O 28 de Maio de 1926 não é hoje uma data popular. Não tem a centralidade cívica do 25 de Abril, não mobiliza cerimónias de massas, não organiza a memória democrática do país. Para a maioria dos portugueses, quando é lembrado, aparece sobretudo como o princípio da ditadura que terminaria quase meio século depois, em 25 de Abril de 1974. E, no entanto, o centenário aproxima-se num momento político em que a palavra “ordem” voltou a circular com força, a crítica aos partidos se tornou linguagem comum e a direita radical encontrou espaço parlamentar para disputar não apenas políticas, mas também memórias.É por aí que a data regressa. Não necessariamente como celebração explícita do golpe militar, nem como nostalgia frontal do Estado Novo. Essa operação continuaria difícil num país cuja memória democrática se organiza em torno do fim da ditadura. Mas o 28 de Maio pode servir de outro modo: como repertório simbólico para uma narrativa sobre decadência, partidocracia, colapso institucional e necessidade de regeneração. A fórmula não precisa de dizer: queremos outro 28 de Maio. Basta recuperar palavras que pertenciam ao vocabulário político de 1926 e que continuam disponíveis cem anos depois: ordem, salvação nacional, autoridade, combate aos políticos profissionais, fim da partidocracia, representação do país real contra o Parlamento.O politólogo António Costa Pinto é prudente quanto à capacidade de reabilitação política da data. Para ele, o uso público do 28 de Maio está preso a uma evidência difícil de contornar: é lembrado “sobretudo como o início da ditadura em Portugal”. Enquanto ditadura militar, acrescenta, tem “grandes dificuldades em ser usado”, porque a visão dominante se resume quase sempre a isto: “o 28 de Maio é a ditadura que dá origem ao Estado Novo de Salazar”. E é o Estado Novo, mais do que o pronunciamento inicial, que “marca o a experiência autoritária do século XX português”. Ainda assim, Costa Pinto identifica o ponto em que a data pode voltar a ter atualidade política. O 28 de Maio, diz, não foi uma originalidade portuguesa. Inscreveu-se numa vaga europeia de movimentos semelhantes, marcados pela “deslegitimação do parlamentarismo, das eleições livres, dos políticos e dos partidos”. É aí que encontra o paralelo com discursos contemporâneos de direita radical: na procura do mesmo “sentimento antipartidos políticos”, não todos, mas os do “sistema”. O 28 de Maio pode não ser facilmente celebrável, mas a sua gramática anti-parlamentar, anti-partidária, ordeira, regeneradora pode ser reciclada.José Adelino Maltez, também politólogo, vê mais espaço para essa disputa. Quando lhe é perguntado se o 28 de Maio ainda tem serventia para essa direita, responde sem hesitar: “Tem, seguramente.” Não fala necessariamente de uma comemoração salazarista, mas de uma tentativa de “prestigiar”, “recuperar” ou, corrigindo-se, “repensar” o 28 de Maio. Na sua leitura, houve “um exagero de uma historiografia dos professores de História das Faculdades de Letras, tipo Fernando Rosas”, e a direita cultural aparece agora para disputar essas bases, recuperando fontes esquecidas e lançando “uma luta cultural intensa e de qualidade”.A operação política passaria, nesse caso, por separar o 28 de Maio do salazarismo. Separar 1926 de 1933. Separar Gomes da Costa de Salazar. Separar o pronunciamento militar da Constituição autoritária que viria a institucionalizar o Estado Novo. Maltez resume o problema numa frase: “a herança do 28 de Maio foi completamente obliterada pelo ‘S’ de Salazar”. Ou seja, tudo o que antecedeu a consolidação salazarista ficou absorvido pela memória da ditadura. “A direita radical ou conservadora poderá tentar reabrir essa caixa, apresentar o 28 de Maio como revolução inacabada, ou traída, e transformá-lo em ponto de partida para uma disputa cultural”. Sobre o parlamentarismo, os partidos e a própria narrativa do século XX português. A mesma questão aparece, com sinal diferente, nas leituras dos dois historiadores que chegam agora às livrarias com trabalhos sobre o tema. Rui Tavares, autor de "Como se perde uma República 1924-1927. Ensaio sobre há 100 anos", livro agora lançado com a chancela da Tinta da China, estranha que o centenário não esteja a provocar uma reflexão pública mais ampla. “O que é estranho em Portugal é que, com tanta atualidade do tema, haja tão pouco debate”, diz ao DN. O historiador compara esse silêncio ao que seria impensável na Alemanha quando chegar o centenário da queda da República de Weimar e da ascensão do nazismo, e nota a ausência das mais altas figuras do Estado: “O Presidente da República, o presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro não falam disso. Deputados, praticamente nenhum.” Há alguns que, se falassem, “seria para celebrar”. Mas “poucos estão dispostos a falar para retirar ensinamentos”. É isso que considera “verdadeiramente preocupante”.O golpe militar de 28 de maio de 1926 através de dez primeiras páginas do DN. José Manuel Quintas, que publica "Vida e Morte do 28 de Maio: Os Camisas Azuis" (E- Primatur) olha para a atualidade da data a partir de outra preocupação. O 28 de Maio, defende, continua a ser relevante porque mostra como, em contextos de crise, “propostas apresentadas como solução nacional podem conduzir à concentração do poder, à censura e à limitação das liberdades”. Mas a sua reflexão passa também pela crítica à representação partidária e pela recuperação de uma dimensão que considera esquecida: os modelos de representação municipal e sindical associados ao primeiro impulso do movimento. No seu vocabulário, os conceitos de municipalismo e sindicalismo “continuam a ser interpretados como elementos disruptivos”, provocando “uma resistência quase visceral por parte dos defensores ortodoxos do modelo de representação partidária vigente”. Ao deslocar o 28 de Maio do campo da ditadura para o campo da crise da democracia parlamentar, a direita radical pode transformar a data numa advertência contra os partidos e não contra o autoritarismo. A República teria caído porque estava exausta; os partidos teriam asfixiado a nação; o Parlamento teria perdido ligação ao país real; a ordem teria surgido como necessidade. A partir daí, o salto para o presente é evidente: se o sistema atual também é descrito como degradado, se os partidos também são apresentados como casta, se o Parlamento também é retratado como incapaz, então a memória de 1926 pode ser usada para legitimar uma crítica de fundo à democracia liberal. A direita radical não precisa de festejar o 28 de Maio. Pode bastar-lhe disputar o seu significado.. Entre a memória da ditadura e a tentação da ordemJosé Adelino Maltez não acha que a data esteja hoje emocionalmente viva no país. Pelo contrário. À pergunta sobre se Portugal ainda fala do 28 de Maio com alguma emoção, responde: “Nem sabem o que isso foi.” Para ele, a data é “insignificante face àquilo que ocorreu entre 28 de Maio de 1926 e 25 de Abril de 1974”. O que conta não é tanto o dia do golpe, mas a longa intervenção militar na política e, sobretudo, o momento pós-revolucionário. Maltez aproxima mesmo o 28 de Maio e o 25 de Abril enquanto acontecimentos militares de rutura, embora de sinal oposto: “São da mesma natureza. Cumprem provisoriamente os seus objetivos”. A diferença está na forma como cada processo resolve a questão do poder. Depois do 25 de Abril, há entrega “a sufrágio, a eleições”; depois do 28 de Maio, “há a eleição de Carmona, a ascensão de Salazar e a construção de outra ordem”O politólogo insiste: o 28 de Maio não foi um movimento simples. Foi “uma espécie de revolução à procura de autor”. Houve, diz, “três corridas militares golpistas”: uma a partir do Sul, com Óscar Carmona; outra a partir de Braga, com Gomes da Costa; outra em Lisboa, com Mendes Cabeçadas. O resultado inicial é quase caricato: “Cabeçadas torna-se chefe do Governo por poucos dias, Gomes da Costa rouba-lhe o lugar, Carmona derruba os dois”, diz Maltez. A ordem que a memória posterior associou ao 28 de Maio não existiu logo no princípio. Houve luta, improviso, choque entre protagonistas. Para Maltez, o ano decisivo é o de 1928. É aí que se “altera a natureza do 28 de Maio”. Primeiro, com a eleição de Carmona por sufrágio universal; depois, com a chamada de Oliveira Salazar para as Finanças. Carmona, recorda o politólogo, “obtém 761.730 votos, contra os 407.960 votantes somados por todos os partidos nas últimas eleições parlamentares da República”. Foi eleito sem oposição, admite Maltez, mas teve votos. E esse facto cria um paradoxo: a ditadura passa a apresentar-se como “formalmente mais democrática que a democracia da Primeira República”. Essa legitimação plebiscitária é depois aproveitada pelo regime em formação e pela figura que viria a dominá-lo: Salazar.Costa Pinto concorda que o golpe resultou de uma frente heterogénea, recorrendo à expressão “coligação negativa”. Reuniu monárquicos, republicanos conservadores e outros setores contra o parlamentarismo da República, mas “não à República propriamente dita, enquanto regime secular de separação da Igreja do Estado, enquanto regime liberal”. O que unia os conspiradores não era tanto um programa comum mas a crítica ao regime parlamentar existente. Também na relação dos portugueses com os militares os dois politólogos se aproximam e afastam. Maltez vê Portugal, em 1926 e ainda em 1974, como “uma sociedade de ordens”: ordem militar, ordem académica, clero, universidades, magistratura. Essas instituições, diz, são anteriores e inferiores ao Estado, mas “influenciam decisivamente” o poder. No caso militar, existiu um pacto que atravessou regimes. “O contrato entre o poder político e o poder militar foi cumprido.” Mesmo depois do 25 de Abril, nota, foram removidas ou atacadas memórias materiais ligadas a Salazar, mas “ninguém tocou nas placas dos ministros militares entre 28 de Maio e 1933”, lembrando o caso de Domingos Oliveira. A República portuguesa continuaria a ter nas Forças Armadas “um dos sustentáculos da sua institucionalização”. Apesar do fim do serviço militar obrigatório, “na memória ainda está o povo em armas”.. Costa Pinto responde a partir da ambivalência histórica dos militares portugueses. O 28 de Maio foi feito por militares, mas “poucos meses depois, as maiores revoluções contra a ditadura militar também foram feitas por militares”. Mais tarde, “quando o Estado Novo se abriu a eleições não democráticas, os candidatos da oposição foram generais: Norton de Matos e Humberto Delgado. Houve ainda tentativas militares contra Salazar, que Humberto Delgado apadrinhou, com Henrique Galvão e a ocupação do navio Santa Maria”. Por isso, conclui, “os militares não são, como na vizinha Espanha, os símbolos exclusivos da ditadura no campo político. São símbolos da ditadura como são símbolos da democracia.”O ponto é decisivo. A farda, em Portugal, nunca ficou presa a um único significado político. A ordem que se consolidou depois de 1926 não foi obra direta dos militares enquanto corpo. Costa Pinto é taxativo: “quem efetivamente rompeu com a desordem, mais tarde, se podemos falar assim, foi Salazar”. Maltez chega a uma conclusão próxima ao destacar a “ditadura das Finanças” e a “sanidade financeira” introduzida por Salazar como elementos que moldaram duradouramente o Estado. “Houve conquistas do 28 de Maio que ficaram para sempre”, diz. A frase mostra como, no debate sobre 1926, o problema raramente fica em 1926. Acaba sempre em Salazar. Por isso, António Costa Pinto duvida da eficácia de uma recuperação política limpa do 28 de Maio. A sociedade portuguesa tem “um conhecimento limitado do passado”. As figuras do século XX que permanecem na memória são Salazar, Mário Soares e, menos, Álvaro Cunhal. Há 20 anos, “apenas 18% da população portuguesa saberia identificar Marcello Caetano. Imagine o 28 de Maio”. A data, sugere, não tem autonomia memorial bastante para escapar à sombra do Estado Novo.Maltez vê a questão de outro modo. Para ele, a sombra de Salazar é precisamente aquilo que uma direita cultural tentará discutir. O 28 de Maio foi, sustenta, mais híbrido do que a memória posterior permite reconhecer. Chega a defini-lo como “essencialmente maçónico”, invocando Mendes Cabeçadas, “maçon do Grande Oriente Lusitano e homem do 5 de Outubro”. O primeiro momento do golpe ainda seria uma conciliação com a Constituição de 1911. “Só depois é que tudo se altera.” O 28 de Maio não nasce, nesta leitura, como salazarismo pronto. “Nasce confuso, disputado, com várias correntes a tentar capturá-lo”. . A República perdida ou a revolução traída? Aqui entram os historiadores. Rui Tavares e José Manuel Quintas olham para a mesma data a partir de lugares distintos. Rui Tavares é um historiador e político de esquerda. José Manuel Quintas tem pendor monárquico e aproxima-se do universo do Integralismo Lusitano. Ambos recusam uma leitura simples. Ambos distinguem o golpe inicial do salazarismo consolidado. Ambos reconhecem que o 28 de Maio foi atravessado por disputas internas. Mas divergem quase em tudo o que dá sentido político ao acontecimento. Para Rui Tavares, a causa imediata do golpe não está apenas na decadência da I República. Está na impunidade. “Houve dezenas de golpes contra a República; vinte pelo menos numa contabilidade conservadora”, diz ao DN. Nos últimos anos do regime, acrescenta, “os militares deram a si mesmos carta branca para conspirar, e não só não eram castigados, como eram celebrados, o que