Montenegro estreia-se no Pontal. "É já um marco no PSD", diz Marques Mendes

Novo líder do PSD discursa esta noite naquela que é a emblemática festa de rentrée do partido e as críticas ao Governo estão garantidas. Foi Sá Carneiro quem a começou em 1976, mas ​​​​​​​o período áureo foi no anos 80 e 90 com Cavaco.

Luís Montenegro estreia-se esta noite como líder do PSD naquela que é considerada a festa mais icónica do PSD, a do Pontal. Após um interregno de cinco anos, dois por causa da pandemia e os outros por mudança de local, a rentrée social-democrata volta ao Calçadão de Quarteira.

Além de ir ao encontro do partido, já que a festa reúne muitos dos militantes de férias no Algarve, o novo líder social-democrata encontra palco para criticar o Governo e começar a demarcar-se enquanto alternativa de poder dos socialistas. E há temas incontornáveis, como a crise na saúde, que Montenegro irá certamente aproveitar para tentar demonstrar que a maioria absoluta não está a ser benéfica para o país.

Em entrevista ao DN, o secretário-geral do PSD e braço-direito de Montenegro garantiu que o líder fará já propostas concretas para os portugueses, sobretudo no que diz respeito ao combate ao impacto da inflação.

A era de ouro cavaquista

"A festa justifica-se em todas as circunstâncias, com crise ou sem crise", afirma ao DN o antigo líder social-democrata Marques Mendes.

Ele que também foi um protagonista da festa do Pontal , assume que "é já um marco" na história e vida do partido. "Este ano com um ingrediente especial que é a estreia do novo líder do PSD", acentua o também conselheiro de Estado e comentador político, embora não participe da festa desde que se afastou das lides partidárias.

São já 41 anos de história da Festa do Pontal (se descontarmos os tais cinco de interregno), que Francisco Sá Carneiro inaugurou em 1976, num pinhal com o mesmo nome, perto de Faro. Ficava a mais de 20 quilómetros do Calçadão de Quarteira onde a festa assentou arrais desde 2006.

Se Sá Carneiro entendeu que o Algarve seria o local ideal para "um encontro político e um convívio entre várias gerações de militantes, dirigentes, independentes e apoiantes do PSD", numa altura e que o partido se implementava, foi a era cavaquista que lhe deu maior brilho.

Cavaco, ele próprio um algarvio de Boliqueime, recuperou a alma da festa em 1985, quando assumiu o poder no partido mas também a liderança de um governo minoritário, que dois anos depois se tornava maioritário e bisava a proeza. Foram anos de poder laranja em que a dita festa marcava a agenda política.

Neste período destacaram-se mais dois anos. O de 1990, a um ano de legislativas, com Cavaco Silva a criar uma onda política ao acenar com um "pacto secreto" entre PS e PCP para o assalto ao poder. Jorge Sampaio, que liderava os socialistas e tinha feito uma coligação com os comunistas para conquistar a Câmara de Lisboa um ano antes, rejeitou o "papão" do acordo com o PCP. Mas a verdade é que Cavaco nas legislativas do ano seguinte reforçou a sua maioria absoluta.

E em 1993 o então líder do PSD fez o célebre discurso do "homem do leme", como ficou conhecido, quando disse a famosa frase: "Mesmo aqueles que discordam de nós não têm dúvidas de que o barco tem um rumo e de que há uma pessoa ao leme".

Outro ano épico foi o de 1995. O PS, vislumbrando finalmente, ao fim de dez anos de cavaquismo, uma possibilidade real de regressar ao poder, apostou tudo num comício de cobertura direta ao comício de rentrée do PSD - chamado do Pontal mas na verdade já bem no centro de Faro. Para o realizarem os socialistas ergueram o palco no largo da Pontinha, também em Faro, a escassas centenas de metros do palco do PSD. E assim nasceu a guerra do Pontal e da Pontinha.

De um lado, o candidato dos sociais-democratas a primeiro-ministro, Fernando Nogueira; do outro, o candidato do PS, António Guterres.

As redações dos meios de comunicação social passaram essa noite a fazer contagem de cabeças, comparando as mobilizações dos dois comícios: as notícias deram conta de uma vitória do PS - e seria assim semanas depois, a 1 de outubro, nas legislativas: 43,76% para os socialistas; 34,12% para o PSD.

Reza ainda a história que em 1997, o então líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa passou ao companheiro do Algarve e o mentor de 14 edições da Festa do Pontal, Mendes Bota, um cheque de cinco mil contos (25 mil euros) para a conseguir realizar.

E essa figura de Mendes Bota é central em todo este percurso da rentrée algarvia laranja. No site do PSD em que se contam os anos da festa está escrito sobre este antigo dirigente local do PSD: "A história não ficaria completa sem o nome de uma das figuras maiores do Pontal. José Mendes Bota organizou 14 edições e, reavivou em três ocasiões a festa (1985, 1996 e 2005). O próprio Mendes Bota viria a afirmar: "o PSD também é multidão, agitação, bandeiras no ar e corações em terra, pronto para combates eleitorais que aí vêm.""

Mas também houve líderes que não lhe reconheceram encanto, como Manuela Ferreira Leite ou até Rui Rio, que a deslocou para sítios mais recônditos do Algarve.

paulasa@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG