Qual foi a principal consequência de o Chega se tornar o segundo maior grupo parlamentar e o principal da oposição?O povo português quis realmente mudar o país e, a 18 de maio de 2025, deu-nos a honra de sermos líderes da oposição. Para nós não chega, pois queremos mesmo governar Portugal. Provou-se que tudo o que fizemos desde 2019, quando André Ventura foi eleito deputado - crescemos para 12 deputados em 2022, para 50 em 2024, e continuamos a crescer -, significa que estamos no rumo certo. A nossa mensagem tem passado para os portugueses, o que é o mais importante.Concretamente, o que mudou?É diferente ser a segunda força política, líder da oposição, do que a terceira, e isso aumenta a responsabilidade. Apresentámos mais propostas, já com o intuito de governar Portugal. Temos de apostar claramente em reformas que fazem falta, as que o Governo de Luís Montenegro prometeu e não cumpriu. Temos falado nos problemas dos portugueses. Se reparar, a agenda está sempre a ser marcada pelo Chega. Significa que estamos a fazer bem o nosso trabalho. No que toca à vossa relação com o PSD, este peso contribuiu para se passar do “não é não” para um estatuto de interlocutor privilegiado?Creio que o PSD já percebeu que tem de haver um caminho com o Chega. Oss portugueses foram claríssimos ao darem ao Parlamento uma maioria de direita constituída pelo PSD, enquanto maior força política, pelo Chega e pela Iniciativa Liberal. Se Luís Montenegro e o PSD não perceberem isso, é sinal de que não perceberam nada do que se passou nos últimos anos. Por vezes, penso que não perceberam mesmo. Quando ainda se continuam a aliar ao PS em algumas matérias, quando ainda continuam dependentes deles, significa que não perceberam totalmente a mensagem que o povo lhes deu. Já houve propostas que conseguimos trabalhar em conjunto, como a Lei da Nacionalidade ou no caso dos TVDE, que tem vindo menos à praça pública, mas é importante para regular bem o setor. Por vezes, também sentimos que ainda existe uma ala muito à esquerda dentro do PSD, que não pretende mesmo trabalhar connosco. Não gosto muito de falar de outros partidos, mas dá a sensação de que o PSD tem duas facções dentro de si, particularmente dentro do grupo parlamentar. Uma que percebe que há uma maioria de direita no Parlamento, e que temos de trabalhar em conjunto, e uma que continua a preferir trabalhar com o PS. Mas é o PSD que tem de arrumar a casa e de se unir.A maioria de dois terços de deputados à direita do PS tem funcionado aquém das suas reais possibilidades?Tem. Se fosse ao contrário, o PS, o Livre, o PCP e o Bloco de Esquerda estavam todos unidos, a tentar destruir a direita. A direita em Portugal, e em particular o PSD, tem sempre tendência a autodestruir-se. É uma coisa de que temos pena, sinceramente. Mas o Chega está muito tranquilo e tem sido um partido responsável. Nunca podemos perder as nossas bandeiras, e sabemos até onde podemos ceder. O Chega apareceu para ser um partido diferente dos outros, e não podemos nunca perder o nosso ADN. .Apesar das convergências na imigração e da nacionalidade, o facto de o Chega ter uma relação com deputados sociais-democratas, como Gonçalo Capitão e Teresa Morais, parecida com a que tem com as socialistas Isabel Moreira e Eva Cruzeiro não ajudará muito...Terão de ser os deputados do PSD a fazer essa reflexão. Atacamos o PSD quando temos de atacar. Dizer que não está a fazer reformas de que o país precisa é uma realidade que todos os portugueses constatam. Em dois anos de governação de Luís Montenegro, estamos praticamente iguais ao que estávamos com António Costa. Não foi para isso que os portugueses deram uma maioria não absoluta ao PSD. Foi para haver mudanças, e se calhar as sondagens estão refletir que não está a fazer o seu trabalho. Naquelas que o DN tem publicado, o Chega