tornava o custo de dar um golpe menor do que os benefícios”. O golpe de 18 de Abril de 1925, que não foi julgado, não foi apenas um ensaio geral. Foi “quase a sua guia de marcha”. A lição, resume, era clara: “Podem continuar a tentar até dar certo.”José Manuel Quintas parte de outro ponto. Para ele, o pronunciamento de Gomes da Costa nasceu contra aquilo que o general qualificava como a “ação devassa e tirânica” dos partidos políticos. O problema central era a partidocracia republicana, a instabilidade crónica, a desordem política, financeira e institucional. O 28 de Maio surge, nesta leitura, como tentativa de “promover uma revolução regeneradora, assente no municipalismo e no sindicalismo, em detrimento da mediação partidária”. Onde Rui Tavares vê a erosão da legalidade pela normalização da conspiração militar, Quintas vê uma reação à falência da representação partidária. A própria natureza do golpe é lida de forma diferente. Rui Tavares insiste numa precisão que considera essencial: “a 28 de maio não há só um golpe”. Há pelo menos dois, “um em Braga, com Gomes da Costa, e um em Lisboa, com Mendes Cabeçadas”. E há um terceiro, a partir de Elvas e Évora, protagonizado por Óscar Carmona, que “vai acabar por ganhar e marcar os nossos 48 anos seguintes”. A imagem é a de um processo em camadas, instável: “um golpe dentro do golpe dentro do golpe”. Daí a sua fórmula mais contundente: “o 28 de Maio não substituiu o caos civil pela ordem militar. Substituiu o caos civil pelo caos militar, que ainda durou bastante tempo.”Quintas reconhece conflitos dentro do campo vencedor, mas dá-lhes outro significado. Gomes da Costa não é apenas uma figura usada e descartada. É o portador de um projeto. Em 14 de Junho de 1926, sublinha, o general apresentou “as grandes linhas de um projeto constitucional” baseado numa representação nacional em duas câmaras: “Câmara dos Municípios e Câmara Corporativa”. O golpe palaciano de 9 de Julho, conduzido por Carmona e Sinel de Cordes, que prende e deporta Gomes da Costa para os Açores, torna-se assim um momento decisivo: não apenas uma luta de poder, mas o início do esvaziamento do “espírito do 28 de Maio”.. Para Rui Tavares, o golpe abre rapidamente caminho à violência organizada da ditadura. O Parlamento é suspenso e depois extinto, a censura é introduzida e as promessas de manter a República, a Constituição e as liberdades são violadas. Em Fevereiro de 1927, quando há revoltas no Porto e em Lisboa, a resposta é sangrenta. O historiador fala em “dois massacres”, com “cerca de 80 mortos no Porto e outros tantos em Lisboa, muitas centenas de feridos”. Dessa semana, fica uma evidência: “a ditadura era para valer”, diz. Não se tratava apenas de jogos de elites. A ditadura mostrava-se “disposta a massacrar o povo, a usar o Exército e a artilharia para esmagar qualquer revolta de defesa das liberdades”.Quintas não nega a deriva autoritária, mas prefere sublinhar o desvio em relação ao impulso inicial. Entre 1926 e 1933, identifica uma “fase de transição autoritária”, marcada pela suspensão da normalidade constitucional, pelo predomínio militar, pelas lutas internas e pela “crescente concentração do poder nas mãos de Salazar”. Diz mais: “Salazar transforma o movimento inicial de caráter municipalista e sindicalista, num regime centralizado e de partido único.” Para Rui Tavares, o 28 de Maio contém desde cedo a lógica da ditadura. Para Quintas, a ditadura salazarista resulta de uma apropriação e de uma deformação do movimento original.A Constituição de 1933 cristaliza essa diferença. Rui Tavares vê nela a solução encontrada por Carmona e Salazar para estabilizar o poder. De um lado, “Carmona, como a espada do poder militar”; do outro, “Salazar, como a mente que vai efetivamente governar”. A nova ordem “permite acomodar, integrar ou afastar várias correntes que tinham orbitado o golpe: integralistas, nacionalistas lusitanos, nacional-sindicalistas”. Correntes, diz, “fascinadas pela ascensão do fascismo” e por uma visão orgânica da nação. Para algumas delas, a revolução não era apenas contra a República; era contra “os cem anos de liberalismo decorridos desde as revoluções liberais de 1820”.Simpatizante do Integralismo, Quintas lê a Constituição de 1933 como o momento em que a “Revolução Nacional” de Gomes da Costa é contrariada pela centralização salazarista. O 28 de Maio permanece, para ele, “um marco de intensa polarização historiográfica e política” porque o seu legado foi simplificado. À