Manuel Domingos Augusto, antigo ministro das Relações Exteriores de Angola e uma das figuras mais experientes da diplomacia angolana, morreu na sexta-feira, 5 de junho, em Luanda, vítima de doença. Tinha 69 anos. Diplomata de carreira, político do MPLA e também antigo jornalista, Manuel Augusto chefiou a diplomacia angolana entre 2017 e 2020, durante o primeiro mandato de João Lourenço. Foi um período de reposicionamento externo de Angola, em que Luanda procurou relançar relações com parceiros tradicionais, reforçar a presença em fóruns multilaterais e projetar uma imagem de maior abertura política e económica.Antes de chegar à liderança do Ministério das Relações Exteriores, Manuel Domingos Augusto já havia passado por vários níveis da diplomacia angolana. Foi secretário de Estado das Relações Exteriores, embaixador junto das Nações Unidas e desempenhou missões diplomáticas em diferentes países, incluindo a Etiópia e a Zâmbia.À data da morte, mantinha funções relevantes no aparelho político do MPLA: era secretário para as Relações Internacionais do Bureau Político do Comité Central do partido e vice-presidente da Internacional Socialista. Em mensagem de condolências, o presidente João Lourenço descreveu-o uma “figura de destaque da vida política nacional, da diplomacia e do jornalismo”, sublinhando a perda para Angola de um quadro que serviu o Estado em cargos de responsabilidade, com destaque para a pasta das Relações Exteriores."Foi um grande amigo de Portugal", lembra Augusto Santos SilvaNa relação com Portugal, Manuel Domingos Augusto ficará associado a uma fase delicada, mas decisiva, do relacionamento entre Lisboa e Luanda. Enquanto ministro, foi um dos interlocutores diretos de Augusto Santos Silva, então ministro português dos Negócios Estrangeiros, num período marcado pela perturbação causada pelo processo judicial em Portugal envolvendo o antigo vice-presidente angolano Manuel Vicente e pela necessidade de preservar canais políticos entre os dois países.Em declarações ao DN, Augusto Santos Silva recorda Manuel Augusto como uma figura central da diplomacia angolana e como um interlocutor especialmente atento à relação bilateral. “É uma grande perda para Angola e também, em certa medida, para Portugal”, afirmou o antigo chefe da diplomacia portuguesa.“Como secretário de Estado e depois como ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto foi um grande amigo de Portugal, uma personalidade de topo na vida política angolana que soube bem compreender a importância das relações entre os dois países -políticas, diplomáticas, económicas e culturais - e fez da consolidação dessas relações uma prioridade do seu mandato como ministro das Relações Exteriores e, depois, mais recentemente, no seu mandato como responsável do Departamento de Relações Exteriores do partido a que pertencia”, diz Santos Silva ao DN.O antigo ministro português fala a partir da experiência direta de trabalho com Manuel Augusto. “Por trabalhar muito proximamente com ele, enquanto éramos ambos os responsáveis pela política externa dos nossos dois países, sou, portanto, testemunha privilegiada para dizer o que disse”. E acrescenta: “Acho que é uma perda, insisto, não só para Angola, evidentemente, como também para Portugal. Portugal perde hoje um amigo. E eu, pessoalmente, também.”Questionado sobre o papel de Manuel Augusto na reaproximação luso-angolana, o antigo ministro português começou por contestar a formulação. “Relativizo essa expressão do período tenso, porque o presidente João Lourenço, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro António Costa sempre souberam que a questão judicial que perturbou a relação entre os dois países pertencia ao foro da Justiça e não devia causar um dano superior àquilo que era inevitável nessa relação”, afirmou ao DN. O processo Manuel Vicente foi, ainda assim, um obstáculo político concreto à normalidade diplomática. Santos Silva recorda que “o Presidente e o Governo angolano decidiram que, enquanto não se resolvesse a questão judicial que eles consideravam, não vou agora discutir se com razão ou não, uma intromissão externa nos assuntos internos de Angola, isso prejudicava a realização de visitas oficiais nos dois países”. Mas, segundo o antigo ministro português, essa decisão não significou corte de diálogo. “Isso não obstou a que, sempre que as duas delegações se encontravam em reuniões internacionais, a comitiva angolana era a primeira a propor uma reunião importante. Houve várias reuniões que eram ao nível do Presidente, reuniões que eram ao nível do Presidente e do primeiro-ministro.”Para Augusto Santos Silva, a preservação da relação bilateral foi uma preocupação constante dos dois lados. “Mesmo nesse período mais difícil, nunca, em momento nenhum, da parte de Angola ou da parte do Presidente e do Governo português, houve qualquer gesto no sentido de piorar ou enfraquecer a relação bilateral.”