Assistem ao parto e participam em tudo. "Somos a geração de pais mais dedicada"

Os novos pais mudam fraldas, dão banho, alimentam e cuidam. Mas não têm o tempo de que gostavam para estar com os filhos

"Ter um filho é um processo de partilha eterno. Pai e mãe têm responsabilidades, desde as tarefas mais simples, como mudar a fralda ou alimentar o bebé. Não se coloca a questão de o pai ajudar. É tudo partilhado." É assim que Marco Paiva, de 37 anos, encara a paternidade. Foi por isso que resolveu participar num curso de preparação para o parto, quando soube que a mulher, Rita, estava grávida da Maria, agora com 7 anos. "Queria desmistificar ideias relativamente à paternidade, adquirir competências." Dar banho, por exemplo, era uma tarefa que o assustava. "Achava que não a conseguia segurar. Mas foi uma meta que atingi."

Marco assistiu ao nascimento da Maria e mais tarde da Madalena, agora com 2 anos. "Tive receio, mas ultrapassei. No curso falaram sobre a periodicidade das contrações, o acompanhamento, a colaboração na respiração. Foi muito importante perceber isso e sinto que fui útil. É das coisas mais belas", diz ao DN. A propósito do Dia do Pai, que se comemora hoje, o ator afirma que o grande desafio destas gerações "é perceber que o trabalho não é prioritário" e tentar chegar "a um equilíbrio", numa sociedade "que é rápida e hipercompetitiva".

O papel dos pais mudou, sendo hoje mais ativo do que algum dia foi. É o que defende o brasileiro Marcos Piagers, pai, jornalista, conferencista e youtuber. Acredita que esta é a melhor geração de pais. "É uma declaração que pode soar estranha, afinal temos a impressão de que os pais modernos são relapsos, permissivos, desleixados, terceirizam a educação dos filhos para tablets, celulares, televisão, videojogos", diz ao DN o autor do livro O Pai É Top. Contudo, apesar de "todos os desafios dos dias de hoje (falta de tempo, obsessão pelo consumo, tecnologia mal utilizada)", acredita que as novas gerações de pais têm "mais informações e, portanto, acertam mais".

O avô era "da geração que viu as grandes guerras" e queria apenas que a filha "sobrevivesse", pelo que alimentá-la "era o suficiente. Não havia muito carinho ou conversa na relação". Já a mãe, queria apenas que Marcos se formasse e tivesse um emprego estável. "A nossa geração, de uma forma muitas vezes atrapalhada, quer acertar em tudo: preocupa-se com alimentação, educação, saúde, amizades, uso consciente das tecnologias, preparação para as profissões do futuro. Somos mais conscientes e, portanto, a geração de pais mais dedicada. E acredito que, contrariando os pessimistas, a tendência é para melhorar. Todo o pai é um otimista."

Da preparação ao parto

Filipe Jeremias, de 37 anos, concorda que o papel dos pais se alterou, resultado das "mudanças dos tempos". "As informações estão mais disponíveis. É inevitável que haja uma transformação nesta área. Sinto uma diferença abismal entre a relação que tenho com os meus filhos e aquela que tenho com o meu pai. Mas porque os tempos são outros." É pai do Tomás, de 14 anos, da Lara, de 11, do Tomé, de 2, e da Lana, que tem uma semana e meia. "Participei nos partos todos. A questão da parentalidade e da gestação foram temas que sempre me interessaram", diz ao DN o agente de mudança, com vários projetos na área da educação.

A sua presença ao lado da mulher foi "extremamente importante", mas "não no sentido egocêntrico". "Abriu caminho para o empoderamento da minha mulher, que tinha necessidade de se valorizar mais." Já no que diz respeito aos filhos, destaca que "a aprendizagem começa no quarto mês de gestação", pelo que o pré-natal "é muito importante".

De uma maneira geral, o interesse dos pais nos vários acontecimentos da vida dos filhos tem aumentado. "Nos últimos anos assistiu-se a um movimento de "demo- cratização" da família: a mulher deixou de se ocupar só dos assuntos familiares e domésticos e saiu para trabalhar, enquanto o homem deixou de trabalhar apenas e em contrapartida envolveu-se de forma mais próxima daqueles temas outrora limitados à mulher", diz a obstetra Marcela Forjaz.

O assistir ao parto "é mais uma forma de os pais viverem um acontecimento já não exclusivo do mundo feminino e acaba por ser o dar voz a um desejo natural em muitos dos pais, que pretendem não só estar presentes para apoiar a sua companheira, mas pelo filho, pela emoção de o receber, conhecer, tocar, abraçar em simultâneo com a mãe". Isto leva, diz a especialista, a que muitos pais "façam algum esforço para não se intimidarem com o aspeto mais cru do parto".

A própria legislação, diz a médica, "foi mudando, acompanhando e incentivando de alguma forma essa proximidade a este processo familiar". Refere-se, por exemplo, ao alargamento da licença obrigatória do pai para 20 dias úteis. Um período que, para muitos pais, é ainda insuficiente. "No pós-parto, a intervenção do pai está muito limitada ao tempo que tem para intervir a tempo inteiro. A licença obriga-o a voltar ao trabalho passado pouco tempo, o que é extremamente violento, porque não consegue dar o apoio que gostaria", lamenta Tito Miguel Basto, de 33 anos, fundador do Centro Pré e Pós-Parto, destacando que deveria ser alargado "o tempo que o casal tem para estar com o bebé em simultâneo".

Há 11 anos, quando o espaço abriu, Tito diz que existiam muitos cursos vocacionados para a mãe, mas poucos onde o pai estava presente. "Criámos uma dinâmica onde o pai é convidado a participar. E temos números superiores a 95% no acompanhamento da preparação para o parto", refere o facilitador de parentalidade consciente. Muitos têm vontade de acompanhar a mulher no parto, mas há outros, lamenta, para os quais isso é "uma imposição". "O importante é o diálogo. Não se deve assumir logo que o pai tem de estar presente. Muitos adoravam, mas não são capazes."

Do cuidador ao amigo

Filipe Jeremias trabalha a partir de casa, pelo que passa quase 24 horas por dia com a mulher e os quatro filhos, que estão em regime de homeschooling. "A minha relação é de cuidador, de facilitador de processos, orientador e também de amigo", revela. Cuidam uns dos outros para que as necessidades dos seis sejam satisfeitas. Sem que uns tenham "um papel de destaque" em relação aos outros.

Existe nas novas gerações de pais uma maior proximidade aos filhos. Mas, diz Marcos Piangers, os homens estão tradicionalmente "treinados para serem bem-sucedidos financeiramente, e só". Ainda têm "vergonha de estar perto da família. Quando estamos com o bebé ainda ouvimos "está de babysitter?". Gosto de responder: "Não, estou de pai."
Para o autor brasileiro, de 37 anos, o maior perigo que enfrentam os pais modernos "é confundir amor com permissividade. É passar despercebido que o amor ensina e educa".

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