continua estável, com um ligeiro crescimento, mas a AD tem uma hecatombe eleitoral. Os portugueses estão a dar sinais, e o PSD tem de os perceber.Entende o sinal que os portugueses estão a dar quando o PS ganha alguma vantagem nessas sondagens?Sabemos que o PS é sempre beneficiado nas sondagens, e o Chega é sempre prejudicado. Lembro-me de uma sondagem em 2024, que nos dava 12% na véspera das eleições, e o Chega teve 18%, tal como havia sondagens nestas últimas eleições que davam a vitória ao PS, que ficou em terceiro lugar. Mas percebe-se que existe uma tendência de crescimento do PS, que está a buscar eleitorado à parte esquerda do PSD, aquele eleitorado que também não quer votar no Chega. Mas é o PSD que tem de fazer essa reflexão.Percebe o que leva algumas pessoas a dizerem que nunca votarão no Chega?Acho que estão erradas, mas também posso dizer que, não há muitos anos, em 2021, 2022 ou 2023, havia pessoas que diziam que nunca votariam no André Ventura, nem no Chega, e hoje são militantes e votam no Chega. O Chega conseguiu um eleitorado fixo. Percebemos nas presidenciais que há um eleitorado fixo, cerca dos 20%, enquanto o Chega mantiver este ADN combativo e estas propostas para o país. Isto é muito importante para um partido jovem. Estamos a comparar o Chega, que tem sete anos, com partidos com 50 anos, como o PS e o PSD. Tenho muito orgulho em que consigamos estar nessa luta, a pensar em vencer eleições, com um partido tão novo como o nosso. E que conseguiu ter este eleitorado tão fixo, tão fiel, tão leal, como percebemos que temos. Um dos pontos importantes da legislatura até agora foi a eleição dos órgãos externos da Assembleia da República, que está quase concluída. A negociação entre PSD, Chega e PS foi o marco que assinalou a oficialização do tripartidarismo?Foi o povo português que quis dizer que há três grandes partidos em Portugal. E temos que respeitar o voto do povo, que será sempre soberano. Mas o PSD não conseguiu largar as amarras do PS, como se viu na eleição dos juízes do Tribunal Constitucional. Adiámos as votações para fazerem mais um frete ao PS. De qualquer forma, não ignora que há quem veja neste processo um sinal de que o partido antissistema passou a ser um pilar desse sistema.Ser antissistema não é ser antirregime, e não nos podemos excluir de estar nos lugares que o povo nos deu por direito. É importante, até para reformular o regime que existe em Portugal, estarmos nesses lugares.Como reage a acusações, sobretudo vindas da Iniciativa Liberal (IL), de que o Chega é economicamente um partido de esquerda? A IL está sempre a tentar provar a sua sobrevivência. Tem praticamente o mesmo número de anos que o Chega e está com nove deputados. Passou de um para oito, de oito para nove, e anda por ali, enquanto o Chega cresceu muito. Percebo que a IL, em vez de atacar a esquerda, prefere atacar o Chega. Mariana Leitão tem tentado. Até nas redes sociais se vê muito mais atividade dela, a tentar imitar André Ventura. Não chega nem aos calcanhares. Vemos o número de visualizações de um e do outro, e a diferença é abismal.Gostava que a IL atacasse o Bloco de Esquerda e o socialismo, mas tem iniciativas nesta Assembleia da República em que vota ao lado do Bloco de Esquerda e do PS. Coisas muito mais de esquerda do que nós na parte da economia, Tentam sempre atacar-nos, mas não vão conseguir. O povo já percebeu que a IL não faz bem nem faz mal. É como o Melhoral. As propostas que trazem ao Parlamento interessam muito pouco aos portugueses, que têm dado esse sinal nas urnas.Ao falar dos partidos à direita, não mencionou o CDS. Para o Chega, o CDS não existe?O CDS é um partido do arco democrático, mas, sabemos que está metido numa coligação com o PSD, onde praticamente deixou de existir. A verdade é esta. Digo-o até com alguma pena, porque fui dirigente do CDS. Estive no encerramento do Congresso, onde o discurso de Nuno Melo foi do princípio ao fim a atirar-se ao Chega. Não é assim que vai crescer. A direita tem de atacar o socialismo e não atacar outros partidos de direita. Nuno Melo pensa que é assim que vai tirar votos ao Chega, mas não tirará um só. O CDS, infelizmente, está num caminho que não é o certo.Aparenta haver mesmo uma estratégia de o CDS se especializar em ser uma espécie de ponta de lança da AD para travar o Chega.Se a ideia é essa, não irá conseguir. Deixe-me dizer que o CDS tem dois bons deputados, o Paulo Núncio e o João Almeida, que estão muitas vezes de acordo com o Chega. Digo muitas vezes ao Paulo Núncio que ele recebe mais aplausos da bancada do Chega do que da bancada do PSD. Por vezes, sente-se até algum desconforto da parte do PSD com as intervenções dos deputados do CDS. O Chega ocupou espaço que era do CDS e este não conseguirá voltar a entrar nesse eleitorado, que é fiel, que se revê nas nossas iniciativas, e que percebe que o CDS vem agora a reboque das nossas propostas. Pode ser que haja a tentativa do PSD de meter um ponta de lança a atacar o Chega, ou a ir atrás das nossas propostas, mas recordo as declarações recentes de Passos Coelho. Quando falou de se ir atrás do populismo, poderia estar-se a referir ao Chega, mas disse que será o populista quem vai ganhar, pois o original é sempre melhor que a cópia. E a tentativa do PSD e do CDS copiarem as propostas do Chega não lhe está definitivamente a correr bem.O Chega assume-se populista?Não se assume populista. Assume-se como um partido que quer dizer o que os portugueses pensam. Não dizemos aquilo que as pessoas querem ouvir, mas sim aquilo que as pessoas sentem, porque andamos na rua e falamos com os portugueses todos os dias. Sabemos quais são os reais problemas da população. Ouço muitos deputados que falam do aumento de impostos, disto e daquilo, mas não ouvem as pessoas e não sabem quais são os seus problemas, em Portalegre, em Bragança, na ilha do Pico, no Faial, na Madeira ou em Porto Santo. Esta é a diferença. Nós sabemos e sentimos na pele, porque a grande maioria dos deputados do Chega nunca tinham sido políticos. Eram homens e mulheres que estavam no mercado de trabalho e sabem o que é trabalhar e os reais problemas da vida. Um dos problemas que as pessoas sentem é a idade da reforma, que o Chega tem a intenção de fazer regressar aos 65 anos. Acredita mesmo que o Governo, em troca da viabilização da reforma laboral, pode estar disponível a tomar essa decisão? O Governo tem que dar sinais aos portugueses. Num momento em que o país atravessa uma crise devido às guerras, em que ninguém sente que os impostos estão a baixar, ao contrário do que o Governo diz, em que as coisas estão cada vez mais caras, temos de dar sinais. Uma pessoa não pode trabalhar até morrer. O Governo está já a perspetivar aumentar a idade da reforma em mais dois meses, mas temos de dar um sinal contrário. Estabilizar e começar a baixar progressivamente. Ninguém pense que é de um dia para o outro que vamos mudar para os 65 anos. Ninguém pensa nisso, mas a ideia é chegar lá. Se o Governo diz logo de cruz que não está disponível para isso, é um Governo que não está disponível para o diálogo. Quer fazer aquilo que tinha no programa eleitoral, mas não se pode esquecer de que não tem maioria absoluta neste Parlamento e tem de aceitar propostas de outros partidos. Na reforma do Estado, estive na reunião, com mais deputados nossos, sobreo fim do visto prévio do Tribunal de Contas. Foi uma conversa agradável com o ministro Gonçalo Matias, mas a proposta do Governo já estava fechada. Ou seja, chamaram-nos para conversar. Não conhecíamos a proposta, mas levávamos algumas alterações, nunca mais houve conversa e o Governo apresentou a sua proposta ao Parlamento. Isto não é haver diálogo.