É nesse quadro que deve ser lido o papel de Manuel Domingos Augusto: não apenas como participante numa reaproximação formal, mas como um dos responsáveis pela manutenção de canais políticos e diplomáticos num período em que a relação estava condicionada por um caso judicial sensível.Em julho de 2018, Manuel Augusto deslocou-se a Lisboa, tendo sido recebido pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros. Nessa visita, entregou ao primeiro-ministro António Costa uma carta do Presidente João Lourenço, apresentada como um sinal das boas relações entre os dois países. A deslocação antecedeu a visita oficial do então primeiro-ministro de Portugal a Angola, em setembro do mesmo ano, e preparou o ciclo de contactos que culminaria na visita de Estado de João Lourenço a Portugal, em novembro de 2018. Em fevereiro de 2019, foi a vez de Augusto Santos Silva se deslocar a Luanda para se reunir com Manuel Domingos Augusto, visita apresentada pelo Governo português como parte do reforço do “estreito relacionamento bilateral” e da preparação da visita de Estado do Presidente português a Angola.A cooperação multilateral foi outro terreno em que Santos Silva destaca o papel angolano. “Angola foi, digamos, uma das pontas de lança da nossa campanha internacional pelo voto, designadamente em África, mas não apenas em África, a favor da candidatura de António Guterres [a secretário-geral da ONU]”, acrescentou.A morte de Manuel Augusto motivou também uma nota de pesar do Partido Socialista português. O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, manifestou “profunda consternação” e recordou “o compromisso [de Manuel Augusto] com Angola, com a diplomacia e com o diálogo internacional”, destacando um percurso “de serviço público e de dedicação à cooperação entre povos e partidos irmãos”.A dimensão pessoal dessa relação com Portugal é também sublinhada por Francisco Seixas da Costa. O diplomata português aposentado recordou nas redes sociais uma amizade de mais de quatro décadas. “Quem me conhece bem sabe que, de entre os meus amigos mais queridos, estava, desde há mais de quarenta anos, Manuel Domingos Augusto”, escreveu.Seixas da Costa conheceu-o em Luanda, em 1982, quando Manuel Augusto era ainda “um jovem diplomata no Ministério das Relações Exteriores” e o diplomata português prestava serviço na embaixada de Portugal em Angola. “Criámos, a partir de então, uma sólida e fraternal amizade, para toda a vida”, recordou.Na mesma nota pessoal, o antigo embaixador português evocou o percurso diplomático de Manuel Augusto, “que tinha andado pelo jornalismo” e que viria a ter “uma carreira diplomática brilhante, representando o seu país como embaixador em postos vitais para a política externa de Angola”. A política, escreveu ainda Seixas da Costa, “um dia chamou-o”, levando-o a ministro das Relações Exteriores depois de outras responsabilidades governativas.A memória deixada pelo diplomata português acrescenta ao retrato institucional uma dimensão de proximidade humana. “Ao longo dos anos, o Manuel Augusto e eu fomo-nos encontrando regularmente pelo mundo - desde logo, várias vezes em Lisboa, mas também em Londres, em Paris e Nova Iorque”, escreveu. “Na minha família, a chegada do Manuel Augusto para uma refeição era sempre um momento de alegria, de boa disposição, a certeza de umas horas de convívio saudável. E de memória de outros amigos e de outros tempos.” Ao DN, Seixas da Costa lembra "um lúcido patriota angolano, muito atento à defesa interesses do seu país. Sabia fazê-lo inteligência, cordialidade e sempre com abertura ao diálogo, numa postura que revelava a sua qualidade de grande diplomata. Na vida internacional, nestes tempos de crispação, fazem falta políticos como o Manuel Augusto."Para lá da relação com Portugal, a carreira de Manuel Domingos Augusto projetou-se no espaço africano e multilateral. Em 2021, já depois de deixar o Ministério das Relações Exteriores, liderou uma missão de observação eleitoral da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos nas eleições presidenciais da República do Congo, sinal da continuidade do seu envolvimento em dossiês regionais.Manuel Domingos Augusto deixa um legado ligado à diplomacia de Estado, à política partidária e à comunicação pública. Pertenceu a uma geração de quadros angolanos que cruzou partido, governo e representação externa, e teve de gerir a política externa de Angola num período de transição entre a longa presidência de José Eduardo dos Santos e a consolidação do poder de João Lourenço.Na memória das relações entre Angola e Portugal, fica como um dos diplomatas que, entre 2018 e 2019, ajudaram a impedir que a perturbação causada por um processo judicial se transformasse num dano maior para a relação bilateral.