europa". Além disso, observa o economista, o ministro "perde a sua identidade" ao assumir um cargo de coordenação em que "não pode estar contra o grupo". Centeno "não pode impor nada aos outros", apenas "liderar as discussões" dos temas em agenda, indica o especialista, frisando ser "mais importante o ministro das Finanças que representa a Alemanha ou a França do que o coordenador dos ministros da zona euro.

Honório Novo, ex-deputado do PCP, diz que Centeno "já é membro do Eurogrupo e tem de continuai a desempenhar as funções na estrita medida e no estrito papel que desempenhou até agora". Portugal, conclui, "não terá muitos motivos para sorrir, independentemente da presença e Mário Centeno e do papel" que vier a ter.

Diplomacia eficaz

Fontes de Bruxelas garantiram ao DN que a candidatura de Centeno só começou mesmo a ser considerada junto dos parceiros europeus "há 15 dias". E que o eventual sucesso da candidatura se deve em muito ao trabalho da diplomacia portuguesa, que conseguiu "enfraquecer" as hipóteses do que era visto como candidato mais forte, o italiano Pier--Carlo Padoan (que não avançou) ao insistir na ideia de já haver várias instituições europeias lideradas por italianos, como o BCE e o Parlamento Europeu. Costa terá feito o resto da diplomacia nos contactos com os principais parceiros do euro, espanhóis, franceses e alemães.

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