O novo candeeiro da . coleção P.S. demorou dois anos a chegar às lojas da IKEA. Wiebke . Braash, a autora do design, passou muitas horas em volta do seu . tecido branco, que faz lembrar o tule de uma saia de bailarina. Cada . parte foi pensada para ser desmontada e empacotada numa pequena . caixa. A luz é LED. Todos os componentes são separáveis e . recicláveis. Wiebke, que fala num inglês fechado, com sotaque . alemão, confessa que metade dos designs em que trabalha acabam no . lixo. Precisamente pelo mesmo motivo que as instruções de montagem . são em imagens e que não há porcos no catálogo da marca sueca: . preço. O preço é tudo na IKEA. Usam imagens nas instruções para . não ter de pagar traduções. Proíbem porcos e símbolos religioso . para usar o mesmo catálogo em todo o mundo e poupar na produção. . Se a equipa chega à conclusão que não vai conseguir fazer aquele . sofá-cama por 69 euros, o design vai para o lixo e começa tudo de . novo. . "Fazer um bom . produto, com funcionalidade e qualidade e sustentável não é . difícil se puder ter um preço final alto. Mas fazê-lo barato é um . verdadeiro desafio", estabelece Wiebke, num tom de voz muito . baixo. "Tenho montes de produtos que nunca chegaram a ser . produzidos porque no final ficariam muito caros." . James Futcher, gestor de . produto, apressa-se a corrigir a ideia. Não quer que eu pense que a . IKEA tem designers a passearem-se pelos campos nostálgicos da Suécia . e a perderem tempo com produtos impossíveis. "Temos muitas . avaliações pelo caminho", assegura. "É por isso que . concebemos um dossiê muito detalhado, para o designer saber qual é . a tarefa que tem." O processo da IKEA é capaz de ser único na . indústria. Começa com a necessidade de uma peça para resolver um . problema, não com a epifania de alguém que sonhou com uma mesa de . cabeceira triangular. O gestor de produto faz um dossiê com todos os . requisitos, desde a funcionalidade a resolver, o estilo que deve ter, . o material, o empacotamento e o limite de preço. "Torna-se . muito claro para o designer o que tem de fazer, não se trata apenas . de fazer uma coisa gira", acrescenta Futcher. A meio do caminho, . toda a equipa vai para o chão da fábrica trabalhar com os . fornecedores. "Adaptamos o design ao que é necessário. Não o . contrário", informa Wiebke. É aquilo a que na IKEA se chama . "design democrático". Tem de ser bonito, bom, funcional, . sustentável e barato. Tem de responder às aspirações das pessoas, . mas com um custo acessível aos bolsos de toda a gente. Não é . low-cost: é barato. . "Não vejo a conexão . entre 'barato' e 'algo para deitar fora'. O valor reside na . qualidade, não no preço", considera Marcus Engman, diretor de . design da IKEA. Esta preocupação omnipresente com os gastos não é . uma coisa forçada, nem é vista como um constrangimento. Faz parte . da cultura desta região específica da Suécia, uma região que . sempre foi mais pobre que o resto do país, onde o chão é árido e . as temperaturas muito baixas. "Um agricultor nesta região há . 100 anos tinha colheitas muito pequenas, não podia desperdiçar . nada. Há uma falta de recursos aqui, sempre houve. Essa é uma parte . do ADN da IKEA", resume Marcus Engman. Este código genético, . que explica a sustentabilidade e a obsessão com o preço, também . emerge no design frio e confortável que tornou a IKEA popular em . todo o mundo. Engman, que assumiu o cargo este ano, quer regressar a . essas raízes. . "Queremos enfatizar . mais o estilo escandinavo", informa. "Talvez o novo estilo . seja a colisão da nossa história de design com o mundo exterior, os . novos comportamentos." Por exemplo, a IKEA está a fazer . experiências com mobília que envelhece, em vez de tentar que . permaneça igual ao dia em que foi comprada. "Poderá algo que . envelhece de forma belíssima ser também boa qualidade?" O . tratamento a óleo vai permitir que a mesa acumule riscos e padrões, . tornando-se um espelho da forma como a pessoa vive na sua casa. "Isso . é algo que os jovens querem hoje: comprar coisas com alma." . Engman também está a experimentar novidades com bambu, papel, juta . e fibras naturais. . "Esta empresa . assenta na curiosidade. Queremos aprender sobre os comportamentos das . pessoas, como é que resolvem os seus problemas em casa". Wiebke . explica que costuma inspirar-se em revistas, blogues e nas visitas . que faz às casas das pessoas. "Se uma pessoa perguntar a um . cliente o que quer, não obtém sempre a resposta certa. Temos de ler . nas entrelinhas", indica. "Vejo um móvel com uma série de . coisas em cima e percebo que há ali um problema de arrumação, . mesmo que não me digam." . Wiebke nota uma coisa . interessante: as pessoas deixaram de ligar tanto ao mobiliário. "O . interesse das pessoas na mobília para casa já não é assim tão . grande. As pessoas estão interessadas em comida, pensam tanto em . comida que é de doidos.". O que é que isso significa? Que . preferem gastar dinheiro nas almôndegas da IKEA em vez de edredons? . Ou que a IKEA tem de investir mais nos acessórios de cozinha? "O . facto de as pessoas não pensarem tanto em mobiliário é algo com . que temos de lidar", diz Wiebke, encolhendo os ombros. . Essa mudança de . comportamentos não é necessariamente má. Por causa da crise, os . filhos ficam em casa dos pais até mais tarde; então, a IKEA começou . a desenhar quartos para os filhos adultos. Em vez de beliches, . concebe secretárias pequenas para se encaixarem ao lado da cama. . "Nós somos solucionadores de problemas", resume Wiebke. . Depois há a "afirmação . de individualidade" de que Marcus Engman fala. "Os jovens . não compram tudo no mesmo sítio, nem mesmo na IKEA. Querem ter uma . mistura, compram em segunda mão", reforça. Acredita que é . isso que faz do estilo escandinavo um sucesso mundial. "É um . estilo simples, e as coisas simples são mais fáceis de misturar com . outras coisas." . A pressão da qualidadeUm dos pontos de viragem . da marca aconteceu nos anos sessenta, quando uma revista . especializada comparou mobílias IKEA com a de fabricantes mais caros . e concluiu que as da IKEA eram melhores. . Até hoje, essa é a pedra . de toque da empresa: barato não significa rasca. Quando se entra no . laboratório de testes da empresa em Älmhult percebe-se isso. O . complexo parece uma fábrica onde as máquinas tomaram o controlo. Os . colchões são testados com pesos de 130 quilos nas pontas, onde as . pessoas gostam de se sentar para calçarem os sapatos. Há uma casa . de banho fechada onde o duche se liga duas vezes por dia, para ver se . os móveis aguentam a humidade. Há um espaço onde se simula a . montagem das mobílias por clientes normais. Os testes costumam . demorar duas a três semanas para cada peça, simulando as milhares . de utilizações que terão no seu ciclo de vida. Não há . contemplações: se o produto não resiste, volta para trás. É um . processo moroso mas de que a IKEA se orgulha. "As pessoas . procuram mais valor pelo seu dinheiro", considera Jeanette . Söderberg, diretora de retalho do norte e centro da Europa. "A . ideia que fundamenta a Ikea nunca foi tão forte. Poder oferecer . produtos bons a preços baixos vai ser cada vez mais importante." . Söderberg, que esteve em Portugal em setembro, não nega que a . situação económica é preocupante. Mas garante que não há . pânico. "A forma como trabalhamos encaixa bem numa economia . mais difícil." . Essa eficiência de custos . é um esforço constante na empresa e o que lhe permite ter móveis a . 50 euros. É por isso que todo o catálogo da marca é fotografado e . produzido num único edifício em Älmhult, onde se encontra a sede. . O catálogo que vai para o Japão é o mesmo que vai para a Rússia, . Portugal ou Estados Unidos: daí não ter porcos nem outros símbolos . considerados sensíveis. Joakim Wahlgren, um dos líderes de projeto . da IKEA Communications (agência interna que faz o catálogo) explica . que a novidade deste ano é ter um tamanho mais pequeno que o dos . anteriores. Não se nota a diferença, mas poupou imenso dinheiro em . papel e transporte. "Fazemos o que podemos para manter os custos . baixos", diz, mostrando uma cozinha que está a ser fotografada . e rindo ao contar que quem aparece no catálogo são os próprios . empregados. Ele mesmo aparece na edição deste ano, que já foi . produzida em 2010. Cada catálogo demora 18 meses a ser feito, pelo . que o de 2013 já está pronto e o de 2014 está em curso. Em quase . tudo o que faz, a IKEA vive no futuro.