Rui Tavares: o aluno de "latim e grego" que é deputado e se divide entre comissões, o plenário e conferências

O dia é passado a "saltar" entre várias salas do Parlamento, onde acontecem comissões, sessões e reuniões. Começa antes das 9.00, termina perto das 21.30 e, pelo meio, ainda consegue estar numa conferência de estudantes de Direito. "Não foi um dia muito mau", diz Rui Tavares, deputado único do Livre.
Publicado a
Atualizado a

Ainda não são 9.00. O trânsito típico do regresso a um dia de trabalho após o feriado do dia anterior (25 de Abril) ecoa nos ouvidos. Passam alguns minutos da hora marcada para o encontro (8.45) quando Rui Tavares, deputado e líder do Livre, chega ao Largo de Santos, em Lisboa. Vem de bicicleta comunitária ("Gosto muito. Sinto o cheiro a rio logo de manhã, é ótimo"), que deixa estacionada na respetiva estação. Feitas as apresentações, fazemos o resto do percurso a pé.

O destino é a Assembleia da República, que fica a uns dez minutos, subindo a avenida D. Carlos I. A meio, vemos Rui Tavares a contar números de porta. Para no 111, que tem um significado especial: "A minha mãe, quando veio da aldeia, veio aqui para esta casa trabalhar como criada. Os patrões eram bastante salazaristas, diga-se. Depois, veio a minha tia. Uma vez, quando todos estavam a comer açorda, o cão teve direito a açorda com ovo e a minha tia não. Ela chateou-se e sabe o que lhe disse a patroa?" "O quê?", pergunto. "Não me venha com esse discurso bolchevista, olhe que meto-a na rua", conta, rindo-se. Há, no entanto, um outro significado naquela casa: "Só anos mais tarde, já depois de a minha mãe me dizer que viveu aqui, é que descobri que foi, também, o edifício onde Fernando Pessoa morou depois de uma das suas vindas da África do Sul", algo que hoje está identificado com uma placa junto à entrada. Cruzam-se, assim, duas dimensões da vida de Rui Tavares: a política e a história.

Além de ser deputado, Rui Tavares foi também eleito vereador na Câmara de Lisboa, onde não tem estado presente devido a conflitos entre as duas agendas.

Quando chegamos ao Parlamento já decorre a primeira reunião do dia (a da mesa e coordenadores da comissão de Revisão Constitucional). Antes de ver a sala onde é o encontro, Rui Tavares é abordado por uma funcionária. Elogia-o pelo discurso da véspera, na sessão solene do 25 de Abril, e pede que lho envie. Sugere-nos depois, antes de seguir pelo corredor: "A reunião é à porta fechada. Se calhar encontramo-nos no bar dos funcionários?"

No bar, bebemos um café e damos uma leitura pelos jornais do dia. Todos, sem exceção, dão destaque ao 25 de Abril. Rui Tavares aparece depois, com uma pasta castanha na mão, que pousa na mesa, juntamente com o telemóvel. Vai depois buscar um sumo de laranja, uma merenda mista e um café. Faz um briefing do dia, que se prevê ocupado: "Há conferência de líderes às 11.00, mas antes tenho de estar na comissão de Assuntos Constitucionais, ainda queria dar um salto à [comissão de] Orçamento e Finanças. Depois de almoço, tenho uma palestra na Faculdade de Direito, volto para o plenário e acabo na comissão de Revisão Constitucional."

Entramos na sala 4, a reunião começa quando há quórum, e, menos de um quarto de hora depois, já estamos de saída. A correria faz parte do dia-a-dia, diz Rui Tavares. Mesmo assim, "não é dos piores". Por entre os corredores mais ou menos labirínticos, o deputado ainda passa por breves momentos pela sala do Senado, onde decorre a comissão de Orçamento e Finanças. Pelo meio, vai-se cruzando com membros de outras bancadas parlamentares com quem troca algumas ideias: alguns elogiam-no pelo discurso do 25 de Abril; noutro caso, um deputado do PSD (António Topa Gomes) vai falando com Rui Tavares sobre a mobilidade para o Parlamento, uma vez que ambos usam a bicicleta para lá chegar ("O António é mais fanático do que eu. Eu sou pouco atleta", diz Rui Tavares). A 'saltar' aqui e ali, a manhã termina com a Conferência de Líderes, que começa dentro de poucos minutos. Mais uma vez, acontece à porta fechada. Esperamos por Rui Tavares nos Passos Perdidos. Terminada a reunião, somos conduzidos ao gabinete.

Ali é feito outro briefing com os membros do gabinete. Dali resulta aquilo a que, em tom de brincadeira, Rui Tavares e os outros membros do gabinete chamam "tarô parlamentar". No fundo, é um jogo feito entre o deputado, Isabel Mendes Lopes (assessora política), Tomás Cardoso Pereira (chefe de gabinete), Pedro Mendonça (assessor de imprensa) e as assessoras jurídicas (Sofia Pinto Ribeiro e Marta Ramos). A ideia é tentar perceber quais (e quando) serão os temas a ser discutidos, e onde poderá ou não o Livre acompanhar outros partidos.

"Vamos almoçar qualquer coisa rápido e depois seguimos para a Faculdade. Não temos muito tempo. Tens plenário às 15.00, não te esqueças", diz o assessor a Rui Tavares. E o almoço não demora mesmo, nem há tempo para um café. "Bebemos lá na faculdade", diz o líder do Livre.

Seguimos de carro, chegamos e vamos diretos ao auditório. O café prometido não acontece pela correria. Mas, a meio caminho, cruzamo-nos com uma banca de venda de livros em segunda mão, todos a cinco euros. Pega num sobre Natália Correia, folheia e pergunta: "É o preço que está marcado?" A resposta chega por entre sorrisos: "Para si é mais barato", ouve a vendedora dizer. No entanto, a pressa entre a palestra aos estudantes e a presença no plenário, a compra fica por fazer.

Chegamos ao plenário nos minutos iniciais, Rui Tavares senta-se e intervém logo no início, numa reunião dedicada à discussão do Programa de Estabilidade.

O plenário termina já perto das 18.00, hora de início da reunião da comissão de Revisão Constitucional. Apesar da proximidade, não impede outro "saltinho", à biblioteca Passos Manuel, onde Rui Tavares vai com frequência. Traz um livro que tinha em casa ("Ainda lá tenho bastantes, mas vou trazendo aos poucos", diz à bibliotecária).

Entramos na sala de leitura, onde Rui Tavares nos dá uma breve aula de história sobre o espólio ali presente (que inclui, até, uma Bíblia poliglota, em grego e latim, que o deputado já consultou). Vem muitas vezes? "Sobretudo às segundas-feiras, como tenho menos trabalho parlamentar". Vem trabalhar? "Ler, trabalhar também. Por exemplo, o discurso que fiz aquando da sessão evocativa da Constituição de 1822, vim aqui alguns dias para ler alguma coisa sobre o tema para escrever o discurso."

Seguimos novamente para o gabinete, onde conversamos com mais calma. "Podia ter sido um dia muito mais complicado. Era para termos tido uma reunião extra, que não aconteceu", diz Rui Tavares. Apesar da correria dos dias de um deputado único, o balanço deste ano e meio "é muito bom". "Estamos a fazer, finalmente, parte do percurso que sempre dissemos que queríamos fazer. Acredito que há espaço da esquerda verde, em Portugal. Estamos a começar por baixo, mas vamos crescer gradualmente. É um crescimento assente em credibilidade. As pessoas respondem muito bem a isso", analisa o deputado. Apesar do balanço positivo, há um fator negativo: "Quando fui eleito, tive de parar com as aulas de grego e latim que estava a ter, com muita pena minha."

O dia termina já tarde - perto das 21.30 - e acaba tal e qual como começou: a pedalar. "É a melhor hora para o fazer", conclui Rui Tavares.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt