Seguro associa falta de ética e de respostas do socialismo à subida da extrema-direita

Na apresentação da biografia de António Guterres, o ex-secretário-geral socialista garantiu que o socialismo democrático sempre foi alternativa quando se manteve fiel aos seus princípios e se bateu pela justiça social.

António José Seguro estava ali para falar do percurso de António Guterres, com quem fez grande parte do seu trajeto político, mas ainda teve tempo para lançar uma crítica genérica que pode caber na carapuça de outros socialistas. Para o ex-secretário-geral do PS o crescimento das extremas-direitas deriva de exemplos de falta de ética, má gestão dos dinheiros públicos e falta de resposta aos problemas dos cidadãos, em particular das classes médias.

Sem nunca mencionar o Chega, que no caso de Portugal é o partido na ponta extrema da direita, ou qualquer outra figura do PS - algo que tem mantido sempre desde que saiu da liderança do partido, em 2014 -, António José Seguro afirmou que há uma "dupla erosão"do socialismo democrático e dos partidos tradicionais na Europa, que se tem refletido no reforço das forças mais à direita. "A quarta vaga de democratização não se verificou mesmo com a Primavera Árabe", frisou.

Seguro tinha sido interpelado por Pedro Latoeiro e Filipe Domingues, autores da biografia de António Guterres, O Mundo não tem de ser assim, ontem numa apresentação da obra no Centro de Acolhimento para Refugiados, na Bobadela, sobre a crise das democracias e não se fez rogado: "O socialismo democrático foi sempre alternativa quando foi fiel aos seus princípios. Foi alternativa às propostas liberais e à privatização dos serviços públicos e sempre que soube combater contra as desigualdades e pugnar pela justiça social".

"Eu diria que talvez o que tenha corrido pior a António Guterres no primeiro mandato foi a eleição de Trump."

O antigo secretário de Estado de Guterres já tinha estabelecido o padrão do "socialismo fiel aos seus princípios" na figura do atual secretário-geral das Nações Unidas, um homem "vítima da sua própria inteligência". A preocupação com as pessoas e com os mais vulneráveis tanto nos governos a que presidiu em Portugal como na ONU são a marca que Seguro quis destacar do antigo governante. "Tem um modo inteligente com que trata os assuntos sensíveis", disse, lembrando o papel que Guterres desempenhou na independência da Timor-Leste. "Onde as pessoas veem um beco sem saída ele vê uma solução. Nunca procura a vitória pela vitória e não deixa o outro encurralado", garantiu.

Mónica Ferro, antiga deputada do PSD e atual funcionária das Nações Unidas, também já tinha destacado qualidades ao secretário-geral da ONU. Quis, sobretudo, desmistificar a ideia de que a força da instituição está dependente de António Guterres: "O secretário-geral não tem o poder de impor uma decisão de cima para baixo aos estados-membros".

Mónica Ferro admitiu que a instituição "comete alguns erros", em particular ao nível da comunicação. "Muitos sucessos passam por baixo do radar e muitas vezes não recebemos o crédito do que fazemos", afirmou. Destacou o papel de Guterres na luta pela paridade na ONU, o que disse ter sido cumprida a 100% no compromisso prometido.

"É o momento de reconstrução e reconfiguração, em que somos todos precisos, e em que a generosidade de quem mais pode é mais necessária."

Perante a crise atual, sobretudo provocada pelo efeito devastador da pandemia de covid-19 em todo o mundo, a diretora da agência de Genebra do Fundo da ONU para a População, admitiu que "um dos maiores receios" é o de que as crises económicas que afetam alguns dos maiores contribuintes líquidos das Nações Unidas possam servir de "pressão" nos orçamentos disponibilizados para a organização. "É o momento de reconstrução e reconfiguração, em que somos todos precisos e em que a generosidade de quem mais pode é mais necessária".

Recordando o mal-estar e o desinvestimento que pautou a relação do ex-presidente norte-americano Donald Trump com a ONU - em que questionou fortemente o multilateralismo -, Mónica Ferro sublinhou que no primeiro mandato na organização, António Guterres conseguiu, apesar de tudo, que os Estados Unidos não tivessem cortado o financiamento à organização.

António José Seguro foi ao encontro destas palavras e se houve "coisa pior" no primeiro mandato de Guterres na ONU foi mesmo "a eleição de Donald Trump".

Neste segundo mandato, o ex-secretário-geral do PS apontou para a reforma da ONU: a composição do Conselho de Segurança, o método de decisão e o financiamento. Neste último ponto fez até um desafio aos "multimilionários", para que deem "uma gorjeta" ao orçamento da ONU para que deixe de estar dependente dos estados-membros e dos egoísmos nacionais.

De todas as histórias que viveu com Guterres no governo, Seguro quis destacar o dia em que estava no seu gabinete e o então primeiro-ministro recebeu um telefonema que o deixou aos "pulos". Do outro lado da linha tinha estado Bill Clinton a dizer que era preciso dar atenção a Timor. O que fez muito pelo rumo da história daquele país.

O padre Vítor Melicias, sentado na plateia, corroborou: "Eu estive lá e digo: amén e aleluia".

paulasa@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG