Governo Draghi junta tecnocratas a políticos e o apoio de (quase) todos

Economista apresentou na sexta-feira ao presidente a lista dos nomes do governo de união nacional - 15 homens e 8 mulheres - e tomou posse este sábado como primeiro-ministro.

A alcunha de "Super Mario", que conquistou pela sua defesa do euro nos oito anos em que esteve à frente do Banco Central Europeu, confirma-se agora em casa. Mario Draghi conseguiu o apoio de todos os partidos italianos (a única exceção são os Irmãos de Itália), depois de os militantes do Movimento 5 Estrelas lhe terem dado luz verde numa votação online, e será o próximo primeiro-ministro de Itália. Mas um governo dependente de tantas formações políticas de lados opostos da bancada parlamentar, numa altura em que há 200 mil milhões de euros do fundo de recuperação e resiliência europeu para gastar, poderá rapidamente tornar-se uma dor de cabeça para o economista de 73 anos.

Após nove dias de consultas, Draghi apresentou ontem ao presidente Sergio Mattarella a composição do governo de união nacional, tendo sido oficialmente nomeado primeiro-ministro. A tomada de posse aconteceu este sábado, à hora de almoço. O novo executivo vai buscar nove nomes ao anterior - por exemplo, Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas, na diplomacia - mas abre a porta aos membros dos partidos que não faziam parte da anterior coligação, desde a Liga de, Matteo Salvini (que fica com Empresas, Turismo e Deficiência), ao Força Itália, de Silvio Berlusconi. Além disso, acrescenta alguns tecnocratas, como Daniele Franco, que até agora era um dos diretores do Banco de Itália, que vai assumir a Economia e Finanças, ou Vittorio Colao, que esteve à frente da Vodafone e ficará com a pasta da Transição Digital. No total são 23 ministros, 15 homens e oito mulheres.

Draghi não terá uma tarefa fácil pela frente. O ex-primeiro-ministro, Giuseppe Conte, alertou para os riscos de o futuro governo incluir demasiados partidos. "A coesão entre os partidos pode ressentir-se" e "as dificuldades para o trabalho do governo podem aumentar", disse ao Corriere della Sera. Conte, na chefia do governo desde junho de 2018, demitiu-se a 26 de janeiro depois de ter perdido o apoio do Itália Viva, do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi. Esperava ser de novo convidado a formar governo e conseguir negociar uma nova maioria. Mas isso não veio a acontecer, com Mattarella a optar por Draghi.

O último partido a juntar-se à "caravana de Draghi" foi o Movimento 5 Estrelas, o maior do Parlamento. Mas o apoio poderá sair caro aos antissistema, tendo já começado a aparecer as primeiras fissuras internas. Tudo começou quando o fundador, o antigo comediante Beppe Grillo, defendeu adiar a votação online que decorreu entre os militantes para decidir o apoio ou não, dizendo que primeiro era preciso perceber o programa de Draghi.

Em vez de ter decorrido na quarta e na quinta-feira, o voto acabou por arrancar só na quinta-feira, depois de Draghi se comprometer com a nomeação de um "superministro" para a Transição Ecológica - o escolhido foi Roberto Cingolani, até agora diretor de inovação numa multinacional dedicada ao setor espacial, defesa e segurança. No final do dia, 60% dos quase 75 mil que votaram (num universo de quase 120 mil) aceitaram apoiar Draghi. Mas pelo menos um dos seus antigos dirigentes, Alessandro Di Battista, anunciou que deixava o partido e há especulação de que outros poderão segui-lo.

O Partido Democrático e o Itália Viva foram os primeiros a dizer "sim" a Draghi, junto com o Força Itália, de Berlusconi. Apesar dos problemas de saúde, que o têm obrigado a entrar e sair dos hospitais, o ex-primeiro-ministro quis dar o seu aval. "Faremos o nosso papel, com lealdade e espírito construtivo", disse. No sábado, foi a vez da Liga, de Matteo Salvini. "Estamos prontos. Somos a maior força política no país, somos uma força que deve estar no governo", disse, sendo que até agora defendia eleições antecipadas.

O único a destoar é o Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, que diz querer respeitar o mandato dos seus eleitores. "Toda a gente está a dizer tudo e o contrário de tudo", disse ao Il Fatto Quotidiano. O partido explicou que vai esperar pelo programa antes de decidir o que fazer no voto de confiança a Draghi.

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