Mariana Vieira da Silva sai reforçada num Governo que Costa tornou mais curto

Há dez novos ministros no governo de maioria absoluta e dos resistentes há quem transite de pasta. São nove as mulheres, mais uma do que no anterior.

São 17, menos dois do que no anterior governo, os ministros que António Costa escolheu para o acompanhar na maioria absoluta. Aquela que é considerada o seu braço-direito, Mariana Vieira da Silva, sai reforçada, embora se mantenha na mesma pasta, a da Presidência. Só que ganha a coordenação do portentoso Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e que deverá gerir em plena comunhão com o primeiro-ministro, que chamou a si a secretaria de Estado da Digitalização e Modernização Administrativa e a dos Assuntos Europeus. Costa, que tinha prometido um Executivo mais pequeno e mais ágil, deixou cair os ministros de Estado, mas dá estatuto de Adjunto à nova ministra dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, até agora líder da bancada socialista. Há dez novos ministros no governo e dos que já tiveram lugar cativo há quem mude de pasta, como João Gomes Cravinho, que transita da Defesa para os Negócios Estrangeiros. E há ainda a entrada de Fernando Medina para a importante pasta das Finanças e a investigadora Elvira Fortunato para o Ensino Superior e Ciência.

Mariana Vieira da Silva

Ministra da Presidência

Foi das ministras com mais visibilidade durante a pandemia. Inúmeras vezes foi ela que substituiu o primeiro-ministro no anúncio das medidas para combater a covid-19. Assumia a pasta da Presidência e da Modernização Administrativa. Neste Governo, António Costa reforça-lhe os poderes, embora mantenha o mesmo cargo, já que lhe dá a responsabilidade de coordenar o PRR. Filha do antigo ministro Vieira da Silva, de 43 anos, é uma das mulheres de confiança do primeiro-ministro. É licenciada em Sociologia e doutorada em Políticas Públicas. Exerceu no primeiro executivo de António Costa, entre 2015 e 2019, as funções de secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro. E no segundo governo foi promovida para a pasta da Presidência e Modernização Administrativa. Dizem que é muito serena e ponderada nas opiniões e decisões que toma. P.S.

Fernando Medina

Ministro das Finanças

Fernando Medina perdeu a câmara de Lisboa, mas ganhou um ministério, talvez o mais poderoso: as Finanças. O ex-autarca fez 49 anos no dia 10 de março. A pasta que recebe é valiosa e mostra a confiança que António Costa nele deposita. Há meses que o nome deste economista e sociólogo nascido no Porto era falado para substituir João Leão, mas havia dúvidas sobre se seria o momento adequado (em plena crise e em ambiente de guerra na Europa). Mas Medina tem trunfos. Pertence ao círculo mais próximo do PM. Tem grande experiência governativa. Foi duas vezes secretário de Estado nos dois governos de Sócrates. Sempre sob a tutela de José Vieira da Silva, foi secretário de Estado do Emprego (de 2005 a 2009) e da Indústria (2009 a 2011). Depois sucedeu a António Costa em Lisboa de abril de 2015 a outubro de 2021, até Carlos Moedas (PSD) lhe tirar o lugar. L.R.R.

António Costa Silva

Ministro da Economia e do Mar

O ministro que vem do petróleo é um dos veteranos no novo governo. Nasceu em Angola, em 1952, e teve uma carreira ampla na área do crude, energia e outros recursos naturais. Engenheiro, formou-se no Imperial College da Universidade de Londres e no IST, onde é professor. Liderou o braço da Gulbenkian para os investimentos em petróleo e gás. Foi presidente da Partex Oil and Gas, com operações em países como Abu Dhabi, Omã, Cazaquistão, Brasil e Angola. É um grande conhecedor do Médio Oriente e dos desafios impostos pela Rússia. Com a venda da Partex em 2019 Costa Silva ficou livre. Em 2020, António Costa convidou-o para coordenar o Programa de Recuperação Económica e Social 2020-2030 cujos eixos estratégicos foram vertidos no PRR. Do petróleo para as energias "verdes" foi um passo. Nesse ano, o PM aliciou-o para ser ministro. Não se mostrou interessado na altura. Dois anos depois, aceitou. L.R.R.

Helena Carreiras

Ministra da Defesa Nacional

Foi ainda como diretora do IDN que Helena Carreiras deu terça-feira uma entrevista ao DN sobre o impacto nos países da NATO da invasão russa da Ucrânia: "É vital o processo de modernização das nossas Forças Armadas". E será esta portalegrense de 56 anos, professora no ISCTE, que terá de liderar essa transformação da nossa realidade militar, ela que é a primeira mulher a assumir esta pasta em Portugal (mas em Espanha já vão na terceira, e Ursula von der Leyen foi ministra alemã da Defesa antes de ir para a Comissão Europeia). Doutorada pelo Instituto Europeu de Florença, onde conheceu o marido (um reputado académico argentino), a socióloga Carreiras tem vasta obra sobre as Forças Armadas, com destaque para as questões de género. Em 2019, noutra entrevista ao DN, teve uma frase sobre o cargo que então assumia que agora se aplica bem ao novo: "Ser diretora do IDN tem um significado, pois a Defesa tem sido um bastião muito masculino". L.P.F.

João Gomes Cravinho

Ministro dos Negócios Estrangeiros

O novo chefe da diplomacia, que sucede a Augusto Santos Silva e assume a pasta em plena crise causada pela guerra na Ucrânia, não é uma cara nova no governo. Transita da Defesa, onde estava desde 2018. Nascido há 57 anos em Lisboa, é doutorado em Ciência Política em Oxford e foi embaixador da União Europeia na Índia (2011 a 2015) e no Brasil (2015 a 2018). Antes, tinha sido secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de José Sócrates (2005 a 2011), conhecendo bem o Palácio das Necessidades. Além das habituais prioridades da política externa (Europa, Atlântico e mundo de expressão portuguesa), houve uma aposta no último governo na valorização das comunidades portuguesas, internacionalização da economia e no reforço do multilateralismo. Terá que lidar com a candidatura de Portugal a membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU (2027-2028). S.S.

José Luís Carneiro

Ministro da Administração Interna

José Luís Carneiro, 50 anos, só teve uma experiência profissional na Administração Interna quando foi assessor de Carlos Zorrinho, de 1999 a 2000. Enfrentará agora uma realidade muito diferente na Segurança Interna, a começar pelo facto de uma das polícias, o SEF, ter sido extinta. José Luís Carneiro vai encontrar em cima da secretária o complexo processo de transferência de competências e funcionários para a GNR, PJ, PSP e IRN. O seu percurso partidário foi feito no Porto, foi presidente da Câmara de Baião, secretário-geral adjunto do PS e secretário de Estado das Comunidades. V.M.

Catarina Sarmento e Castro

Ministra da Justiça

É uma das surpresas do executivo. Catarina Sarmento de Castro, 52 anos, era uma discreta secretária de Estado dos Recursos Humanos e Antigos Combatentes do Ministério da Defesa, cujo desempenho deixa poucas marcas. Herda a pasta da prestigiada Francisca Van Dunem com muito trabalho feito na área da Justiça, mas com bastante ainda por consolidar, como é o caso da estratégia de combate à corrupção e o reforço de meios do Ministério Público e da PJ. Doutorada pela Faculdade de Direito de Coimbra, foi membro do Conselho Consultivo da PGR e juíza no Tribunal Constitucional. V.M.

Ana Catarina Mendes

Ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares

A até então líder parlamentar do PS foi premiada e sobe a ministra. Com um estatuto de confiança do primeiro-ministro já que é Adjunta e dos Assuntos Parlamentares. Esta pasta casa com o seu perfil, já que é deputada há muitos mandatos e conhece o Parlamento e a oposição como os dedos da mão. Tem a tarefa facilitada nesta nova missão com um governo de maioria absoluta que dispensa, em casos mais bicudos, grandes e pesadas negociações com os partidos com assento parlamentar. P.S.

Pedro Adão e Silva

Ministro da Cultura

A sua nomeação para comissário executivo das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril causou alguma polémica na altura e no momento em que arrancam, António Costa desvia Pedro Adão e Silva para assumir a função de ministro da Cultura. O sociólogo e comentador político, de 48 anos, assume uma pasta em que se somaram controvérsias com a anterior titular, Graça Fonseca. Adão e Silva trabalhou com Paulo Pedroso durante o governo de António Guterres e chegou a integrar o Secretariado do PS entre 2002 e 2004. P.S.

Elvira Fortunato

Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Elvira Fortunato nasceu em 1964. É cientista, professora e investigadora do Departamento de Ciências e Materiais da Universidade Nova de Lisboa, vice-reitora da instituição e reconhecida como pioneira mundial na eletrónica de papel, nomeadamente em transístores, memórias, baterias, ecrãs, antenas e células solares. Ao longo da carreira acumulou muitas distinções, como o Portugal"s Women"s Leadership Award. E talvez seja um dos nomes que mais surpreende neste Governo. A.M.I.

João Costa

Ministro da Educação

João Costa nasceu em Lisboa, em 1972. Licenciou-se em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e é professor Catedrático de Linguística na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, da qual foi diretor até novembro de 2015. Em 2019, entrou no XXI Governo e é o mentor do programa da Flexibilização Curricular, que deu mais autonomia às escolas na gestão dos currículos e abriu portas, nos ensinos básico e secundário, a novas disciplinas e ao ensino por semestres. A.M.I.

Ana Mendes Godinho

Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social

A antiga inspetora da Autoridade para as Condições do Trabalho foi escolhida por Costa para, no último governo, suceder ao ministro Vieira da Silva. Com a chegada da pandemia, pouco depois, acabou por liderar as respostas de emergência a famílias e empresas que, ao longo dos últimos dois anos, assentaram em grande medida na Segurança Social. De 2015 a 2019, foi secretária de Estado do Turismo, tendo antes estado como chefe de gabinete de Bernardo Trindade, no cargo entre 2005 e 2009. É formada em Direito. M.C.

Marta Temido

Ministra da Saúde

Era uma das ministras remodeláveis, mas tudo mudou quando Costa, no XXIII Congresso do PS, em agosto passado, disse que "poderia ser sucessora à liderança do PS". A partir daqui, não mais se ouviu falar da sua substituição. Marta Temido, que chegou como independente à pasta da Saúde, a 15 de outubro de 2018 para substituir Adalberto Campos Fernandes, filiava-se no PS e tornava-se imprescindível para Costa. Foi o rosto político da gestão da pandemia e mantém-se na pasta. Até entrar no governo era administradora hospitalar. A.M.I.

Duarte Cordeiro

Ministro do Ambiente e da Ação Climática

Estava escrito nas estrelas que chegaria a ministro depois de ter organizado a campanha eleitoral do PS que deu a maioria absoluta a António Costa. Apoiante de sempre de Pedro Nuno Santos - com quem partilha experiência de ter liderado a JS - foi vice-presidente na Câmara de Lisboa com Fernando Medina. Duarte Cordeiro, economista de 42 anos, exercia as funções de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e agora substitui Pedro Matos Fernandes no Ambiente e Ação Climática, numa pasta que tem ganho cada vez mais visibilidade. P.S.

Pedro Nuno Santos

Ministro das Infraestruturas e Habitação

O titular da pasta das infraestruturas e da habitação tem sido um dos "pilares" dos governos de António Costa. Era secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares aquando da geringonça. Por ter sido a "cola" capaz de unir PCP e BE na viabilização do primeiro executivo de Costa foi-lhe, na legislatura seguinte, confiada a pasta que mantém agora. Conquistou ganhos políticos com a validação da reestruturação da TAP, em Bruxelas. Mas descurou nas comunicações (imbróglio do 5G e atraso na nova concessão do serviço postal aos CTT). Agora, quererá mostrar que pode suceder a Costa. J.V.R.

Ana Abrunhosa

Ministra da Coesão Territorial

É um dos nomes que não muda no novo figurino executivo. Mantém-se na Coesão Territorial, pasta ministerial alargada agora com a entrada da Administração Local, até aqui alojada num Ministério da Administração Pública que se extingue. Natural de Angola, é doutorada em Economia, matéria que também leciona na Universidade de Coimbra. Chegou a ministra do último governo vinda da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro, organismo no qual assumia funções desde 2008. Iniciou a carreira na Ernst & Young. M.C.

Maria do Céu Antunes

Ministra da Agricultura e da Alimentação

Mantém-se no cargo depois de ter conduzido a mais recente reforma da Política Agrícola Comum (PAC) cujo acordo político foi alcançado na presidência portuguesa da União Europeia, para entrar em vigor no próximo janeiro, alterando as regras dos apoios ao setor. Enfrenta agora ainda os efeitos da seca, mas, sobretudo, a crise nos custos de produção (energia, fertilizantes e pesticidas) e dos cereais, devido à guerra na Ucrânia. A escassez alimentar será o pior dos cenários, motivo que poderá ajudar a justificar a nova designação do Ministério. T.C.

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