Miguel Pinto Luz : "Não é um Orçamento do Estado, nem do PS, é de um único ministro: Pedro Nuno Santos"

Apoiante de Paulo Rangel na corrida à liderança do PSD e crítico de Rui Rio, que acusa de "sectarismo", o social-democrata e vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais deixa farpas ao OE 2022 que diz estar a servir um "condomínio". É autor do livro Voltar a Acreditar na Política.

Tem 44 anos, é engenheiro de formação e político de profissão. É vice-presidente da Câmara de Cascais, já foi candidato a líder do PSD e perdeu. Dentro do partido há quem acredite que um dia há de voltar para ser outra vez candidato à liderança. Miguel Pinto Luz lançou, nesta semana, o primeiro livro, Voltar a Acreditar na Política, e se a obra há muito estava pensada, o lançamento não poderia ter sido mais oportuno. Ontem à noite reuniu-se o Conselho Nacional do PSD.

Há uma fotografia, do lançamento do seu livro, que está em todo o lado: Paulo Rangel sentado, com Passos Coelho à direita e Carlos Moedas à esquerda. Rui Rio não está nessa fotografia nem foi ao lançamento. É o retrato do novo PSD que deseja?
Não, isso é o retrato de amigos. Quer dizer, quem lança um livro convida os amigos. E os amigos disseram presente e estiveram ali.

Convidou Rui Rio?
Rui Rio infelizmente não posso dizer que se trate de um amigo.

Mas convidou?
Não convidei. Devo ter estado com o doutor Rui Rio três ou quatro vezes na minha vida. É paradoxal. Alguém que é militante do partido há mais de 25 anos. E quando estive com ele mais vezes foi há dois anos, quando fui candidato - nos debates, nas oportunidades em que nos cruzámos. De resto, o doutor Rui Rio é alguém distante, que gosta mais de estar no Porto do que em Lisboa, que não gosta de conviver, gosta de se isolar e, por isso mesmo, não o considero dos meus amigos.

Por uma questão institucional não devia ter convidado o presidente do partido de que é militante?
Não. Não há qualquer questão institucional no lançamento de um livro que é absolutamente um ato de cidadania. Não tem nada que ver com um ato de militância. Estavam lá militantes do Partido Socialista, estavam empresários, estava a minha família, que para mim é muito importante ter estado naquele momento. E, portanto, não havia ali nenhum protocolo no sentido em que eu tinha de institucionalmente convidar o líder do meu partido.

Não tinha, mas podia tê-lo feito.
Podia tê-lo feito.

E optou por não o fazer.
Convidei quem eu considero que são os meus amigos. Ponto.

Ao dizer que o partido precisa de um líder menos sectário, com mais mundo, está a dizer que Rui Rio é sectário e não tem mundo?
Que o doutor Rui Rio e a atual liderança são sectários não tenho dúvida nenhuma. Já o disse várias vezes. O doutor Rui Rio e esta direção consideram que todos aqueles que têm uma opinião diferente da sua são oposição, são obstáculos à liderança e querem mal ao PSD. Não é assim. Quem tem uma opinião diferente é alguém que tem uma visão e uma conceção da sociedade diferente, é alguém que tem uma perceção daquilo que é preciso fazer diferente e que, se calhar, até aporta valor para o todo que é o PSD. Portanto, tem sido sectário, tornou-se numa artificial social-democracia moderada, no centro, esqueceu os liberais, esqueceu os mais conservadores, esqueceu os liberais sociais, dos quais eu me considero. Esqueceu um conjunto, uma multiplicidade de diferenças saudáveis que existiam no PSD. Fruto disso é que nos quatro anos da sua liderança surgiram três partidos no centro-direita, todos eles - isto é importante que se diga - formados por militantes do PSD. O primeiro presidente da Iniciativa Liberal é militante do PSD, o primeiro presidente do Aliança era militante do PSD e o primeiro presidente - e único - do Chega era militante do PSD. Há aqui qualquer coisa que temos de pensar. Foi precisamente por o PSD se acantonar num centro artificial que esqueceu toda a multiplicidade, de ser um partido que aglutina e mobiliza os setores mais dinâmicos da sociedade para poder ser um partido maioritário. Em contraponto a partidos setoriais, que não têm vocação maioritária e, por isso mesmo, se limitam a ser partidos de franja, que podem viabilizar soluções governativas, mas que não têm apetência para liderar essas soluções.

No livro fala da responsabilização da atividade política. Em Portugal há impunidade dos políticos?
Considero que há bastante impunidade dos políticos. Os políticos muitas vezes procuram um lugar na história. Costumo dizer que se os políticos estão na política para procurar um lugar na história estão pelas razões erradas. Estou na política para ter impacto positivo na vida dos meus concidadãos, dos meus filhos, das futuras gerações. Entregar às futuras gerações um mundo melhor do que aquilo que recebi das gerações dos meus pais e dos meus avós. Muitas vezes os políticos estão pelas razões erradas. Depois têm uma enorme incapacidade de falar para as pessoas. É preciso falar com linguagem simples, acessível, que os outros compreendam, que sintam como sua.

Há impunidade? Falta de ética?
Claro. Como costumo dizer, muitas vezes, a classe política é feita com o mesmo ADN, as mesmas células, que os jornalistas, que os médicos, que os advogados, e não são mais corruptos do que os outros, não são mais inteligentes do que os outros...

Há essa imagem, de que os políticos são corruptos em geral.
Porque a classe política deve ser obrigada a padrões éticos e morais ainda mais elevados, precisamente porque defende a coisa pública, porque nos representa, porque nos lidera. E é isso que temos de voltar a colocar na política. Voltar a acreditar na política é voltar a responsabilizar os políticos e a colocar-lhes padrões mais elevados, ao nível ético, ao nível moral, ao nível da entrega do serviço público, que até hoje não temos visto. Mas temos descredibilizado a classe política. Pagamos mal aos políticos - devo ser dos poucos políticos que o diz, sem qualquer tipo de preconceito. Pagamos mal aos políticos, desvalorizamos a atividade. Nós hoje não temos os melhores, os partidos estão enquistados, o talento não vem à tona, não há meritocracia na política, há um perpetuar de deputados há décadas como deputados. Tinha de haver uma regeneração. Limitação de mandatos em toda a classe política. A política precisa de oxigenar.

A bem dessa transparência, os políticos deveriam revelar a que organizações secretas pertencem?
Disse há muito tempo as organizações a que pertenci, aquelas a que pertenço e, portanto, acho que os políticos deviam ser absolutamente transparentes. Agora, não faço nenhuma caça às bruxas. Acho que as pessoas em Portugal também gostam quando o oculto é sempre o alvo principal para apontar todos os males do mundo. Às vezes não está aí. Às vezes está à vista desarmada, à frente de todos nós. E, portanto, na sua pergunta refere-se à Maçonaria, ao Opus Dei.

Pertence a alguma delas?
Fui dos primeiros que o disse, na campanha eleitoral. Pertenci à Maçonaria. Há mais de dez anos, saí. Entendo que o Benfica tem mais poder em Portugal do que a Maçonaria. Entrei para a Maçonaria da mesma forma que saí. Não senti que tenha sido valorizado minimamente por lá ter passado. Não guardo qualquer tipo de rancor, mas também não escondo. Disse-o na cara do doutor Rui Rio num debate televisivo há dois anos, de forma absolutamente transparente. Não tenho nada a esconder.

Diz-se liberal social, mas o liberalismo tem pouco êxito, a ver pelas autárquicas. Porque é que o liberalismo tem má reputação?
Desde logo, pelo próprio nome em si. Está gasto. E quando escrevi o livro até me arrependi de não ter utilizado outro termo que era eu sinto-me "libertador social". Porque o PSD é isso mesmo. É o partido libertador. Libertou a comunicação social para poder ser privada, libertou a banca para poder ser privada, liberta a sociedade para esta poder ser geradora de riqueza, a iniciativa privada. É por isso que anseiam os portugueses. O PSD tem de ser esse partido. O libertador. O livro não é um blogue , mas se calhar seria mais feliz dizer que, mais do que liberal social, se calhar sou um libertador social. Que acredita na iniciativa privada, que é a única capacidade geradora de riqueza para depois haver uma redistribuição justa dessa riqueza. E essa componente social tenho-a muito forte em toda a minha ação política, porque entendo que não vivemos num país onde as desigualdades não existam. Não vivemos num país idílico, de sonho.

Não são incompatíveis princípios sociais-democratas e liberais?
De maneira nenhuma. É exatamente o contrário. Precisamente por eu acreditar que é na liberdade de escolha, na liberdade da iniciativa privada, que podemos gerar riqueza, e só com riqueza podemos fazer redistribuição. Com o empobrecimento geral, que é aquilo a que o Partido Socialista nos tem obrigado, não vamos conseguir gerar riqueza suficiente para fazer redistribuição. Portanto só há justiça social com redistribuição justa. Isso, sim, é ser social-democrata.

Muitos políticos usam a duração dos mandatos para atirar as responsabilidades para quem esteve antes deles no poder. O que é preciso fazer para alterar essa atitude?
Com novos protagonistas. Isso são políticos que foram moldados noutros tempos e que acreditam que a sociedade continua absolutamente cristalizada. Precisamos de novos protagonistas. Gente que faça de forma diferente, que não tenha medo de assumir o erro, de assumir fragilidade - os políticos não são super-homens, não são supermulheres, que sabem tudo, que acertam sempre. Pessoas que assumam essas responsabilidades em público e que não façam esse constante passar de culpas, esse sacudir a água do capote. Isso só soma para a descredibilização da política. Também o escrevo no livro: a necessidade de assumir responsabilidades. É absolutamente fundamental. Só assim o eleitorado vai entender que nós somos homens e mulheres de carne e osso. Quando perceber que os políticos são homens e mulheres de carne e osso, que também erram, mas que são capazes de assumir esses erros e pedir desculpa, então compreenderão e vão acreditar de novo na política e nos políticos.

Na página 21 escreve :"Eu, Miguel Pinto Luz, errei, faço parte de uma classe que se demitiu de responsabilidades, faço parte de um partido que se recusou a inovar e a renovar-se internamente. Assumo, portanto, esta falha." Mas, quando foi candidato à liderança do PSD, o partido acabou por não estar consigo. Não teve essa sensibilidade e a noção dessa necessidade de reformas e de novos protagonistas?
Sou um democrata e, portanto, não tive ganho de causa nessas eleições e manifestamente o partido não teve essa necessidade há dois anos. Escolheu o mesmo protagonista, que dois anos antes tinha levado o partido aos mesmos resultados. Os partidos têm esse problema e os partidos grandes e já com alguma idade têm essa particularidade, de uma enorme inércia. Nos tempos de hoje, num ritmo de obsolescência como nunca vivemos antes, de necessidade de adaptação muito rápida, estes partidos grandes têm de se reinventar. Não podem demorar tanto tempo a mudar. Instituições como a Igreja Católica podem demorar dezenas de anos a adaptar-se. Mesmo essas hoje são obrigadas a novos tempos de adaptação. Um partido político não pode aguardar dez anos para se adaptar. Quando se adapta já era necessária outra adaptação. Portanto tem de se tomar mais elástico, mais próximo da sociedade e do tempo e do ritmo de hoje.

Como é que os partidos podem fazer essa transformação de que fala?
Precisamente com mecanismos de alteração estatutária. Os partidos hoje estão fechados. Só vota para as eleições internas quem pagou quotas, só votam as secções que são regionais ou territoriais. Eu advogo, por exemplo, secções temáticas, dos médicos, dos engenheiros... O partido tem de se adaptar à sociedade, tem de ser muito mais aberto, sedes abertas à sociedade. Deixarem de ser estas sedes fechadas que ninguém sabe o que é que acontece lá dentro. São quase caixas negras.

Luís Filipe Menezes quis fazer isso, mas durou pouco...
O enquistamento é quase o ouriço-cacheiro. O partido protege-se à mudança rápida. E Luís Filipe Menezes foi muito disso. Ele quis irromper. Percebeu que tinha de mudar. O PSD é muito próximo de partidos irmãos na Europa, da CDU alemã e outros. E nessas nossas relações percebemos que os partidos na Europa têm mudado todos. Hoje quem vai à sede da CDU alemã tem uma loja aberta para a rua. É um partido aberto. A própria forma como faz campanha. Nós demorámos anos. Há cinco anos ainda fazíamos campanhas como se faz na América Latina, quando os europeus são manifestamente diferentes. Íamos buscar os brasileiros para nos ensinar a fazer campanhas. Luís Filipe Menezes teve essa arte e engenho de pensar antes do tempo e dizer "não, se calhar não preciso de uma sede na Lapa e preciso é de uma loja na Avenida da Liberdade, para os portugueses perceberem que o PSD não é um grupo secreto, em que ninguém sabe o que acontece lá dentro. É responsabilizado, sabe-se quem são, tem processos claros, transparentes, abertos à sociedade, quer discutir com a sociedade, quer ouvir, quer cocriar um país com os cidadãos e não fazer de cima para baixo como se fôssemos seres omnisciente e tivéssemos a certeza absoluta do caminho a percorrer. Temos a certeza absoluta de que a nossa missão se chama Portugal. Mas, para isso, precisamos de ouvir os portugueses.

O PSD está obrigado a ganhar as próximas legislativas, depois de, se o mandato for cumprido, oito anos de governação de António Costa?
O PSD é um partido grande e tem de partir para qualquer eleição para ganhar. Mas eu quero ser um político diferente, não vou ter este discurso permanentemente. Entendo que o PSD tem a obrigação de ganhar, porque o Partido Socialista está a engrossar o Estado, a prestar pior qualidade de serviço aos cidadãos, está a empobrecer e a nivelar por baixo toda a sociedade. Portugal não cresce. Está cada vez mais na cauda da Europa, ultrapassado por países que chegaram há pouco à UE. A urgência de ganhar não tem tanto que ver com a pressão que se coloca no próximo líder, é uma ambição absolutamente interligada com um desvio preocupante para uma esquerda, uma extrema-esquerda, a que temos vindo a assistir nos últimos anos em Portugal. E isso urge travar.

Nesse travão há vários nomes que se vão posicionando. Com Rangel, que já disse que apoia e Rio na corrida à liderança do partido, que papel estará reservado para Pedro Passos Coelho?
Desde logo, está reservado um lugar na história do PSD e do país, por aquilo que fez em quatro anos e meio. E eu tenho muita honra em ter estado ao lado dele no partido e depois no governo.

"No futuro está reservado aquilo que Pedro Passos Coelho entender. Não há obrigação nenhuma. Passos Coelho não deve nada ao PSD: o credor é ao contrário."

A minha pergunta era mais no sentido do futuro do que no passado.
No futuro está reservado aquilo que ele entender. Não há obrigação nenhuma. Pedro Passos Coelho não deve nada ao PSD. O credor é ao contrário. Passos Coelho Foi um homem que passou por um enorme período difícil, tanto ao nível pessoal como político e governativo e, portanto, um homem de enorme craveira política, profissional, terá o que entender. Tenho a certeza de que o PSD o receberá de braços abertos. Se quiser fazer outra coisa no país, se tiver vocação para fazer outra coisa, com certeza os portugueses serão reconhecidos e nessa altura dirão sim.

Devia regressar como candidato a primeiro-ministro ou a Presidente, como alguns apontam?
Não consigo pôr esta pressão no meu amigo Passos Coelho. É uma decisão que lhe cabe a ele e só a ele.

Mas qual a sua opinião?
É pressão que eu não consigo pôr. Por saber precisamente aquilo por que ele passou, a título pessoal, a título público. Tem liberdade absoluta para fazer aquilo que entender. E sabe que nós estamos muito reconhecidos por aquilo que ele fez pelo PSD, mas, mais importante do que tudo, pelo país.

Rangel tem o seu apoio, mas Rui Rio saiu reforçado das autárquicas? Qual a sua opinião?
Paulo Rangel, entre outros, preenche os requisitos para o que eu entendo dever ser um próximo líder do PSD. Estou ao seu lado. Quanto a Rui Rio, é preciso fazer a avaliação dos resultados eleitorais das autárquicas que ficaram - ao contrário do que muitos dizem - aquém do que poderiam ter sido se o PSD fosse um PSD aberto. Ainda assim foi um resultado positivo. Não vou tapar o sol com a peneira. Mas são 308 resultados. Não é um resultado nacional. O resultado de Carlos Carreiras em Cascais, Ricardo Rio em Coimbra ou Carlos Moedas em Lisboa não são resultados do doutor Rui Rio. São resultados de cada uma destas personalidades, que a dada altura da sua vida decidiram dar parte do seu tempo, do talento, do conhecimento, montaram equipas, agendas, programas, e submeteram-se ao sufrágio os seus concidadãos.

Isso não é um bocadinho sectário? Ou seja, se Carlos Moedas tivesse perdido, se Rio tivesse perdido, se o presidente da Câmara de Coimbra, João Manuel Ribeiro, tivesse perdido, se Carlos Carreiras tivesse perdido, seriam derrotas de Rui Rio?
Claro que não. Não me ouviu dizer que Caldas da Rainha foi derrota de Rio, que a Guarda foi derrota de Rio, que Espinho foi derrota de Rio. Como gosto de ser justo, deixe-me dizer que, por exemplo, em Coimbra acho que essa quota-parte de responsabilidade de Rui Rio é clara. Porque ele, contra as estruturas, escolheu alguém a título pessoal. Em Barcelos também é quota-parte de Rio. Foi uma escolha arriscada dele e teve ganho de causa. Não tenho qualquer tipo de prurido em dizê-lo.

Carlos Moedas também.
Carlos Moedas não, que diabo.

É consensual. Foi uma escolha de Rio.
Era um nome de que já se falava muito, por vários setores do partido. A concelhia desde logo sinalizou, a distrital sinalizou e Rui Rio também. É um candidato de todos. Eu não vi Rui Rio na arruada final ao lado de Carlos Moedas, por exemplo. Carlos Moedas esteve praticamente sozinho no final da campanha. Esta vitória é de Carlos Moedas. É um abuso dizer-se que a vitória é deste ou daquele. É só de uma pessoa. É de Carlos Moedas. Que acreditou até ao fim quando já ninguém acreditava. Acreditou e bem. E a equipa mais restrita dele acreditou. Portanto esta vitória é dele e de mais ninguém.

Portanto na sua opinião a mudança de líder do PSD é inevitável?
Isso é o que os militantes virão dizer. A minha opinião é que é o único caminho possível para o PSD, para voltar a ser grande. Se a escolha dos militantes for outra vez um líder sectário, que afasta grande parte do partido, muito dificilmente vamos ganhar as próximas legislativas.

E o Orçamento do Estado é aquele de que o país precisa?
É um Orçamento que, desde logo, não vai ser cumprido. Desde a invenção das cativações de Mário Centeno que sabemos que esse Orçamento não vai ser cumprido. Tem lá mais uma série de hospitais que já vão na terceira primeira pedra. E já começámos neste leilão corporativo, conhecido há vários anos, do Bloco e do PC, de acenarem com uma crise política, que já sabemos que não vai acontecer, porque vai ser viabilizado este Orçamento. É escusado entrarmos nessa dialética, porque não vai acontecer. O doutor António Costa e o doutor Leão vão entregar umas migalhas ao Bloco de Esquerda e ao PC para eles acenarem como tendo ganho de causa. Mas também não vão ser cumpridas, porque, lá está, temos as cativações. Este Orçamento traz de novo uma coisa sobre a qual devemos refletir: as guerras dentro do PS. Este Orçamento não é o Orçamento Geral do Estado, é o Orçamento de Pedro Nuno Santos. Desde logo, o braço-de-ferro com João Leão e o ganho de causa de 1,8 milhões de euros na dívida da CP, o aumento do Orçamento para a área da habitação, o aumento para a área da mobilidade e transportes. Tudo áreas que dependem de Pedro Nuno Santos.

Pedro Nuno Santos foi o grande vencedor neste Orçamento?
O grande vencedor deste Orçamento chama-se Pedro Nuno Santos. Isto quer dizer que há uma mudança de paradigma e de poder dentro do Partido Socialista. A derrota de Medina também levou a isto. Porque podia ser um contraponto a Pedro Nuno Santos. Pedro Nuno Santos aumentou o seu capital político e isso vê-se nas cedências que este Orçamento teve. Também por aí o PSD tem de urgentemente arrepiar caminho e fazer mais oposição. Porque Pedro Nuno Santos é mais perigoso. Ainda é mais à esquerda do que aquilo que nós precisávamos hoje, no nosso país.

Escreveu no livro: "O país continua a ficar para trás, a divergir da Europa." Este Orçamento devia ter outras opções políticas? E quais?
Este Orçamento devia, desde logo, ter uma opção política de redução da despesa, não engordar o Estado. Antes pelo contrário, aumentos salariais, continuar a engordar um Estado. O Partido Socialista nos últimos seis anos aumentou em dezenas de milhares os funcionários públicos. Continuamos a engordar o Estado e oferecer serviços piores. A educação decresce. Hoje as escolas públicas estão a descer nos rankings e as privadas a subir. Eu estudei na escola pública. Hoje vou tentar colocar os meus filhos num colégio privado - se conseguir, com o meu salário. Porque isso dá vantagem competitiva. Eu quero viver num país onde a escola pública também ofereça mobilidade social. Acabaram com os contratos de associação, acabaram com as PPP. Queria ver um Orçamento que tornasse o Estado mais enxuto, mas mais eficaz e mais próximo dos problemas dos cidadãos e isso não vejo. Vejo um Estado cada vez mais gordo, cada vez a pedir mais. Isso vai inevitavelmente impactar na nossa capacidade de investimento. Hoje mais de 80% do investimento público em Portugal só existe porque existe Europa. Se não tivéssemos a Europa não tínhamos capacidade de libertar meios e recursos no nosso Orçamento para fazer investimento. É dramático. É dizer que nós, as nossas famílias, não temos capacidade nem de poupança. Por um lado, continuamos a endividar-nos, por outro, não temos capacidade de investimento. Investimento reprodutivo, daquele que é bom. Continuamos de mão estendida à Europa. Queria ver um Orçamento que começasse já a apontar para estas linhas e não vejo.

Num ano em que há o PRR e o novo Quadro Comunitário 2030, este Orçamento é conjuntural ou estrutural?
Conjuntural, objetivamente. Isto é o Partido Socialista a navegar à vista. Quando olhamos para o PRR, vemos que a grande maioria é investimento público. Comparando com o PRR grego, nesse há um processo de alavancagem com o setor privado, partilha de risco e poder potenciar ainda mais a economia privada para poder regenerar a economia, crescer e fazer a redistribuição, no nosso não. Afunilámos para o setor público e desse ponto de vista é absolutamente conjuntural. É o Partido Socialista a querer perpetuar-se no governo à custa do próximo ciclo eleitoral. Tal como escrevo no livro, os políticos de hoje governam com a linha de vista do próximo ciclo eleitoral. É sempre assim. Chega desses políticos de vistas curtas.

As empresas foram esquecidas neste Orçamento? Os patrões pediram um choque fiscal no IRC, que não aconteceu. Compreende a opção política que foi tomada?
A opção política não compreendo. Compreendo a reivindicação das corporações e do choque fiscal. Porque Portugal hoje está absolutamente asfixiado. Mas descobrimos, neste Orçamento, que com rendimentos acima de 53 mil euros já temos novos-ricos. Portugal precisa de encontrar uma forma de inovar permanentemente, crescer, fazer novas empresas. O Nuno Sebastião, que convidei para apresentar o meu livro, dizia que precisamos de "capitães de indústria". Países como a Dinamarca, mais pequenos que Portugal, têm uma Lego, têm uma Maersk. Espanha tem líderes mundiais, na banca e noutros setores. Em Portugal não conseguimos dizer um. Somos um país pequenino e devíamos ter ambição. Nuno Sebastião, filho de um pedreiro, emigrante, estudou numa escola pública, constituiu uma empresa que hoje é um grande unicórnio português e vai, com certeza, crescer ainda mais. Os Nunos Sebastião são exceções em Portugal. Deviam ser a regra. Os empresários enquistados e agarrados ao poder estão de mãos estendidas. Estão demasiado próximos de poder. Têm pouco de distanciamento. Pouca capacidade de bater com a mão na mesa e dizer "não queremos isso, queremos outro caminho". O país está viciado.

Está a sugerir uma reforma das confederações patronais, das associações?
Tudo. Os sindicatos, as confederações, os partidos. Isto é tudo parte de um sistema e o sistema está caduco. Quando vemos aquelas reuniões da concertação social... o que é aquilo? Os empresários reais, que todos os dias têm de pagar salários, sentem-se representados naquelas negociações infindáveis com os sindicatos e as confederações, a baterem bolas para cá e para lá? Será que é aquilo que nós precisamos? Ou precisamos também de reformar e de colocar trabalhadores e empreendedores lado a lado para ambos se sentirem valorizados? Temos salários baixos, temos empresários de pequenas e médias empresas institucionais. Eu não quero. Quero ver um país com os tais capitães da indústria, com empresas grandes que deem cartas ao mundo, que sejam um exemplo para os outros e arrastem. Este efeito de arrastamento dos mais pequenos e crescer é bom. Temos de voltar a ter ambição.

O que está a dizer é que passados quase 50 anos do 25 de Abril continuamos a viver com os modelos de desenvolvimento económico e sobretudo social e corporativo que emanaram da revolução? Mas como é que isso se reforma?
Vou dar-lhe um exemplo de como é que se faz isso. A nossa Constituição tem a mesma idade da nossa democracia mais ou menos. Nessa altura, só 9% da população tinha o ensino secundário. Hoje mais de 75% tem o ensino secundário. Nessa altura ninguém sabia o que era um PPR, o que era um seguro de saúde. Hoje as pessoas recorrem a esses instrumentos. Querem escolher. Querem ser libertados, como disse há pouco. Adaptar o Estado social da década de 1970 ao dia de hoje, a tal componente social, que acredito num Estado social capaz de fazer uma redistribuição, é isso que temos de fazer. Como se faz? Permitindo que possa constituir a sua reforma com uma parte pública e uma parte privada. Que possa poder ir a um hospital privado, garantido por um Serviço Nacional de Saúde, mas escolhe se quer ir ao hospital privado ou ao público. Que com um cheque creche possa colocar os seus filhos numa escola privada ou, se quiser, na escola pública. É essa liberdade que temos de constituir. Sem esta dicotomia absolutamente artificial e esta guerra entre privado e público. E depois há um terceiro setor que mudou nos últimos 50 anos. Não existia terceiro setor. Hoje temos um terceiro setor fervilhante. Associações, IPSS, Misericórdias que têm centenas de anos, mas que cresceram ainda mais nos últimos 45. E, portanto, também com esse terceiro setor construir uma sociedade mais justa. É adaptar aos dias de hoje um país que já não existe. Os políticos continuam a viver como viviam, em 1978. Não podem.

O seu livro parece um programa do governo. O que espera que aconteça com o livro?
Este exercício que fiz com este livro devia ser quase obrigatório para qualquer pessoa que quer dar parte do seu tempo à causa pública. É um exercício de sistematização, de aprofundar conhecimentos sobre a realidade e depois de apontar caminhos e soluções. E submeter-se à crítica. É um exercício saudável para todos aqueles que estão na atividade política. Apresentar as suas ideias, refletir sobre elas e permitir uma dialética saudável e liberdade de pensamento. Não se trata de um programa de governo. Trata-se de um programa para um sonho de país que eu gostava de deixar aos meus filhos. O futuro líder do PSD pode agarrá-lo, como pode agarrar outro governante qualquer que queira tirar partido de algumas destas ideias que eu decidi verter para este livro.

O PSD deveria ter feito um governo sombra? O que é que falhou na estratégia de Rui Rio, para que as propostas do PSD não tenham chegado de forma que a sociedade reconhecesse validade nelas?
Eu não conheço nenhuma. Que as há, há, mas não conheço nenhuma.

Está a ser redutor...
Não estou a ser muito redutor. Sei que o professor Joaquim Miranda Sarmento tem feito um trabalho notável, com centenas de pessoas a trabalhar. O PSD tem essa lógica de gabinete de estudos em que junta centenas de cidadãos à volta de pensamento político e de produção de conteúdos. Agora perguntam: desses milhares de páginas produzidas nos últimos dois anos o que é que saiu cá para fora? Qual é a grande bandeira do PSD? Manifestamente não estou a ser redutor. Em política temos de passar etapas, pensar, produzir políticas e depois comunicá-las. E a parte da comunicação não pode ser desvalorizada em relação à parte da produção da política e à parte do pensamento. São três componentes absolutamente essenciais. Acho que Rui Rio tem trabalhado o primeiro, através de Joaquim Miranda Sarmento, mas as políticas públicas não estão desenhadas. Não existe Comissão Política Nacional, não existe qualquer tipo de estrutura. A comunicação é zero.

A política, para si, é uma profissão, um serviço, uma vocação, uma missão ou isso tudo?
É um bocadinho de tudo. O meu avô já tinha sido vereador na Câmara de Cascais, quando ainda não existia democracia e os vereadores eram indicados. Não tive a felicidade de conhecer esse meu avô, mas, se calhar, ficou qualquer coisa para a parte da vocação. Depois é serviço no sentido em que sou pai e sou filho. E sei o que custou aos meus pais a minha educação e sei o que hoje me custa a mim a educação dos meus filhos. E quero deixar um país melhor do que aquele que recebi. Portanto, é missão também. E é, acima de tudo, uma vontade, absolutamente inabalável, de fazer deste país, como Sá Carneiro dizia, um país simplesmente normal. Um país que cresce, que oferece aos seus concidadãos qualidade de vida.

Está nos seus planos voltar a ser candidato à liderança do PSD?
É algo que não me tira um minuto de sono. Estou muito tranquilo com aquilo que sou hoje, com a minha decisão de não ter sido candidato.

Essa é uma resposta politicamente correta. A questão é: põe de parte alguma vez mais voltar a ser candidato á liderança do PSD?
Não ponho de parte, mas não tira um minuto do meu sono. Não é isso que me move.

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