Tiago Barbosa Ribeiro. "O projeto que Rui Moreira lidera está esgotado, está em desintegração"

O deputado e cabeça de lista do PS à Câmara do Porto recusa-se a falar do caso judicial em que o adversário na corrida à autarquia está envolvido. Diz que as divergências são de fundo e políticas. Quer a cidade a responder aos problemas de habitação e mobilidade dos portuenses.

A direção do PS mostrou alguma hesitação sobre quem ia candidatar à câmara do Porto. Isso não fragiliza a sua candidatura?

Não de forma alguma. Estes são sempre processos que têm a sua complexidade. O PS tem o seu timing neste processo de decisão. O PS a nível nacional esteve e está empenhado no combate à pandemia. Os nossos timings não são os dos outros partidos e houve muita especulação e muita contrainformação relativamente a esta matéria. Neste momento esta página está completamente ultrapassada. Sou candidato à Câmara Municipal do Porto pelo PS e tenho o apoio de todos os órgãos do partido para avançar com esta candidatura e a unidade dos socialistas.

Também se disse que o PS estava a gerir o timing da candidatura para ver se Rui Moreira realmente se recandidatava...

Não, o PS sempre foi afirmando ao longo destes quatro anos a sua visão alternativa para a cidade e de oposição ao dr. Rui Moreira e sempre esteve em cima da mesa que lutássemos nestas eleições autárquicas pela nossa visão de cidade, que não é a do atual executivo municipal e aqui estamos para defender esse legado e para construir o futuro.

Mas disputar eleições contra Rui Moreira, que é o atual presidente de Câmara e recandidato, não é uma tarefa ingrata pela dificuldade de o destronar?

É, mas em política não se disputam eleições nem com vitórias antecipadas nem com derrotas antecipadas e eu entro neste combate para mostrar que a candidatura do dr. Rui Moreira não vai ser um passeio, não vai ser um passeio triunfal, que temos uma visão alternativa da cidade pela qual nos vamos bater e que o projeto que ele lidera está neste momento esgotado, está mesmo em desintegração.

Vimos ainda há uns dias um dos atuais presidentes de junta do dr. Rui Moreira a ser anunciado à câmara pelo Chega. Não vemos nenhum projeto, nenhum novidade, nenhuma nova ambição para os próximos quatro anos a não ser a manutenção do poder pelo poder. E eu entendo que é possível fazer muito mais pelo Porto com outra ambição e com outras ideias e outros gostos.

O caso Selminho e o facto do Rui Moreira ir a julgamento tem um impacto grande na corrida autárquica?

Não me vou pronunciar sobre questões judiciais, a mim bastam-me as diferenças políticas com o dr. Rui Moreira. Não vou contribuir para a degradação da campanha com matérias que não têm a ver com questões políticas que interessam aos portuenses.

Não era para se pronunciar sobre o julgamento, até porque o caso tem a ver com a Câmara e o Porto. Mas sobre o facto de Rui Moreira ir a julgamento não tem impacto na própria campanha eleitoral.

Essa avaliação tem de ser feita pelo dr. Rui Moreira e terá de ser feita pelos portuenses. O que posso assegurar é que a campanha do PS será uma campanha de ideias, de propostas, que irá mobilizar os descontentes e os desencantados com o atual presidente da câmara e são muitos, mas sendo uma campanha pela positiva.

Se estivesse no lugar de Rui Moreira recandidatava-se ao cargo?

Não vou comentar esse facto. Não posso dizer o que faria e não faria, não estou nessa situação. A minha avaliação faz-se, como farão todos os portuenses, o meu combate político e é nesse sentido que estou e não vou comentar extra políticas relacionadas com os processos de ordem judicial em que o dr. Rui Moreira está envolvido.

Diz que o projeto de Rui Moreira está esgotado. Quais são os grandes problemas do Porto neste momento?

Precisamos fazer sobretudo um balanço do que foram estes oito anos. Quando digo que está esgotado, pergunto quais os grandes projetos que ficam de forma estruturante para o futuro da cidade? Falo daquilo que durante a governação do PS tivemos como a Metro do Porto, o Parque da Cidade, o Porto Património Mundial ou a Casa da Música, ou um Rivoli, com a cobertura total do saneamento, etc, que mudaram a facto a cidade e ainda hoje tornam o Porto moderno. Ora, ao final de oito anos do dr. Rui Moreira nós só podemos fazer uma análise benevolente dos seus mandatos se tivéssemos por comparação aquilo que foi o legado de deserto absoluto que foram os 12 anos de Rui Rio. Mas isso não pode ser bitola do que queremos para a cidade. Um dos principais projetos que o dr. Rui Moreira que tem apresentado, que tem a ver com o matadouro de Campanhã, e com o qual estamos inteiramente de acordo, é um projeto que já foi apresentado na campanha eleitoral do PS em 2013. Temos de garantir, antes de mais, que o Porto é cidade onde seja possível cada portuense viver. Neste momento isso não é possível, já que temos um problema gravíssimo relacionado com a habitação, com o seu custo, e a Câmara Municipal do Porto tem estado bloqueada na procura de soluções, não consegue encontrá-las com parceiros, com parceiros privados, com programas de renda acessível para as classes médias, com os que foram lançados ao abrigo, por exemplo, do primeiro direito para arrendamento acessível feito pelo Governo. As primeiras 26 000 habitações a serem inscritas serão financiadas a 100% a fundo perdido com o Plano de Recuperação e Resiliência, e, portanto, é preciso que a câmara seja mais proativa. Temos apartamentos, habitações e casas à venda por centenas milhares de euros, e, por valores muito acima do salário mínimo e do salário médio que os portugueses e os portuenses auferem. Isto expulsa os portuenses da cidade, os filhos dos portuenses da cidade, e eu não me resigno a isso. O Porto tem de melhorar substancialmente a sua qualidade de vida. Neste momento é uma cidade onde não só nós temos vindo a perder habitantes, temos menos 20 mil habitantes. Não pode ser uma cidade onde se percam horas por semana na mobilidade e nas deslocações diárias que os portuenses fazem. Isto implica uma nova visão metropolitana. Dos 270 mil carros que entram diariamente na cidade, não são portuenses. E, portanto, nós precisamos de um diálogo de uma escala metropolitana que esta câmara não tem conseguido liderar com os municípios à sua volta. Podemos ir a outras áreas, como ao nível da insegurança que se vive, dentro desta zona da cidade. É preciso uma política proativa para tratar os toxicodependentes, e o dr. Rui Moreira tinha prometido há anos uma sala de consumo assistido, que ainda não viu a luz do dia, e comigo ela será verdadeiramente concretizada. E também é preciso mais aposta no combate ao tráfico de droga que eu acho que atinge várias pessoas da cidade e que infernizam a vida os moradores destas zonas. Entendo também que a câmara deve lançar um programa, em articulação com o setor social, com as outras freguesias, um programa de financiamento de creches, uma rede pré-escolar em articulação com a Segurança Social e com os serviços do Estado central.

"Vimos ainda há uns dias um dos atuais presidentes de junta do dr. Rui Moreira a ser anunciado à câmara pelo Chega. Não vemos nenhum projeto, nenhum novidade, nenhuma nova ambição para os próximos quatro anos a não ser a manutenção do poder pelo poder."

Há outras bandeiras que vai levar à campanha?

Neste momento o Porto é uma cidade que não percebe exatamente qual é o seu desígnio para os próximos anos. Não encontro na candidatura do dr. Rui Moreira. Ao nível do combate à crise climática, o Governo, o Estado Português, lançou o plano para a neutralidade carbónica, que estabelece 2050 como data para esse para esse desígnio, e a Câmara Municipal do Porto e a cidade do Porto têm que se antecipar para essa meta, porque as cidades europeias são centrais no combate à descarbonização, no combate às alterações climáticas. Mas também ao fazê-lo, nós estamos a promover investimento reprodutivo, estamos a gerar empregos de qualidade, estamos a investir na transição energética, na economia circular, na construção ambientalmente sustentável, para a qual existem e existirão fundos comunitários. É importante também que o Porto tenha um papel mais liderante ao nível daquilo que é descentralização. Eu quero um Porto com mais competências na gestão daquilo que são a transferência de competências que o Governo quer fazer. Por último, creio que naquilo que é o impacto da pandemia, temos dados que vão estando estabilizados em que o Porto investiu menos no combate à pandemia do que municípios com muito menos músculo financeiro, como Matosinhos, Vila Nova de Gaia, Braga, Sintra, já para não irmos a Lisboa. Neste momento, não só desperdiçou esta oportunidade, como não está a pensar a cidade pós-pandemia. O PRR foi aprovado esta semana, o que é que a Câmara do Porto está a fazer, que equipas da Câmara do Porto é que estão a trabalhar, o que é que o Dr. Rui Moreira tem na sua equipa para apresentar projetos que visam aproveitar o PRR, para moldar uma economia no pós-pandemia, investindo em postos de trabalho, e diversificando aquilo que tem sido uma enorme dependência do turismo?

Apostar tudo no turismo foi errado?

O turismo tem um papel central na economia portuguesa, e na portuense, como na economia de outras cidades, temos obviamente de ter uma posição de equilíbrio e de relacionamento sem qualquer tipo de preconceito com a atividade turística, que tem vindo a ser a criadora de inúmeros postos de trabalho e de riqueza para o país. A questão coloca-se nos desequilíbrios. Dou um exemplo: no final do ano passado, a câmara tinha 98 empreendimentos turísticos em licenciamento, dos quais 84 eram hotéis e a esmagadora maioria no centro histórico, do Porto Património Mundial. Os turistas não vêm ao Porto para ver outros turistas, vêm para ver aquilo que é a identidade da cidade. Temos que aproveitar este período, aproveitar a economia após a pandemia para diversificar, para investir naquilo que tem sido outro tipo de áreas em que o Porto tem sido liderante, e para diversificarmos, de certa forma, esta monocultura em que temos estado fechados ao longo dos anos.

"Temos de garantir, antes de mais, que o Porto é cidade onde seja possível cada portuense viver. Neste momento isso não é possível, já que temos um problema gravíssimo relacionado com a habitação."

E em relação ao setor da cultura?

Tenho estado a trabalhar já esta semana para apresentar muito em breve um conselho estratégico que vai coordenar o programa eleitoral, que irei apresentar aos portuenses, onde a cultura será naturalmente um fator muito distintivo daquilo queremos para a cidade e onde estarão vários protagonistas do próprio setor cultural da cidade, que apoiam esta candidatura e que apresentarei seu tempo.

Conselho que também vai reunir independentes?

Exatamente. É uma candidatura do PS mas que tem expectativa e ambição para além daquilo que é o espaço político e ideológico do PS.

E qual a importância do conhecimento científico e a ligação da cidade às universidades?

É absolutamente central. É o principal ativo que temos na cidade do Porto. A Universidade do Porto é formadora daquilo que são as novas gerações, o que serão as novas qualificações, mas também daquilo que será a capacidade competitiva da nossa economia. Eu entendo que nós não estamos a conseguir aproveitar para o retorno daquilo que a universidade, mas também o polo técnico e instituições têm vindo a desenvolver na cidade do Porto. E, portanto, nós precisamos de ligar aquilo que durante muitos anos foi mais destrutivo na produção de conhecimentos tecnológicos da Universidade do Porto à capacidade de produção de riqueza na cidade do Porto. Temos que evitar que os melhores quadros continuem a sair da cidade, temos que evitar que as empresas continuem a deslocalizar-se da cidade. Para isso, também ao nível das novas tecnologias, eu entendo que é preciso um foco tecnológico dentro da própria Câmara municipal do Porto. A Câmara Municipal do Porto tem que ser uma câmara muito mais liderante naquilo que é oferta tecnológica na relação com os seus munícipes, e que neste momento está muito atrasada naquilo que são as tendências de gestão tecnológica, da relação com os cidadãos, mas também em áreas como aquelas que aqui referi, como por exemplo a gestão da mobilidade e de tráfego.

É também deputado, como é que vai conciliar o trabalho de autarca?

Obviamente, se for eleito presidente da câmara, como espero, será a minha função, e será mais do que isso, a maior honra da minha vida. Relativamente à função do mandato da oposição, isso não coloca nenhum tipo de problema, porque as reuniões tal como se realizam, e hoje em dia sou também deputado na Assembleia Municipal do Porto há 12 anos, e, portanto, é perfeitamente contabilizável com outra atividade.

paulasa@dn.pt

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