direita, correntes próximas do conservadorismo autoritário do Estado Novo tenderiam a omitir “a profunda clivagem existente entre a ‘Revolução Nacional’, iniciada por Gomes da Costa, e a deriva centralizadora consolidada por Oliveira Salazar através da Constituição de 1933”. Do outro lado, interpretações alinhadas com o atual regime de representação partidária subestimariam “a substância das propostas de representação orgânica - municipal e sindical - apresentadas por Gomes da Costa em junho de 1926”.. Adesão a engano ou apoteose?A aceitação popular do golpe é outro ponto de separação. Rui Tavares admite expectativa e aplauso, mas recusa transformar isso em adesão consciente à ditadura. “Se aderiu, aderiu a uma farsa, a um engano”, diz. Naquele dia, tanto Gomes da Costa como Mendes Cabeçadas prometeram que os golpes não eram para acabar com a República. Mendes Cabeçadas garantiu que não encerraria o Parlamento nem reinstituiria a censura. Assim, quando parte da população de Lisboa aplaudiu a entrada de Gomes da Costa, estava a aplaudir “uma coisa que não era para durar”. Tomar esse aplauso como adesão é, diz, esquecer que a situação “tem uma duração muito curta”. Quintas valoriza mais o acolhimento social do movimento. Para ele, “a população de Lisboa saudou os militares em clima de apoteose”. O contexto era o da memória da Noite Sangrenta, da sucessão de governos, da instabilidade e do descrédito financeiro. Muitos viram nos militares uma saída possível. Havia “esperança numa regeneração nacional”, apresentada como libertação da ditadura dos partidos e dos políticos profissionais. A mobilização militar ampla conferia ao movimento uma imagem de força e legitimidade. Tavares recusa mesmo a palavra aceitação para o que se seguiu. “A aceitação da ditadura por parte da sociedade não é uma aceitação. É uma coação.” A partir de 1927, com degredos, exílios, censura, polícia política e repressão, o regime já não precisava de ser aceite como a Monarquia Constitucional ou a República tinham precisado. “Basta-lhe impor-se.” Uma democracia precisa da aprovação das pessoas; uma ditadura precisa da obediência. E “obediência consegue-se sob coação ou sob ameaça de violência”, concluiu o historiador. No plano da memória, Rui Tavares vê ainda a força de uma narrativa fabricada pelo Estado Novo. “António Ferro chega a dizer claramente que o passado é uma coisa para ser inventada, e essa máxima foi aplicada.” A ditadura teria criado uma estética de “Revolução Nacional” que pouco tinha a ver com a confusão real daqueles dias e meses. A ideia de uma República reduzida ao caos e de uma ditadura surgida como ordem seria resultado dessa política da memória. E os seus efeitos prolongam-se: “A Primeira República continua a ser bastante mal conhecida. Vista como pitoresca, mas não relembrada e muito menos entendida.”Quintas também fala de polarização da memória, mas por razões diferentes. Para ele, o 28 de Maio continua a dividir porque há duas simplificações concorrentes: uma, saudosista, confunde o 28 de Maio com o Estado Novo e omite a clivagem entre o projeto de Gomes da Costa e a concretização de Salazar; outra, predominante no atual regime, omite por completo as propostas orgânicas do movimento inicial. A disputa não é apenas sobre o passado. É também sobre o modo como se pensa a representação política.”Há, portanto, um terreno comum entre Rui Tavares e José Manuel Quintas, mas ele é estreito. Ambos concordam que o 28 de Maio não foi simples. Ambos reconhecem vários protagonistas, várias fases, várias correntes. Ambos aceitam que Salazar não foi o protagonista operacional do golpe, mas se tornou o seu grande vencedor político. Ambos veem a Constituição de 1933 como momento decisivo. Ambos consideram que a data continua a falar ao presente. Mas dizem coisas muito diferentes sobre aquilo que ela diz. Para Rui Tavares, o 28 de Maio é a história de "uma República que se perdeu porque tolerou o golpismo e acabou esmagada por uma ditadura mais implacável do que ela própria alguma vez fora". Para José Manuel Quintas, é a história de uma revolução regeneradora e orgânica, nascida contra a partidocracia, que Salazar desviou para um regime centralizado, autoritário e de partido único. Um fala de “farsa”, “coação”, “massacres” e memória fabricada. O outro fala de “ação devassa e tirânica” dos partidos, “revolução regeneradora”, “espírito do 28 de Maio” e “representação orgânica”. Entre ambos, o centenário deixa de ser uma data morta.