Hoje, há precisamente um mês, Paulo Raimundo, 46 anos e funcionário comunista desde os 19, natural de Cascais mas criado em Setúbal, filho de um metalúrgico e de uma trabalhadora da limpeza, casado e com três filhos (duas adolescentes e um bebé), benfiquista, membro de todos os órgãos de cúpula do partido (Comité Central, Comissão Política e Secretariado), era eleito secretário-geral do PCP. A votação no Comité Central decorreu sem surpresas: foi eleito por unanimidade, tornando-se no quarto secretário-geral do PCP desde o 25 de Abril, depois de Álvaro Cunhal (de 1961 a 1992), Carlos Carvalhas (1992 a 2004) e Jerónimo de Sousa (2004 a 2022)..A escolha tinha sido divulgada dias antes pela direção do partido, apanhando muitos militantes de surpresa, inclusivamente no Comité Central, conforme reconhecia, na altura, o próprio Jerónimo de Sousa. Da sucessão na liderança já se falava há muito, até por causa da evolução da saúde do secretário-geral. E Paulo Raimundo nunca tinha integrado o lote dos nomes falados. A saber: João Oliveira (ex-líder parlamentar); João Ferreira (vereador em Lisboa, ex-candidato presidencial e ex-eurodeputado); e Bernardino Soares (ex-líder parlamentar, ex-presidente da Câmara de Loures)..Desde então, não tem parado. A prioridade imediata da máquina do PCP é uma, dado ter um novo líder inteiramente desconhecido dos portugueses: apresentá-lo ao país. E isto através de todos os meios: os da propaganda do partido, sessões com militantes, comícios, visitas a fábricas, entrevistas..Questionado pelo DN, o gabinete de imprensa do PCP informou que até ontem, domingo, Paulo Raimundo tinha já percorrido "cerca de três mil quilómetros" em voltas pelo país. E deu seis entrevistas: à RTP, CNN-Portugal, Lusa, JN/TSF e ao podcast (inserido no site do Expresso) "Perguntar não ofende", do comentador político Daniel Oliveira, ex-militante do PCP e do Bloco de Esquerda, partido que de resto ajudou a fundar..Citaçãocitacao"Temos organizações do partido que tem tudo muito organizadinho, com as quotas em dia, tudo organizado, mas com uma desligação ao meio de onde estão. Ou, por exemplo, de que vale uma comissão de freguesia que tem as quotas em dia, "Avantes!" vendidos, mas depois passa ao lado dos problemas que as pessoas vivem naquela freguesia.".Nos próximos dias, semanas e meses muitos mais milhares de quilómetros serão percorridos e muitas mais entrevistas serão dadas. O novo líder do PCP não está, por ora, em condições de recusar nenhuma forma de exposição. E tempo não lhe faltará para se ir afirmando: o primeiro grande teste eleitoral acontecerá em junho de 2024, com as eleições europeias (atualmente o partido tem dois eurodeputados eleitos, num total de 21 portugueses); depois, em outubro de 2025, serão as eleições autárquicas (19 presidências de câmara em 308); a seguir, as eleições presidenciais (janeiro de 2026); e por último o teste de fogo, onde o PCP jogará tudo ou nada pela sobrevivência, as eleições legislativas de outubro de 2026. Atualmente, a presença comunista no Parlamento é a mais fraca de sempre na sua história: seis deputados em 230. Não tem faltado quem augure que o partido está à beira da extinção parlamentar..Para já, no estilo e, por exemplo, no dom da empatia, ainda não se conseguiram perceber as grandes diferenças do novo líder face ao anterior. Mas no discurso e nas prioridades surgiram três claras inovações..Primeira: um esclarecimento clarificador da posição do partido face à guerra na Ucrânia. Embora insistindo sempre na ideia de que o que se passa atualmente não começou agora mas sim em 2014 (guerra civil no Donbass, zona leste da Ucrânia, entre ucranianos e russos), Paulo Raimundo assumiu claramente como "condenável" a ação da Rússia ao invadir a Ucrânia..A outra inovação consistiu num convite explícito a todos os que se foram afastando do PCP para que regressem (porque "fazem muita falta")..Os "alvos" deste desafio são não só ex-militantes como também ex-compagnons de route. E, segundo explicou ao DN um militante do partido que trabalhou com Paulo Raimundo, tanto como ser dirigido aos que já há décadas estão fora (o PCP teve dezenas de dissidência quando o Muro de Berlim lhes caiu em cima), o convite tem também na mira aqueles que, muito recentemente, se desiludiram com o partido por causa das suas posições face à guerra na Ucrânia e/ou com o voto contra o OE2022 (que redundou em eleições antecipadas e na maioria absoluta do PS)..Seja como for, acrescentou o mesmo interlocutor, quem quiser regressar que o faça na convicção de que "não encontrará um PCP diferente daquilo que é": um partido, como diz a resolução aprovada no último congresso, ancorado na revolução russa de 1917 que defende "a aplicação criadora do marxismo-leninismo", luta por uma "transformação revolucionária da sociedade" e que tem o seu funcionamento interno "assente num desenvolvimento criativo do centralismo democrático"..A terceira inovação de Paulo Raimundo traduziu-se num diagnóstico assumidamente crítico que fez sobre a "desligação" entre o PCP e o país que o envolve. "Temos organizações do partido que tem tudo muito organizadinho, com as quotas em dia, tudo organizado, mas com uma desligação ao meio de onde estão. Ou, por exemplo, de que vale uma comissão de freguesia que tem as quotas em dia, "Avantes!" vendidos, mas depois passa ao lado dos problemas que as pessoas vivem naquela freguesia", disse o novo líder à Lusa..Questionado pelo DN sobre o estado em que encontrou o PCP nas visitas que fez no último mês, a resposta de Paulo Raimundo foi a previsível, salientando "o impacto positivo" que a Conferência Nacional do PCP de 12 e 12 de Dezembro (no meio da qual ocorreu a reunião do Comité Central que o elegeu secretário-geral) teve na "mobilização", "dinamismo", e "compromisso militante", bom como o "entusiasmo dos militantes" e uma "participação alargada"..Pedro Tadeu, jornalista, antigo subdiretor do DN, militante comunista há décadas e membro da Comissão de Espetáculos da Festa do "Avante!", diz que, para já, "é muito cedo" para se avaliar a nova liderança. Porém, no curto prazo, houve um "impacto positivo", verificável numa sondagem Intercampus publicada no Correio da Manhã e no Jornal de Negócios em 25 de novembro que deu ao PCP uma subida de 2,8 pontos (de 2,6 por cento para 5,4)..Faltam cerca de 1400 dias para as próximas eleições legislativas. Se continuar à mesma média do mês que passou, Paulo Raimundo ainda terá 140 mil quilómetros pela frente. São três voltas e meia ao planeta Terra..joao.p.henriques@dn.pt