Momentos após apresentar condolências às famílias de três pessoas “que não terão tido a resposta mais rápida do sistema de emergência”, Luís Montenegro revelou que o Governo aprovara nesta quarta-feira a aquisição de 275 novas viaturas para o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), incluindo 63 ambulâncias e 34 viaturas médicas de emergência e reanimação (VMER), num custo total de 16,8 milhões de euros. Apesar de repetir que um investimento dessa dimensão, quatro vezes mais do que existiu em oito anos de governação socialista, não foi decidido em função das mortes associadas a falhas do Estado, o primeiro-ministro garantiu o melhor trunfo possível para um debate quinzenal que tinha tudo para ser muito difícil para o seu Executivo. E ainda mais para a ministra da Saúde, Ana Paula Martins.“Estamos a resolver um problema crónico e a inverter um desinvestimento que herdámos, com consequências claras e graves”, defendeu Montenegro, acrescentando-lhe outras medidas, como a criação de entre 400 a 500 camas em unidades intermédias, para retirar da rede hospitalar casos sociais que limitam a capacidade de resposta, e a modernização tecnológica dos centros de orientação de doentes urgentes. Sem falar no anúncio de que o Conselho de Ministros desta sexta-feira aprovará o lançamento do concurso para a construção do Hospital Central do Algarve.Definida a terapêutica, o primeiro-ministro preparou-se para os ataques da oposição. Com André Ventura ausente da Assembleia da República, devido à campanha eleitoral para as presidenciais de 18 de janeiro, coube ao líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, abrir as hostilidades. “Estas mortes significam que o Estado Social falhou”, defendeu, diagnosticando o “colapso total do Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, patente na sucessão de partos em ambulâncias, estações de serviço ou na via pública. “Isto não é o Botswana, nem o Bangladesh, mas sim Portugal no estado em que o deixaram”, acusou.Foi Pinto o primeiro a perguntar a Montenegro “até quando vai segurar a ministra da Saúde”, recebendo críticas do primeiro-ministro a um “discurso político oportunista e que tira conclusões precipitadas” e a tese de que os problemas da Saúde “não se resolvem com demissões ou com jogadas político-partidárias, mas sim com convicção, competência e resiliência”. Sendo “para isso que a ministra está no Governo e vai continuar no Governo”.Depois de o líder parlamentar do Chega chamar incompetente à ministra da Saúde, que assistiu ao debate quinzenal em absoluto silêncio, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro acrescentou um ponto. Para o socialista, as duas palavras que caracterizam a governação da AD são “incompetência” e “insensibilidade”. Recordando que, enquanto líder da oposição, Montenegro dizia ter soluções simples para resolver os problemas do SNS, José Luís Carneiro contrapôs as “urgências entupidas, quando não fechadas”, o aumento de utentes sem médico de família e os “recordes de nascimentos em ambulâncias ou na via pública”, concluindo que “as famílias vivem num clima de incerteza”. Sobretudo a partir do momento em que o INEM, por si apresentado como “um dos últimos redutos da segurança do Estado”, não consegue dar garantias, transformando-se “numa lotaria em que, infelizmente, se joga com a vida das pessoas”.As acusações do antigo ministro da Administração Interna de António Costa tiveram reação imediata do primeiro-ministro. “Para lhe responder, basta uma palavra: descaramento”, contra-atacou Luís Montenegro, realçando que o seu Governo “não tem qualquer complexo ideológico”, ao invés daquele que levou o PS a desmantelar parcerias público-privadas nos hospitais. No entanto, o maior momento de tensão no debate quinzenal - descontando um incidente logo no início, com o deputado social-democrata Bruno Vitorino a ser acusado de ter ameaçado Cristina Vieira, da bancada do Chega - teve Luís Montenegro e Mariana Leitão como os protagonistas. A presidente da Iniciativa Liberal apontou “completo alheamento da realidade” ao Governo e disse que “estamos a assistir a uma emergência dentro da emergência”, sendo particularmente crítica com o primeiro-ministro, visto por si como “principal responsável pelo colapso dos serviços de emergência”.“Gostava que este debate nos deixasse mais tranquilos, mas confesso que estou chocada com a sua postura. Veio fazer um discurso de estabilidade quando morreram três pessoas. Anunciou ambulâncias que já podiam ter sido contratualizadas e hospitais cujos concursos já anunciou umas quantas vezes. Se não vai demitir a ministra, se não vai reformar o SNS, o que é que vai fazer?”, inquiriu Mariana Leitão.Foi quanto bastou para a difícil coexistência entre o primeiro-ministro e a líder dos liberais se exacerbar. Contra o “chorrilho de críticas habitual e repetitivo” de Mariana Leitão, Luís Montenegro deixou a promessa de “resistência e resiliência”.A mesma resistência que teve ao longo da tarde Ana Paula Martins, rotulada de “melhor para-raios possível para o primeiro-ministro” por Rui Tavares, cabendo ao coporta-voz do Livre salientar que três famílias ficaram enlutadas “não foi por um azar do destino”, mas por “não haver resposta de governança”. .Luís Montenegro segura Ana Paula Martins num debate quinzenal em que a oposição diagnosticou o colapso do SNS.Sindicato diz que alertou ministério e INEM para risco de falta de ambulâncias, mas “nada se fez". "Só Lisboa tem dez paradas”