Depois da curta legislatura que significou o regresso do CDS à Assembleia da República, ao longo deste último ano qual foi a principal mudança num grupo parlamentar que manteve os mesmos dois deputados, e integra a mesma coligação, que apoia um governo do mesmo primeiro-ministro?Regressámos ao Parlamento e ao Governo em 2024 - e o CDS foi decisivo na vitória da AD nessas eleições. Estou convencido de que o eleitorado de direita que se revê no CDS e votou na AD foi decisivo para que o país não tivesse Pedro Nuno Santos como primeiro-ministro. As eleições de 2025 representaram o reforço da legitimidade democrática da AD. Ganhámos peso no Parlamento, reforçámos a nossa maioria enquanto coligação e hoje entendo que existem melhores condições de governabilidade e de estabilidade política do que em 2024.E é justo dizer que o grupo parlamentar centrista aprofundou o estatuto de ala direita da AD? O CDS não é uma ala, nem nunca foi. Sou daqueles que acham que a AD só tem a ganhar em ter dois partidos diferentes. CDS e PSD têm origens, histórias e programas políticos diferentes. O CDS sempre se posicionou mais à direita e assim quer continuar. Tem um conjunto de valores, princípios, bandeiras e causas pelos quais se continua a bater no Parlamento. Dito isto, está comprometido com o projeto da AD e a agenda reformista que esta representa. O CDS está na AD para reformar o país e os dois partidos sempre souberam fazer coligações para governar e resolver os problemas estruturais do país.Nesta sessão legislativa o seu grupo parlamentar teve iniciativas como a proibição de bandeiras ideológicas em edifícios públicos e travões à mudança de sexo em menores de idade. É uma estratégia de afirmação do CDS mais à direita?É o CDS a ser CDS. Acho uma certa graça quando vejo pessoas surpreendidas por o CDS se bater por valores que sempre se bateu. Quando afirmamos as nossas causas, os nossos princípios, fazemo-lo por convicção, não por taticismo. E é na frente parlamentar que o CDS mais afirma a sua autenticidade, individualidade e personalidade. Apresentámos 65 iniciativas próprias no Parlamento nesta sessão legislativa - desde 2024, já apresentámos 116 -, e nesta legislatura há um conjunto de matérias que marcam bem os valores pelos quais o CDS se bate, com a coragem que nos ensinou Adelino Amaro da Costa. Desde logo, o fim da ideologia de género nas escolas, da doutrinação ideológica imposta aos nossos filhos, muitas vezes contra a vontade dos pais. O CDS bateu-se por isso e teve ganho de causa. Depois, as bandeiras que podem ser hasteadas nos edifícios públicos. Nós entendemos que as bandeiras devem ser um sinal de unidade dos portugueses, e não de divisão, e que os edifícios públicos não devem ser utilizados para campanhas ideológicas. Por isso, de forma frontal, avançámos com a medida, que também foi aprovada, e, finalmente, propusemos o fim das terapias hormonais para a mudança de sexo em crianças. Consideramos uma barbaridade o que estava a acontecer em Portugal. Pelo resto do mundo já muitos países perceberam as consequências devastadoras na vida dessas crianças e estão a fazer marcha-atrás. São questões de valores, mas há outras muito relevantes.Não teme que o partido fique demasiado conotado com o outro tipo de propostas?Não. O CDS tem de continuar a ter a coragem de defender os valores que correspondem à sua matriz. Tem de ser um partido com coragem, credível, que se bata pelos valores e pelas causas em que acredita. E é isso que tem sido no Parlamento. Mas também tem aprovado um conjunto de reformas fundamentais do Governo. Reformas da AD, que são reformas do CDS há muitos anos. Desde logo, a reforma fiscal e redução do IRC para 17%, mas também a reforma das leis da imigração e da nacionalidade, o aumento das pensões mais baixas para os mais carenciados ou o pacote da habitação apresentado pelo Governo. E, finalmente, a grande reforma na Defesa. Costumo dizer que sempre que o ministro da Defesa Nacional é do CDS, a vida dos militares melhora. Mais uma vez, está a acontecer.Além da vida dos militares, a defesa do território nacional também é uma prioridade...Fundamental. A reforma que está a ser feita começou por melhorar as condições dos militares e a situação dos antigos combatentes, mas também envolve um investimento sem precedentes na modernização das nossas Forças Armadas. Neste momento temos um programa que ultrapassa os cinco mil milhões de euros para que possam ser modernizadas e valorizadas. E Portugal seja um país que cumpre os objetivos a que se comprometeu na NATO..O respeito que deve existir entre parceiros de coligação verificou-se aquando da definição das listas de candidatos aos órgãos externos da Assembleia da República?Sim, o presidente do grupo parlamentar do PSD falou comigo sobre algumas dessas eleições.Não devia haver mais representantes do CDS nesses órgãos?O CDS não está no Parlamento por uma questão de lugares. Está para defender valores e causas, para mostrar ao nosso eleitorado - o que foi no passado, o que continua a ser e o potencial - que o CDS está de volta, e continua a ser um partido corajoso, com valores pelos quais se bate. Assim regressou ao Parlamento e assim vai continuar nesta legislatura.Qual é o grau de articulação com o grupo parlamentar do PSD?As relações são excelentes. Falo com muita regularidade com o presidente do grupo parlamentar do PSD e em muitos debates articulamos posições, mantendo a capacidade de apresentar iniciativas próprias e, em alguns casos, de votar de forma diferente.Qual é o critério para divergirem na orientação de voto?É aquele que foi acordado com os grupos parlamentares. Na agenda reformista que consta do programa eleitoral e do programa de Governo, o CDS tem sido, como em todas as AD do passado, um parceiro credível e responsável. Um partido que não só colabora nas reformas, como as apoia no Parlamento. Depois há questões que têm a ver com a matriz identitária dos partidos, com posições que adotaram ao longo do tempo, e que têm sido respeitadas. Por isso, em alguns casos tem havido posições e votos diferentes, mas isso é normal em dois partidos que se respeitam, são diferentes, mas sabem colocar o interesse nacional à frente do interesse partidário.É importante para a afirmação do CDS que os dois partidos não sejam exatamente iguais?O CDS é mais identitário nos valores do que o PSD. Ao votar contra a Constituição em 1976, afirmou-se como partido personalista, profundamente crente no valor da liberdade e um adversário político e ideológico da esquerda e do socialismo. Assim nos mantemos, passados 52 anos da nossa fundação.Depois de Nuno Melo ter dito no Congresso de Alcobaça que o CDS iria a jogo na revisão constitucional, o vosso projeto talvez só avance no final deste ano ou no início do próximo. Isso não é um recuo ?Não. Como o presidente do partido confirmou em Alcobaça, o CDS vai ter um projeto de revisão constitucional próprio. Isso tem a ver, essencialmente, com honrarmos o nosso passado, de termos votado corajosamente contra a Constituição de 1976 e termos participado ativamente em todas as revisões constitucionais, nas quais o país se afastou do caminho para o socialismo, que o CDS sabia errado desde o princípio. Honrando todos os grupos parlamentares que nos antecederam, todos os deputados que participaram nas revisões constitucionais, o CDS vai ter um projeto próprio que prevê libertar a Constituição. Tem de ser um documento em que a totalidade da nação portuguesa se revê, sem amarras e constrangimentos ideológicos datados. É o trabalho que vamos fazer. Estamos a constituir um grupo de constitucionalistas que, sob a coordenação do grupo parlamentar, irá apresentar a proposta de revisão constitucional. Por isso, gostaríamos que o processo só se abrisse no final deste ano ou no princípio do próximo, até para poder beneficiar do contributo de todos os partidos que manifestaram interesse em participar.Isso vai ao encontro da ideia do PSD de que a revisão constitucional só deverá acontecer na segunda parte da legislação.É uma ideia com a qual concordamos.Olhando para a maioria de dois terços que existe à direita do PS, há condições para fazer alterações drásticas na Constituição?Não lhe chamaria alterações drásticas. Tudo o que seja tornar a Constituição mais abrangente, menos sectária, mais neutra e menos ideológica, é uma benfeitoria que se faz ao país. Somos da opinião que os portugueses devem poder escolher, através de eleições livres, um Governo que promova a política que entenda, com o mínimo de constrangimentos e limitações constitucionais. E isso não acontece hoje em dia. Não vou antecipar o projeto de revisão constitucional do CDS, mas procurará, seguramente, tornar a Constituição um texto fundamental mais moderno, mais abrangente, e menos marcado ideologicamente. Mais do que a retórica do caminho para o socialismo, estarão em causa os artigos que fazem com que muita legislação possa ser travada pelo Tribunal Constitucional?A questão do preâmbulo é incontornável. Entendemos que está datado historicamente e há que atualizá-lo. Não faz sentido continuarmos a ter um preâmbulo da Constituição que aponta o caminho para uma sociedade socialista. Os portugueses não querem. Por diversas vezes, manifestaram que querem o caminho para uma sociedade democrática e evoluída, e não para uma sociedade socialista, como alguns queriam em 1976. Mas a proposta que o CDS irá fazer abrange outras áreas importantes, que têm a ver com a parte política, a parte económica e a parte social da Constituição, com o objectivo de a transformar num texto que reúna o consenso de todos os portugueses e não apenas dos que votam mais à esquerda. Terão ou não em mente as objeções do Tribunal Constitucional a leis que têm sido aprovadas na Assembleia da República?Admito que sim. Conseguimos aprovar a Lei da Nacionalidade. A que tinha sido aprovada no tempo da Geringonça era muito pouco exigente e entendemos, na nova, que para ser cidadão de um país que está quase a fazer nove séculos de existência há que ter uma efetiva ligação à sua cultura, à sua história, à sua língua, e rever-se nos valores nacionais. Por isso, a Lei da Nacionalidade tem de ser muito mais restritiva do que a do tempo da Geringonça. Esse passo está dado. Mas o Parlamento também aprovou, separadamente, a sanção acessória de perda de nacionalidade de quem, depois de obter a nacionalidade, comete um crime grave. O CDS tem história nessa matéria e penso que foi o primeiro partido, em 2018, a propor como pena acessória a perda de nacionalidade pela prática de crimes muito graves, designadamente terrorismo. É muito importante que a questão possa ser objeto da revisão constitucional, pois entendemos que quem não respeita Portugal não merece ser português. Entendemos que na próxima revisão constitucional o tema seja abordado, para que seja possível ultrapassar o chumbo do Tribunal Constitucional.Acredita que vai haver essa convergência entre PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal?Não quero antecipar as negociações da revisão constitucional. Espero que todos os partidos, à direita, ao centro e à esquerda, possam participar neste processo de revisão, no sentido de melhorar a Constituição..Sendo defensor do espírito reformista da AD, de que muitos têm dificuldade em confirmar a existência, que expectativas deposita na aprovação da reforma laboral e da reforma do Estado?Tenho visto muitos partidos da oposição a acusar o Governo de não fazer reformas e, francamente, acho que isso não corresponde à realidade. É com exemplos que percebemos que o ímpeto reformista existe na maioria e no Governo da AD. Referi a reforma fiscal, com a redução histórica do IRC para 17%, a revisão global das leis de imigração e nacionalidade, aspeto decisivo para a estruturação do Estado, a reforma global que se está a fazer na defesa nacional, a reforma da contratação pública, na qual pela primeira vez se está a mexer a sério, combatendo a burocracia, e mais recentemente a reforma laboral. Isto é sinal de que não só o programa de Governo tem ímpeto reformista, como o Governo está a ter a coragem de aprovar e propor ao Parlamento reformas que constam do seu programa. Espero sinceramente que a reforma laboral possa ser aprovada, porque é muito importante para o futuro do país.Os indícios não são muito bons no que toca a essa aprovação...Vamos ver. Dou-lhe um dado que demonstra a importância da reforma laboral: Portugal é o país da OCDE com a segunda legislação laboral mais rígida da Europa, e essa rigidez prejudica a produtividade, competitividade e retenção de talento jovem em Portugal. Por isso, essa reforma vai ser fundamental para promovermos a competitividade e produtividade, e para conseguirmos aumentar os salários dos jovens e combater o desemprego jovem, que continua em níveis muito elevados, na ordem dos 20%. Mas o Governo não tem maioria absoluta. E está disponível, como mostrou na Concertação Social, para negociar no Parlamento. Espero que os partidos da oposição tenham sentido de Estado e sentido de responsabilidade. Seria muito importante que esta reforma fosse aprovada. O Governo negociou de boa-fé em sede de Concertação Social, e a prova disso é que, não obstante não ter havido acordo, incluiu um conjunto de contributos dos parceiros sociais, quer das confederações patronais, quer da UGT, na proposta que apresentou no Parlamento. Por isso, é chegado o momento da verdade. Tem que decidir se aprova esta reforma, que é fundamental para que o país possa crescer, para que haja mais flexibilidade e melhores salários, e para que consigamos reter melhor os jovens em Portugal, ou chumbar a reforma e deixar o país estagnado. Compete às oposições decidir. Da parte do Governo, existe disponibilidade de negociar, tendo em conta a importância da reforma.Que contributos é que o CDS pode dar para que a legislação seja aprovada?O CDS não só participou na elaboração do Programa Eleitoral e do Programa de Governo, como agora estará na primeira linha, na Comissão de Trabalho e Segurança Social, no sentido de negociar com os outros partidos. Não quero antecipar esta negociação, nem quero pôr linhas vermelhas. A boa-fé do Governo e desta maioria é grande, e estamos focados em criar condições para que esta reforma possa ver a luz do dia.. Admite que uma das missões dos deputados centristas, sobretudo nos debates, é recordar responsabilidades da governação socialista?Sem dúvida nenhuma. Temos de explicar que o PS é o principal responsável político pelo atraso económico e social de Portugal. O PS já levou o país a três bancarrotas e continua a não assumir as responsabilidades que teve na governação e a fazer um discurso equívoco e pouco definido. É um partido que ainda não teve a coragem de denunciar um primeiro-ministro acusado de gravíssimos casos de corrupção e que continua a brincar com a justiça portuguesa. O PS não tem a coragem de denunciar um anterior secretário-geral e primeiro-ministro, José Sócrates, que neste momento enfrenta um processo gravíssimo de corrupção. Tem de ser denunciado como um partido que desgovernou o país. Mas o CDS tem de fazer mais do que denunciar o desgoverno socialista. Tem de se afirmar verdadeiramente como um partido de direita nos valores e na economia. Porque há alguns partidos que se dizem de direita, que têm algumas ideias de direita na economia, mas depois são de esquerda nos valores. E há outros partidos que também se dizem de direita, e que têm algumas ideias de direita nos valores, mas depois são de esquerda na economia. O CDS é o único partido no Parlamento que é de direita nos valores e na economia. E essa especificidade e autenticidade é algo que temos obrigação de preservar e robustecer no nosso trabalho parlamentar.Até porque uma parte dos eleitores da Iniciativa Liberal e do Chega, os dois partidos de que falou, em tempos votaram no CDS?Com certeza. E espero que um dia possam voltar a votar.Neste momento, qual é o principal adversário político de AD? André Ventura ou o PS?A AD não se define pelos adversários políticos que tem. Define-se pelo seu programa e pela capacidade de o executar, para resolver os problemas dos portugueses. Tanto o PS como o Chega são partidos que fazem oposição ao Governo. A posição da AD, enquanto coligação política dominante no Parlamento, é criar condições para cumprir o seu programa e procurar negociar, designadamente com os dois maiores partidos da oposição. Foi assim em 2024 e na legislatura que começou em 2025 e permanece em 2026. No Orçamento do Estado para 2026 foi possível negociar com o PS, que se absteve, e nas leis da Imigração e da Nacionalidade foi possível negociar com o Chega. Negociando, quer de um lado, quer do outro, a AD conseguiu que fossem aprovadas medidas fundamentais do seu programa.No Congresso do CDS, o líder do partido disse que o grupo parlamentar tinha dois deputados, mas que valiam por 20 ou 30. O que mudaria se houvesse mais centristas na Assembleia da República?Seguramente teríamos mais peso nas decisões. Mas não mudaria nada relativamente à determinação, à vontade e ao empenho que os dois deputados têm dado pelas causas do CDS. Todos os dias damos a nossa vida pelas bandeiras do partido. E os eleitores, militantes e dirigentes do CDS podem contar connosco nos próximos tempos no Parlamento, pois será sempre assim. Temos valores e batemo-nos por eles.