As palavras com que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, se referiu a Donald Trump, por si descrito como “um ativo soviético, ou russo”, podem levar a uma reação dos EUA, admitiram fontes diplomáticas ao DN. Ainda que as declarações proferidas quarta-feira, na Universidade de Verão do PSD, não tenham tido até agora repercusão na comunicação social norte-americana, dificilmente poderão não ter sido relatadas pela Embaixada em Portugal ao Departamento de Estado, que as terá feito chegar à Casa Branca.Para o antigo subsecretário-geral das Nações Unidos, Victor Ângelo, uma tal situação “normalmente abre uma querela diplomática profunda”, que pode levar o estadista e o país visados a enviarem uma nota verbal de protesto ou a imporem sanções. Algo que, no caso do presidente norte-americano, poderá passar pela proibição de participar em reuniões nos EUA, incluindo a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas ..Trump é um “ativo soviético” segundo o professor Marcelo.Outra fonte diplomática ouvida pelo DN acrescenta que, sendo provável que o Departamento de Estado já tenha feito chegar o teor das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, para quem “o líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético, ou russo”, dizendo que Trump “se comporta como tal” no que diz respeito à guerra na Ucrânia, se as palavras do Presidente da República forem consideradas suficientemente graves é possível que o embaixador de Portugal em Washington venha a ser chamado.Este tipo de declarações poderão igualmente dificultar o agendamento de uma visita do primeiro-ministro à Casa Branca, onde nenhum chefe de Governo de Portugal voltou a ser recebido desde Durão Barroso, em 2003, depois de Cavaco Silva ter estado reunido na Sala Oval quatro vezes em dez anos, tendo por seus anfitriões os presidentes Ronald Reagan, George H. W. Bush e Bill Clinton. Unânime é a avaliação de que as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, que já em fevereiro se referira aos Estados Unidos como “aliados, ou antigos aliados”, nessa altura também devido à relutância da Administração Trump em contribuir para o “esforço de segurança” da Ucrânia”, foram um “erro diplomático”.“Um Presidente da República não pode, de maneira nenhuma, dizer isso de outro presidente, que ainda por cima é de um país aliado” e o “mais importante da aliança a que Portugal pertence”, diz Victor Ângelo, para quem a designação de Trump como “ativo soviético” foi “uma afirmação absolutamente inapropriada e que não se pode aceitar“.Também António Martins da Cruz, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, disse ao DN que “tanto quanto sei, nunca nenhum Presidente da República, eleito constitucionalmente, se referiu em termos semelhantes a nenhum Chefe de Estado estrangeiro”. O diplomata, que foi embaixador de Portugal na NATO, em Madrid e em Bruxelas, admite que Marcelo Rebelo de Sousa “terá certamente as suas razões” para fazer a sua análise. Mas ressalva que “não coincide com a minha, nem certamente com a de outros portugueses”, pois os norte-americanos elegeram livremente o presidente e os EUA “são o nosso principal aliado, no qual repousa a segurança e defesa de Portugal, no quadro da NATO e dos acordos bilaterais”.Depois de o Governo se ter escusado a comentar as declarações do Presidente da República, e de os eurodeputados eleitos pelo Chega Tânger Corrêa e Tiago Moreira de Sá serem exceções no silêncio cauteloso quanto ao que foi dito em Castelo de Vide, Victor Ângelo defende que “os partidos portugueses e a opinião pública deveriam ser mais críticos”. Algo que teme vir a contrastar com a elevada probabilidade de “reação violenta” de Trump, que poderá ser canalizada pelas redes sociais. Enquanto aguarda pelas consequências daquilo que diz ter sido um “insulto”, um diplomata, que preferiu manter anonimato, comentou ao DN: “O venerando Chefe de Estado devia dedicar-se ao Direito Constitucional em vez de se dedicar à política externa”.