É um simulacro de diálogo?Diálogo é quando perguntam que propostas temos e dizem que uma interessa e podemos falar dela, mas outra não. Isso é uma abertura ao diálogo. Chegarmos, estarmos lá uma hora, irmos embora, sermos todos gajos porreiros, é um simulacro de diálogo. Mas dizer que o Governo está a incentivar a corrupção com essa reforma do Estado não é populismo?Não, é uma realidade. Os contratos do Estado, que antes precisavam de visto prévio até 900 mil euros, vão passar agora para os 10 milhões. Apenas 5% vão precisar do visto prévio. Isto é um bar aberto à corrupção. O ministro Gonçalo Matias, e os presidentes do PSD e do PS podem dizer aquilo que quiserem, mas deixam de ter visto prévio do Tribunal de Contas 95% dos contratos públicos em Portugal. Já sabemos, infelizmente, o que tem sido a corrupção nas câmaras municipais. Não o digo com gosto. Digo-o até com pena, pois acho que a classe política deve ser muito melhor e não se deve corromper, nem devemos usar dinheiro dos portugueses em benefício próprio. Percebo que o PSD e o PS têm que alimentar as suas clientelas e presidentes de câmara. Também temos presidentes de câmara e certamente que também precisavam de maior facilitismo. Mas facilitar é uma coisa. Abrir as portas à corrupção é completamente diferente e, infelizmente, é o que este fim do visto prévio está a fazer.As reticências do PSD quanto ao arranque do processo de revisão constitucional são um indício de que, como o líder do Chega tem dito, existe uma oportunidade histórica que se arrisca a ser desperdiçada?Aquilo que André Ventura disse é mesmo verdade. A direita em Portugal tem uma oportunidade histórica. O CDS já percebeu e a IL também. Falta ao PSD perceber isso também. Há uma hipótese única de fazer uma revisão constitucional histórica. É isso que pretendemos e aguardo ainda que o PSD entre nesse jogo também [desde que a entrevista foi gravada, o PSD e o Chega fizeram um acordo que atira o arranque do processo para o final deste ano].De qualquer forma, dependendo de quatro partidos, é muito provável que o Chega não tenha tudo o que deseja nessa revisão.Quando entramos numa negociação não é para termos tudo o que desejamos. Por isso é que é uma negociação.E quais são as vossas linhas vermelhas nessa revisão constitucional?É uma expressão de que não gosto, confesso. Foi usada pelo deputado Eurico Brilhante Dias, quando o Chega passou para 12 deputados, e ele disse que havia linhas vermelhas dentro do Parlamento. Correu-lhes mal. Linhas vermelhas algo que não gosto, pois já outros tentaram utilizá-las, e ao fim e ao cabo não houve linhas vermelhas, nem verdes, nem azuis, não houve nada disso. Há uma negociação que tem de ser feita. A nossa proposta de revisão constitucional está em cima da mesa. Aguardamos as dos outros partidos, mas acho que há pontos em comum. O preâmbulo da Constituição é um ponto em comum na direita portuguesa, tal como retirar a eliminação dos latifúndios da Constituição. E creio que pode haver mais pontos em comum entre os quatro partidos. É uma questão de falarmos, mas tem de ser um diálogo construtivo. Não um diálogo em que cada um puxa a brasa à sua sardinha, e não dá em nada. A direita tem na revisão constitucional um bom motivo para se entender. O protagonismo de André Ventura acaba ou não por dificultar a afirmação de outros deputados no vosso grupo parlamentar e o fim da ideia de que o Chega é um partido de um homem só?Acho que essa ideia já foi desfeita. Mesmo que estivesse noutro partido, gostava que houvesse algum deputado com o protagonismo que tem André Ventura. Fazia falta a todos os partidos políticos haver um deputado ou um presidente com esse protagonismo. Como líder parlamentar e secretário-geral do Chega, fico muito orgulhoso em ter um líder tão conhecido como André Ventura, e que consegue falar das matérias como ele fala. Isso dificulta o aparecimento de outros deputados? Creio que não. Vemos deputados do Chega diariamente nas televisões. Temos bons quadros. Isso tem-se provado aqui na Assembleia da República. Por vezes, será a própria comunicação social que dá mais destaque quando é o André Ventura. Temos intervenções muito boas de vários deputados e, à noite, nos telejornais, não passam. Mas passam se for o André Ventura. Fico contente, mas rejeito a ideia de que o Chega não tem outros bons deputados.Se tivesse de apontar uma revelação entre os novos deputados do Chega nesta legislatura arriscaria algum nome? Não o faria, até porque tenho um grupo de 60 deputados muito uniforme. Uma coisa que tentamos fazer é metê-los todos a falar. Enquanto há partidos onde deputados ainda não tiveram uma intervenção em plenário, os nossos já fizeram várias. Se recebem um ordenado, estão aqui para trabalhar pelos portugueses e têm de falar no plenário. Quando dizemos que temos de baixar o número de deputados na Assembleia da República, é por isso: no PS ou no PSD falam 20% dos deputados. Os outros não estão a fazer quase nada nas sessões plenárias.. Apesar de não ter sido forçado nesta legislatura a lidar com um problema tão grande quanto o de Miguel Arruda, a verdade é que Mithá Ribeiro renunciou ao mandato e Filipe Melo deixou de ser secretário da Mesa da Assembleia da República. Estes casos nunca abandonam o grupo parlamentar do Chega ou é uma perceção criada pela comunicação social? O Filipe Melo continua a ser secretário da Mesa e o caso de Mithá Ribeiro foi uma decisão pessoal. São coisas que acontecem, como acontecem nos outros partidos políticos todos. Vou dar o exemplo dos vereadores. Muita gente diz que o Chega já perdeu não sei quantos. E o PS e o PSD, quantos já perderam? Só que a notícia contra o Chega tem ênfase na comunicação social e, quando é contra os outros, às vezes nem referem o partido. É algo com que temos que lidar. Quero é que os eleitores do Chega lidem bem com isso, pois Já perceberam o que se passa no país, e que a opinião pública lide bem com isso. Mas há uma diferença entre o Chega e os outros partidos, como se viu no caso de Miguel Arruda. Quando temos um problema, resolvemos. Essa pessoa afasta-se ou é afastada rapidamente. Temos pessoas arguidas por corrupção noutros partidos e continuam a ser dirigentes e presidentes de câmara. Connosco não. Quem vier para o Chega sabe que se tem de sujeitar a estas regras. Uns gostam, outros não. A vida é assim.Que avaliação faz deste mandato de José Pedro Aguiar-Branco na presidência da Assembleia da República? Tem sido equilibrado?Faz lembrar quando mudámos de Cavaco Silva para Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República. Passámos de um que não saía à rua, e não falava com as pessoas, para uma personalidade totalmente diferente. Nós viemos de Augusto Santos Silva, que era um ditador, entre aspas, que estava aqui na Assembleia da República. José Pedro Aguiar-Branco tem de seguir as regras e é isso o que tem feito. A única coisa que queremos, e exigimos, de um presidente da Assembleia da República é isenção. Se for isento, para nós está tudo tranquilo.Paradoxalmente, Santos Silva terá sido mais benéfico para o crescimento do Chega do que Aguiar-Branco? Não vou por aí, mas o Chega continua a crescer nas sondagens. Antes disso, nas guerras com a bancada do Chega, os portugueses perceberam que vivemos em 50 anos de democracia, mas alguns democratas continuavam sem aceitar os resultados eleitorais. E há alguns que ainda não aceitam. Às vezes percebemos que não perceberam ainda o que aconteceu em Portugal, e que o Chega é a segunda força política. Inclusive o PS, que tenta sempre, nas comissões e na conferência de líderes, passar à frente. Por vezes, temos de dizer "calma, que agora somos nós". Digo-lhes muitas vezes: "Habituem-se, que o Chega não está cá apenas para ser a segunda força política. Estamos cá para governar Portugal." Já admitiu a aplicação de sanções a deputados que ultrapassem os limites no discurso político. Não correria o risco de os membros do seu grupo parlamentar serem as principais vítimas dessas sanções?Teria de ser muito bem avaliado que sanções podemos impor a deputados democraticamente eleitos pelo povo português. Não é uma coisa que admita assim tão claramente. Tem de haver um mínimo de decência e um critério uniforme. Não podem ser apenas os deputados do Chega a serem todos vistos como os maus da Assembleia da República, e os dos outros partidos serem meninos bons. Bem pelo contrário. Tem havido excessos na bancada parlamentar do Chega, mas tem havido na bancada do PS, na do PSD e em todos os partidos políticos. Existe uma tentativa de transmitir à opinião pública que os deputados do Chega são os causadores de tudo o que acontece na Assembleia da República. Não é verdade. Os jornalistas [a bancada de imprensa, instalada no hemiciclo] estão colocados de frente para os deputados do Chega. Porque é que não os colocam de frente para os deputados do PS ou da esquerda? Se calhar viam o que esses deputados fazem nas sessões. Não posso admitir que uma deputada chamada Isabel Moreira chame assassinos aos deputados do Chega, do PSD e do CDS porque votaram contra uma medida que a senhora deputada queria. Assassino? É uma expressão que ultrapassa os limites do razoável, ainda por cima na Casa da Democracia. E essa deputada é useira e vezeira nesse tipo de expressões. Não vejo a abrir telejornais, como quando acontece qualquer coisa com deputados do Chega. Não vejo ninguém indignar-se com isso. Imagine que era eu, ou algum deputado meu, a dizer: "Os deputados do PS são todos assassinos". Mas acho que a conduta dos deputados deve ser revista e que devemos dar o exemplo à sociedade. Estive no Parlamento dos Jovens e percebi que existe esse sentimento: por vezes, a conduta dos deputados não é a que deveria ser. Contra mim falo, mas todos os 230 deputados devem pensar que é preciso fazer alguma mudança.O Chega passou a ter um Governo-sombra, cujos membros quase não coincidem com o grupo parlamentar. Faz-vos alguma sombra?Pelo contrário. O Governo-sombra tem trabalhado muito com os coordenadores que temos nas comissões parlamentares. O Chega não pode estar só amparado no seu grupo parlamentar. Precisa de ter pessoas na sociedade civil, o que foi uma das promessas de André Ventura. No Governo-sombra, e num futuro Governo de Portugal, não têm de ser todos militantes do partido. Reconhecemos que existem pessoas boas e válidas em todos os quadrantes políticos. Se queremos ter um Governo que faça as reformas de que Portugal precisa, e merece, não podemos estar só a ver o cartão partidário. É um erro que ao longo de 50 anos de democracia se viu. Aliás, este Governo está a cometer os mesmos erros que o do PS. Em tudo o que mete a mão, dá primazia ao cartão partidário. Temos é que dar primazia à competência das pessoas. Existem pessoas competentes em todos os quadrantes e em todos os partidos políticos, e são as que temos de ir buscar se queremos fazer a reforma da Justiça - totalmente esquecida pelo Governo de Luís Montenegro -, a reforma da Saúde e a tão proclamada reforma do Estado, que a única coisa que vimos foi a criação de mais entidades para empregar ex-presidentes de câmara do PSD. Não é isso o que queremos para Portugal. Este Governo-sombra, onde há pessoas de outros quadrantes políticos, é um símbolo disso. Conseguimos trabalhar em conjunto porque temos pontos em comum. Achamos que as coisas não estão bem e que temos de as alterar, com pessoas competentes para fazer as leis de que Portugal precisa.