Francisco Pinto Balsemão. "Injustiçado" porque "os outros são, por natureza, ingratos"

O co fundador do PSD, criador do Expresso e depois da SIC, ex-primeiro-ministro, registou em livro a sua preenchidíssima vida política, profissional e pessoal.

Há uma diferença essencial entre as "Memórias" que Francisco Pinto Balsemão agora publica e a biografia "Francisco Pinto Balsemão" lançada pelo jornalista Joaquim Vieira em 2018. Enquanto esta se dedica extensivamente à vida privada do militante nº 1 do PSD - nomeadamente à questão do filho que teve de uma relação extraconjugal -, Balsemão agora pura e simplesmente ignora o assunto, salientando apenas que Francisco Maria está há muito integrado na família, estando as relações com Isabel também pacificadas.

Não dá espaço nas suas "Memórias" a esta história - e muito menos confessa arrependimento. Em contrapartida, não esquece nem perdoa o mal que outros lhe fizeram. O que constantemente relata é que o mal que o atingiu veio (quase) sempre de dentro: do seu partido, do CDS (o partido com que governou coligado), de amigos (dizer que João Rendeiro é arrasado é curto), de pessoas que eram quase família (Nuno Vasconcellos), de subalternos no jornalismo que um dia partiram para outras aventuras.

Fá-lo, às vezes, com requintes de malvadez (quando, por exemplo, censura o jornalista Pedro Mourinho por não lhe ter mandado um mail de despedida quando saiu da SIC ou ainda quando, citando apenas "más línguas", diz que o jornalista José António Lima, nº 2 do Expresso durante anos, passava a maior parte do tempo no gabinete a jogar jogos no computador).

Balsemão, manifestamente pouco preocupado em ser visto agora, aos 84 anos, como um velho sábio finalmente beneficiado pelo dom de ser magnânimo, teoriza de resto sobre a inutilidade dos pedidos de desculpa (a propósito de Helena Roseta, que lhe fez a vida negra no PSD): como é que "os ofendidos, insultados e mal tratados podem esquecer e perdoar, como se nada de muito grave tivesse acontecido"?

No final, admite: "Senti-me muitas vezes injustiçado." E confessa o propósito do livro: "Assinalar o que os outros, que, por natureza, são ingratos, esqueceram ou fingiram esquecer ou mesmo escondem, por inveja, por despeito, por medo que isso prejudique o que pretendem que deles próprios permaneça".

10 Personagens e as verdades de Balsemão

São muitas dezenas as pessoas criticadas por Francisco Pinto Balsemão nas suas "Memórias". Todas e cada uma são referidas, sempre, com o nome em maiúsculas, um truque gráfico para fixar a atenção em cada página. Quem quiser saber se é referido pelo patrão do Grupo Impresa é consultar o Índice Onomástico - pode ser que lá conste. Vai da página 963 à 999. O DN seleciona dez nomes, dos universos da família, da política e do jornalismo. Quem aparece no maior número de páginas é a mulher, Tita.

Ramalho Eanes. A história dos gravadores: "Fiquei furioso"

Balsemão foi primeiro-ministro de 1981 a 1983 sendo Ramalho Eanes o Presidente da República. A relação foi, como a define, "pendular": uma vezes apoiando-o e outras hostilizando-o Ficou péssima quando Eanes, em meados de 1982, decidiu passar a gravar as conversas entre os dois. "Fiquei chocado, magoado e furioso e disse-lho." No final, Eanes entregava-lhe uma gravação. Balsemão diz que lhes perdeu o rasto.

Francisco Maria Balsemão. O filho que levou alguns anos a reconhecer

Este é um capítulo da sua vida que Francisco Pinto Balsemão reduz à condição de "vicissitude". Em 1970 teve um filho de uma relação extra conjugal com Isabel Supico Pinto. Não o quis reconhecer e foram preciso anos de luta nos tribunais para isso acontecer. Nas "Memórias", Balsemão sublinha que Francisco Maria, de quem tem a "honra de ser Pai", é "parte integrante" da família "há largos anos", dedicando-lhe rasgados elogios

Mário Soares. O homem com quem fez a obra política da sua vida

Foi através de um acordo com Mário Soares que Balsemão conseguiu aquela que será a sua grande marca na política portuguesa: a revisão constitucional de 1982, que remeteu de vez os militares para os quartéis, acabando com o Conselho da Revolução e criando o Tribunal Constitucional. Soares é objeto de vários elogios. Aliás, chega a dizer que nos seus dois anos e meio de primeiro-ministro, o PS - liderado por Soares - foi "o menor de todos os obstáculos".

Freitas do Amaral. O parceiro na AD em que não se podia confiar

O fundador e primeiro líder do CDS-PP fica mal no retrato que lhe é composto. É acusado de ter intrigado com a oposição interna do PSD. Ou de ter "posto a correr" que só aceitara ser vice-primeiro-ministro de Balsemão porque este precisava de ser "orientado". Alinhou numa guerra contra Ribeiro Telles (sobre a criação do concelho de Vizela) comportando-se como se "Guimarães fosse sua propriedade privada".

João Rendeiro. Banqueiro "ancorado no seu total egoísmo"

Balsemão associou-se a João Rendeiro na criação do BPP em 1996 e não lhe perdoa os milhões que perdeu na falência. Pessoa "completamente insensível", "persistente egocêntrico", alguém que está "em permanência ancorado no seu total egoísmo", de uma "ambição desmedida". Rendeiro está a dias de ter se entregar para cumprir uma pena de prisão de cinco anos e oito meses.

José António Saraiva. 21 anos a dirigir o Expresso: a "Saraivada"

José António Saraiva chega a diretor do Expresso em março de 1984. Manteve-se no cargo 21 anos. Balsemão, que qualifica esse reinado de "a Saraivada", diz que que foi um "prazo de validade manifestamente excessivo". Regista a constante subida nas vendas mas censura-lhe, por exemplo, o facto de se refugiar no seu gabinete, "de onde quase nunca saía". E ainda ter tentado "boicotar" a escolha do sucessor, Henriques Monteiro.

Cristina Ferreira. "A fama e o prestígio subiram-lhe à cabeça"

Em agosto de 2018, a SIC protagonizou uma das mais sensacionais transações do mundo televisivo roubando Cristina Ferreira à TVI. Balsemão elogia-a dizendo que "não deixa nada ao acaso", conseguindo atrair "desde o Presidente da República aos pastores da Malveira". Quando dois anos depois Cristina regressou à TVI isso deixou-o "chocado". "É mais um caso em que a fama e o prestígio lhe subiram à cabeça."

Cavaco Silva. Recusou as Finanças. E foi "sempre ativo e destrutivo"

Balsemão coloca sempre Cavaco Silva como figura de proa no grupo do PSD que lhe moveu intenso combate quando ascendeu a primeiro-ministro. Tentou fazê-lo seu ministro das Finanças mas Cavaco recusou (a solução foi Morais Leitão). Ainda o nomeou presidente do Conselho Nacional do Plano mas isso não o acalmou. "Durante todo o meu tempo de Governo, como veremos, Cavaco esteve sempre ativo e destrutivo".

Rui Rio. Falam "horas" mas é "tempo perdido"

O militante nº 1 do PSD conta que apoiou sem hesitações a liderança de Rio por achá-lo capaz de "reposicionar o PSD no lugar que lhe pertence" e que é o "centro/centro-esquerda". Em 2016 tentou - em vão - convencê-lo a ser candidato a Belém. De resto, falam horas ao telefone mas "uma parte desse tempo é perdido porque há muitos anos, não estamos de acordo sobre o papel dos media em democracia".

Nuno Vasconcellos. O afilhado "Nuninho" que quis matar o padrinho

A relação entre Balsemão e Nuno Vasconcellos era na verdade familiar. Grande amigo do seu pai, Luíz, Balsemão foi padrinho de casamento de Nuno, ("Nuninho"). Quando Luíz morreu, Nuno "entrou em órbita" e tentou comprar a TVI e a SIC. Tentou a bem e depois a mal (judicialmente) e fracassou. Balsemão dedica 14 páginas ao assunto: "Uma das maiores e mais dolorosas batalhas da minha vida empresarial."

joao.p.henriques@dn.pt

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