Sónia Ramos: "O Alentejo não pode ter só oito deputados no Parlamento"

A deputada do PSD diz-se empenhada na mudança da lei eleitoral e na criação de um estatuto para cidades médias do interior que permita a fixação de população. A única mulher a liderar uma distrital lamenta que as mulheres, na política, sejam mais fiscalizadas do que os homens.

O que é que mudou na sua vida com a eleição para o parlamento?
Mudou muita coisa, mudou a rotina familiar, mudou o grau de responsabilidade, mas estou muito feliz porque, acima de tudo, tive um voto de confiança dos meus alentejanos do distrito de Évora. Mas já passei várias fases na minha vida e todos os desafios são importantes, haja otimismo e vontade de trabalhar. Vou agarrar esta oportunidade que pode ser única na minha vida para tentar mudar alguma coisa no meu território.

Como o quê?
Gostaria muito de participar na alteração da lei eleitoral da Assembleia da República. O Alentejo é um terço do país, não pode ter só oito deputados no Parlamento a representar os seus interesses. É uma situação absolutamente injusta e absolutamente desproporcional e uma das grandes batalhas da minha vida e dentro do PSD é a alteração desta lei eleitoral, porque precisamos de representantes do nosso território na Assembleia da República, para mudar alguma coisa.

E como é que se faz isso?
Não há Estado sem território e, portanto, o território tem de ser considerado na representação da Assembleia da República. Por exemplo, um número fixo de deputados por círculo eleitoral, há formas de o fazer, temos é de garantir que o nosso território tem representatividade. Podemos manter os círculos eleitorais existentes, mas que cada um tenha um número fixo de deputados que represente o território. Todos os anos perdemos população e depois chegamos ao limite de ter dois deputados por distrito, como já acontece em Portalegre.

Está para breve a sua saída de líder da distrital de Évora...
Sim, até ao final do ano. Três mandatos, o máximo que os estatutos permitem, atualmente. Desde que assumi funções, sou a única mulher presidente de distrital do PSD ao nível nacional. O que não deixa de ser sintomático também. A igualdade de género e a participação das mulheres na política e na vida cívica são duas das minhas principais preocupações, além da desertificação e despovoamento humano do nosso território.

Sente-se o peso de ser mulher aqui?
Sente-se na vida política em geral. Sentimos que somos muito mais sufragadas do que um homem no seu desempenho político. Há muitas formas de subtis de nos fiscalizar, de dizer quando estamos bem ou menos bem.

Sente-se fiscalizada?
Sinto que estamos muito mais na berlinda do que os homens na política. Qualquer deslize, qualquer lapso é avaliado de forma mais crítica do que se for um homem em igualdade de circunstâncias.

É muito diferente das outras atividades públicas ou políticas que tem exercido até agora?
É diferente. Penso que eu e todos os outros caloiros ainda estamos a tentar interiorizar todos os procedimentos, os circuitos, tudo isto é importante e é um processo de aprendizagem.

Que avaliação espera fazer de si própria no final deste mandato?
​​​​​​​Na política temos de estar empenhados nos projetos de curto-prazo porque as coisas mudam de um dia para o outro. Daqui a quatro anos estarei onde o PSD quiser, onde as pessoas quiserem, onde a estrutura do partido quiser, a nível político naturalmente. Não faço grandes planos, mas gostaria de ver alterada a lei eleitoral, como lhe disse, e de ver criado um estatuto para cidades médias, cidades do interior certificadas com uma série de requisitos que as tornem atrativas para fixar a população.

Isso é o quê?
É um desígnio nacional, temos de ter a capacidade de levar pessoas para o interior do país e algumas das medidas não têm resultado. Temos de ter no interior do país uma série de cidades que façam marketing, que possam ter requisitos de qualidade do ar,qualidade de vida, ter proximidade dos bairros habitacionais aos equipamentos escolares. Ter um conjunto de equipamentos e de infraestruturas de lazer, jardins e espaços abertos, de forma a levar pessoas.

E empregos?
Claro que a questão do emprego é fundamental porque as pessoas só se fixam se tiverem uma oportunidade profissional. Mas também temos de aproveitar esta questão do teletrabalho que a pandemia nos trouxe. Conheço muitas pessoas de Montemor, de Évora, que trabalhavam em Lisboa e voltaram para as suas terras e até estão a comprar casa novamente e a trabalhar à distância. Mas temos de ter capacidade de promover as cidades médias para atrair as pessoas, como se fosse uma certificação. Temos de levar pessoas para o território e esta é uma grande bandeira apelando à responsabilidade social das empresas.

É um projeto vai apresentar?
Sim, mas para já não porque é muito recente, mas julgo que há condições para isso. Temos de ser muito arrojados, muito ambiciosos com o interior do país, é mesmo uma questão de Estado. Temos de mostrar aos portugueses que vale a pena fixarem-se no interior e temos de ter a capacidade de olhar para o território e aproveitar as infraestruturas que temos e que não estão a ser aproveitadas.

Porque é que não tem sotaque?
Não sei, mas posso garantir-lhe que não faço esforço nenhum para não ter. Por acaso, Montemor é um dos concelhos que não tem um sotaque assim extraordinário, mas os sotaques são um orgulho e as pessoas devem ter orgulho deles. A ligação ao território é uma coisa fortíssima no Alentejo e não há nada mais bonito que isso. Devido a um acidente de percurso da minha família, nasci no Feijó, na Margem Sul. Fui para Montemor com 10 anos e lá estou até hoje.

E Lisboa?
​​​​​​​Gosto de vir a Lisboa, mas não tenho nenhuma vontade de morar aqui. Tenho ido e vindo todos os dias e só de vez em quando fico cá uma noite ou outra.

artur.cassiano@dn.pt

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