GNR. MAI decide entre um comandante-geral por 10 meses ou fazer história

O sucessor do comandante-geral da GNR vai ser conhecido nos próximos dias. Os oficiais da GNR estão inconformados que volte a ser um General do Exército, o que é o mais certo.

Está em contagem decrescente a saída do comandante-geral da GNR, Tenente-General Rui Clero, no cargo desde julho de 2020, por atingir o limite de tempo no posto de oficial general no dia três de dezembro.

O momento, que acontecerá nos próximos dias, podia ser histórico, pois seria o último general do Exército a comandar esta força de segurança - uma situação inédita nas congéneres europeias - e a dar lugar, pela primeira vez, a um dos majores-generais da própria Guarda, com qualificações reconhecidas e que esperam este momento de viragem há mais de duas décadas.

Mas nada indica que tal acontecerá, a passagem do testemunho tem-se arrastado, mesmo sendo um desígnio idealizado pelo atual primeiro-ministro, António Costa, quando foi ministro da Administração Interna, em 2007.

O "incómodo" de José Luís Carneiro

Pelo menos, até ao momento, o atual titular da pasta, José Luís Carneiro, não chamou nenhum destes oficiais generais da "casa" e, quando questionado pelo DN, o seu porta-voz não explica porquê.

Essa é também a convicção da própria Associação Nacional dos Oficiais da Guarda (ANOG) que já questionou duas vezes José Luís Carneiro sobre o assunto e ficou surpreendida com a reação e a resposta.

"Numa primeira reunião, em agosto, sentimos um grande incómodo por parte do Sr. Ministro da Administração Interna quando lhe colocámos a questão sobre a sucessão do comandante-geral, nomeadamente se seria, como todos esperávamos, um dos generais da GNR que já têm condições para essa nomeação. Disse-nos que o assunto já tinha sido "discutido no Conselho Superior". Estranhamos muito que os nossos generais nunca tenham sido chamados e ouvidos", conta o tenente-coronel Feliciano Amaral, da ANOG.

"Numa segunda reunião, esta mais recente, a nove de novembro, com outras associações da Guarda, voltei a insistir. Não reagiu bem, mostrou-se de novo incomodado e remeteu outra vez para o Conselho Superior. Presumimos que se referia ao Conselho Superior da GNR e fomos indagar. Para nossa surpresa ficámos a saber que este tema nunca foi debatido ali. Tememos que o Sr. Ministro possa ter sido mal informado e que esteja a ser tomada uma decisão com base em pressupostos errados", afiança este dirigente associativo.

Também em relação a esta conclusão, o ministério da Administração Interna (MAI) não faz comentários. Não confirma, nem desmente se será mesmo Santos Correia o próximo comandante-geral.

Comandante-geral a prazo?

A acontecer, será também um caso sui generis: como atinge o limite de idade (62) em setembro de 2023, só poderá estar neste cargo durante 10 meses.

"Não está em causa o mérito do Sr. General, que já assumiu vários cargos de comando na GNR (comandante operacional e comandante da Unidade de Intervenção, por exemplo), mas as missões são para três anos. Embora preferíssemos que fosse já nomeado um general da GNR, pelo menos, como fase transitória, o seu 2º comandante deveria ser da Guarda", assinala Amaral.

Santos Correia desempenhou no Exército várias funções de comando, como general do Exército, como a de Chefe do Estado-Maior do Comando das Forças Terrestres e Comandante da Força de Reação Rápida.

Cumpriu missões de serviço na United Nations Protection Force (UNPROFOR), na ex-Jugoslávia; na Missão Permanente de Portugal junto das Nações Unidas em Nova Iorque; e na International Security Assistance Force (ISAF), no Afeganistão.

"Aqui todos já assumiram que será ele. Ainda há dias, numa cerimónia, toda a gente o viu a ser cumprimentado e parabenizado por várias pessoas", admite uma fonte militar que observou a situação.

Os generais que se seguem

A GNR, que já chegou a ter 12 generais do Exército em cargos de comando, com a saída de Rui Clero, ficará apenas com dois: Santos Correia e Maurício Raleiras, atualmente a dirigir a Inspeção da Guarda e que pode subir a número dois.

O oficiais da GNR olham para a PSP, onde há 10 anos que os lugares de topo são da "casa", e não encontram outra explicação que não seja a "utilidade" para o Exército deste sistema que permite que, cada vez que um general seu vai para a guarda, abre uma nova vaga para outro dentro do ramo.

Neste momento há sete generais da GNR em condições para chegar ao topo da maior força de segurança do país, com destaque para três deles, os primeiros a serem promovidos a major-general: António Bogas, Paulo Silvério e Rui Ribeiro Veloso.

António Bogas comanda atualmente o Comando de Administração e Recursos Internos, é o mais antigo, foi primeiro classificado no seu curso, passou por todas as estruturas financeiras e logísticas da GNR.

"Foi uma maratona. (...) Claro que sabíamos quando entrámos na Academia que este dia podia chegar, mas nunca fiz disto um cavalo de batalha, embora fosse um desiderato assumido", disse ao DN numa reportagem quando entrou no curso de promoção a oficial general.

Paulo Silvério está à frente da Unidade de Intervenção. Tem vasta experiência operacional, de planeamento, académica - foi o primeiro oficial da Guarda a dar aulas no Instituto de Estudos Superiores Militares (atual IUM) - nacional e internacional (Iraque e Timor).

"Autodomínio, sangue-frio e serena energia", "coragem e bravura quando se expõe aos perigos", "exemplo de excecional comandante" - caracteriza-o o ex-ministro da Administração Interna, António Figueiredo Lopes, no louvor que lhe concedeu pela sua missão no Iraque.

Ribeiro Veloso, é o atual comandante operacional da GNR (em suplência), esteve na criação do Grupo de Intervenção, Proteção e Socorro, que comandou até 2021.

Começou a carreira militar no curso de oficiais milicianos no Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego.

Comandou o Destacamento de Trânsito de Carcavelos; foi formador nas escolas de polícia de Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe; foi oficial de segurança da seleção portuguesa no Euro 2004, foi professor na Academia Militar, na Escola da Guarda e no Instituto Universitário Militar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG