Na Alemanha para celebrar os 50 anos do PS, Costa afasta candidatura a cargos europeus
Os 50 anos do PS, tal como a celebração dos 50 anos da Guiné-Bissau, faz parte de todo um percurso, porque os momentos históricos não acontecem só por si, são uma cadeia de acontecimentos", disse o secretário-geral socialista, António Costa, na cidade alemã de Bad Münstereifel, onde o PS foi fundado em abril 1973.
Com a saída anunciada da liderança do partido, António Costa visita agora a Alemanha numa das últimas ações na qualidade de secretário-geral do PS. Do lado português, a comitiva integra ainda o secretário-geral adjunto do PS, João Torres, o presidente do grupo parlamentar do partido, Eurico Brilhante Dias e Isabel Soares, presidente da Fundação Mário Soares-Maria Barroso. Do lado alemão, estão Lars Klingbeil, presidente do SPD, e Martin Schultz, antigo presidente do Parlamento Europeu e atual presidente da Fundação Friederich Ebert, a mesma que financiou o partido na sua fundação. Um encontro que poderia ser visto como de aproximação entre socialistas europeias para uma eventual candidatura de Costa a um cargo europeu. Porém, o ainda primeiro-ministro afastou a hipótese. "A política não é uma carreira, a política é uma atividade cívica que se exerce, que se serve das mais variadas formas", respondeu Costa quando questionado sobre se pondera ocupar algum cargo europeu. "Sentindo-me de consciência absolutamente tranquila, nada me pesando na minha consciência, entendo que a função que exercia, enquanto primeiro-ministro não é compatível com a existência de um juízo de suspeição. Enquanto não estiver esclarecido este assunto sinto que não devo exercer cargos públicos, porque é necessário preservar a integridade das instituições", justificou.
Em véspera da colocação de uma placa comemorativa dos 50 anos da fundação do partido socialista português, Costa não deixou de enaltecer "todos aqueles que desde o 28 de maio de 1926 lutaram para derrotar a ditadura, para recuperar a liberdade, de alguma forma, foram contribuindo à sua medida para o 25 de Abril".
O PS surgiu como partido, ainda na clandestinidade, no dia 19 de abril de 1973, em Bad Münstereifel, na antiga República Federal Alemã (RFA) "por motivo de segurança", tal como está escrito na ata fundadora. Um arranque sem unanimidade.
Entre os 27 presentes, 20 votos foram favoráveis à criação do PS e sete opuseram-se. O que estava em causa não era a fundação do partido mas o momento em que isto aconteceria. Entre os votos contra, está o de Maria Barroso, mulher de Mário Soares, o primeiro secretário-geral socialista. Essa decisão de votar desfavoravelmente deveu-se a "amor", diz ao DN António Campos, um dos que em Portugal assinaria a fundação do partido, lembrando que Maria Barroso não só temia repercussões do regime ao saberem que o PS saíra da clandestinidade como ainda que Mário Soares, na altura exilado em Paris, ficasse impedido de voltar a Portugal.
O apoio alemão à fundação do PS surge por então estar previsto na Constituição alemã que partidos nacionais apoiassem financeiramente força partidárias de outros países, na altura a RFA, com o objetivo de ajudar a criação e desenvolvimento da democracia através de partidos de outros países, lembra António Campos, que falhou o momento histórico. Na altura, o socialista, que já tinha recebido o bilhete que o levaria a Bad Münstereifel, entregue numa ação clandestina, ficaria retido em Portugal, devido a um acidente que deixou em coma o seu filho.
Entre os 20 votos favoráveis à criação do PS estava o de Alberto Arons de Carvalho, um dos históricos socialistas que na altura tinha 23 anos. "Na Alemanha, ouvindo o discurso de Mário Soares, percebi que seria um erro não avançar, porque ele teve um discurso determinado e muito otimista, sobre a importância que era criar um Partido Socialista", revelou ao DN o histórico socialista. "Portanto, eu sei a minha posição e o que devo fazer", remata, acrescentando que "foi um passo decisivo". "Hoje, faria exatamente o mesmo. Sem dúvida nenhuma, eu creio que alguns dos que votaram contra, depois perceberam que, de facto, a perceção que tínhamos tido na reunião em Lisboa era uma perceção inicial pessimista e errada", considera Arons de Carvalho.
vitor.cordeiro@dn.pt

