Entre a vergonha e a ambiguidade. Que direitas há no país?

É uma marca genética da democracia portuguesa: a direita "nasceu envergonhada" e nalguns casos sem doutrina que a separe da esquerda. Cinco investigadores traçam o perfil de PSD, Chega, IL e CDS numa altura em que a fragmentação política abre portas a novas geringonças. Foram 36 os líderes das várias direitas que chegaram ao Parlamento ou a governos. No DN, a autoanálise das atuais lideranças.

Do que falamos quando falamos da direita portuguesa? Em primeiro lugar, diz Riccardo Marchi, de uma "vergonha", o "receio" de "serem identificados com o Antigo Regime", como aconteceu e se foi "mantendo" logo após o 25 de Abril. As várias "peles" da direita, todos os partidos "fora da área socialista", assumiram nessa altura "nomes que referem culturas políticas não particularmente identificadas" de forma "imediata" com a direita. A memória "recente e presente" de uma "direita autoritária, ditatorial e salazarista" - como a classifica Jaime Nogueira Pinto - criou "um problema de autoidentificação e de autoposicionamento no espectro político".

Nascem, assim, "sem a coragem, difícil naquela época, de assumir o que eram de facto", a "social-democracia do PSD, o centro-democrático social do CDS. Mesmo os partidos mais à direita, como o PDC [de Nuno Calvet de Magalhães], definiu-se como democracia-cristã". E até, sublinha Riccardo Marchi, figuras políticas mais identificadas com a direita como, por exemplo, Kaúlza de Arriaga, "que era claramente um hardliner do Antigo Regime, ao fundar em 1976 o MIRN [Movimento Independente para a Reconstrução Nacional] não coloca o nome "direita" dentro. Só mais tarde, em 1979, tem a coragem de acrescentar Partido da Direita Portuguesa".

"É uma marca genética da democracia portuguesa. A direita nasceu envergonhada, não se assumiu. Não queriam de forma nenhuma serem identificados com o Antigo Regime. E muitos nem sequer tinham um apego particular ao Antigo Regime, mas nenhum deles se quis posicionar claramente na direita", resume o investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL.

Jaime Nogueira Pinto tem a mesma leitura, a de que em Portugal "temos umas direitas um bocadinho envergonhadas. E a do PSD é bastante envergonhada. Teve ali uns momentos, com o cavaquismo, que foi, na prática, uma grande reação anti-esquerda sem os preconceitos que até aí tinham existido".

Porém, os "momentos" reduziram-se ao "lado tecnocrático" de Cavaco Silva que, sendo "o grande protagonista do centro-direita, nunca quis posicionar o PSD na direita", acentua Riccardo Marchi.

Nem o PSD, "nem ele mesmo, Cavaco, que nunca se definiu como um homem de direita e isto apesar do facto de a direita sociológica se ter reconhecido toda no cavaquismo". E "de tal forma e tanto", refere o investigador, que "até secou, por exemplo, toda a liderança de Lucas Pires. O CDS não tem sucesso nos anos 80 muito devido ao facto de a direita sociológica se reconhecer na figura de Cavaco Silva".

Dos 13 primeiro-ministros que governaram Portugal, desde 1976, sete foram do PSD.

O "paradoxal", diz Riccardo Marchi, é que "Lucas Pires não teve problemas", ao contrário dos restantes, nos anos 80, "em se definir como um homem de direita, dando sempre a referência da direita democrática, muito na onda francesa. Ele fazia muito esta referência. Uma das primeiras fórmulas que ele utiliza, quando era líder em 1983, é a do nacionalismo liberal, reivindica esta ideia de corrente nacionalista, mas sempre liberal".

"Secado" o campo político do CDS, a "tecnocracia" de Cavaco Silva, a sua "figura indefinida" na direita, "gera como reação o surgimento de uma das primeiras direitas importantes, culturais e políticas que é a direita de O Independente".

Para o investigador, é claro que "Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso quando surgem com esse projeto, surgem exatamente com a ideia de fazer finalmente a revolução cultural que empoderasse a direita em Portugal, importando a direita-democrática anglo-saxónica, norte-americana, no fundo mais uma operação cultural que política. E tudo isso em contraposição ao cavaquismo, ao PSD de Cavaco Silva".

Uma casa grande acomodada?

Rui Ramos considera que a "sociedade" portuguesa "tem alguma dificuldade em aceitar a pluralidade" e que esse "preconceito" vem "sobretudo da esquerda". No entender do historiador, que sempre se assumiu como de direita, há leituras que "revelam uma grande limitação de inteligência e de cultura". Exemplo? "Tudo o que não é de esquerda é fascista, é logo a primeira coisa que se diz" quando o que é proposto "não encaixa dos padrões da esquerda".

No leque partidário, o PSD que "ainda está construído como uma casa grande das várias correntes políticas e ideológicas, não é um partido que se defina por uma doutrina: define-se mais por uma situação de oposição, de contradição ao partido socialista que é principal força da esquerda". A consequência foi, diz Rui Ramos, "tornar o PSD como a primeira força da direita e com aspirações de federar, unir as direitas para chegar ao poder".

E é aqui que o tempo, o de quem mais vezes governou o país, "empurra" claramente, na opinião de Viriato Soromenho-Marques, professor de Ciência Política na Universidade de Lisboa, o PSD para a "direita, para um centro-direita, em virtude do facto de o PS ter estado, e estar, no governo há bastante tempo".

O "Dupont e Dupont" que André Freire, professor de Ciência Política no ISCTE-IUL, identifica entre PS e PSD - que "aglomeram praticamente 60% do eleitorado"- é para Viriato Soromenho-Marques a "colagem existente entre os dois, estão os dois no centro". Diferenças? "O que está na oposição pende claramente para a direita e o outro, porque tem essa política de esquerda distributiva, que é o que lhe sobra na diferenciação, tem de ter uma retórica a esse nível de esquerda."

Há no entanto agora um "atrativo de as direitas se puderem entender mais facilmente para chegar ao governo, se aritmeticamente for preciso", considera André Freire. É que, diz constatar, "uma solução do tipo Açores nunca foi excluída por Rui Rio e agora muito menos por Luís Montenegro que, sem ser preciso, já anda de algum modo a "namorar" o Chega".

"Aquela história de querer eleger um deputado do Chega para um vice-presidente do Parlamento", é para o investigador, "uma evidente aproximação pragmática".

O "pragmatismo político", o de "ser governo, mesmo sem ganhar eleições diretamente" - como aconteceu com António Costa, tem a "vantagem ou a perversidade" de dar aos pequenos partidos um poder que "eleitoralmente não têm". "São eles, os partidos à esquerda do PS e à direita do PSD, que se entrarem em soluções governativas, os vão puxar mais para a esquerda ou mais para a direita."

Talvez nem tanto à direita, considera Viriato Soromenho-Marques, porque há um fator que "protege o PSD de uma radicalização": o facto de "continuar a ser um partido nacional com representação em todo o país, continua a ter muitas vozes".

É essa amplitude de ser "um partido de massas", de ser a "grande casa do centro-direita" que é "a vocação do PSD", diz Riccardo Marchi. Uma "direita liberal, conservadora, num certo sentido", mas que "vive há anos num debate interno: o que é que queremos ser?".

Em suma, um problema de "ADN". Basta, diz o investigador, "ouvir o que dizem, por exemplo, Pacheco Pereira e Miguel Morgado, duas figuras importantes, diria, no PSD, sobre o que é o partido. O primeiro diz que o PSD nunca teve nada a ver com a direita, que sempre foi um partido social-democrata de centro -esquerda; o outro diz que o PSD sempre foi um partido de centro-direita, só não se pôde colocar aí por causa das contingências históricas".

Sendo a "grande casa do centro-direita, o PSD tem esta anomalia de ter um nome de esquerda. Algo que é explicável com a genética da democracia portuguesa". A tal "vergonha", explica o investigador, que fez com que "a assunção do termo direita por parte dos partidos portugueses seja uma coisa relativamente recente por causa da história política do país".

"Comunga o PSD", afirma Viriato Soromenho-Marques, "de uma tradição de disputar o poder com o PS e tem, por isso, características fortemente do centro, mas conjunturalmente está a migrar para a direita. E está a encontrar dificuldades. A diferença esquerda-direita [entre PS e PSD] está hoje nas políticas distributivas".

Na "verdade", resume, "o PSD não quer restringir o seu espaço de manobra, os partidos deste centro são deliberadamente os menos ideológicos. Ou seja, a ideologia deles é a ambiguidade para poderem recrutar votos em todos os sectores".

André Freire sintetiza, no seu entender, as "dificuldades atuais e passadas recentes" dos sociais-democratas: a falta de "um líder ousado, assertivo".

No palco político, "o PS moveu-se para a direita, o PSD anda nas nuances". E o "curioso", diz o investigador, é que o "passismo voltou pela mão do PS, não do PSD que voltou a ser ruísta. Basta olhar para o Orçamento para o próximo ano e para as políticas pós-geringonça. É uma política de troika numa outra escala".

Sem medo de ser de direita

"Há décadas que a esquerda está à defesa, com as mãos na cara, a ver se não a esbofeteiam, a aguentar-se. E agora não sabe o que fazer à medida que surgem partidos feitos para os eleitores como o Chega." Parte do "enorme sucesso", explica Viriato Soromenho-Marques, está no facto de ser "um partido unipessoal. Sem André Ventura o partido entra em défice. E é claramente populismo, uma direita radical".

"Não nos esqueçamos", alerta o investigador, "que nos Anos 30, na Alemanha, o programa do PNS [Partido Nacional-Socialista] era o programa dos três objetivos: "trabalho, trabalho, trabalho". E isto numa altura em que havia na Alemanha 30% de desempregados. Enquanto o governo do centro apoiado pelo SPD tinha uma política de austeridade, os nazis e os comunistas defendiam sobretudo políticas de promoção do emprego, o que diríamos hoje, políticas de esquerda".

"Por isso, cuidado que a direita, esta direita, é muito enganadora", avisa o investigador. E os "caminhos", de como se lá chega, "já os conhecemos: Marine le Pen domina hoje, onde dantes dominava o PCF, Giorgia Meloni foi buscar quase 30% de votos ao operariado".

Estes partidos, sublinha, conseguem "captar os vencidos da globalização, os derrotados, os órfãos da esquerda, que a esquerda abandonou, que não têm ninguém. Por cá ainda vamos tendo o PCP que capta essas pessoas, mas provavelmente a direita, esta direita mais radical ou outra qualquer, vai apanhar esses votos".

Riccardo Marchi, por seu lado, recorda que o Chega, ao contrário da IL, não surgiu de um "debate prolongado no tempo" entre membros da direita portuguesa: "É um projeto político de André Ventura" que em 2017, por exemplo, "recusava colagens a Trump, Bolsonaro e à AfD".

"Ele tinha como inspiração", enquadra o investigador, "uma direita da "Lei e Ordem" mais afirmativa, mais dura - uma das suas referências era o Nicolas Sarkozy, ministro do Interior em 2005 [primeiro-ministro de França de 2007 a 2012], mas, ao mesmo tempo, tinha outra referência que não era exatamente de direita radical, que era a referência do populismo emergente na Itália em 2009: o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo. André Ventura navegava por aí, entre os dois."

A mudança, considera, surge em julho de 2020 "quando aderiu à família política dos partidos populistas da direita radical, o ID [Identidade e Democracia, onde estão a Liga Norte de Salvini, o Rassemblement National de Marine le Pen, a AfD alemã e o FPÖ austríaco, por exemplo]. E está muito confortável aí, mas estaria mais confortável, creio, dentro do ECR [Conservadores e Reformistas Europeus, onde estão, por exemplo o VOX espanhol, o LKR alemão e o Irmãos de Itália de Meloni], uma direita de nacional conservadores".

Para Riccardo Marchi, as posições políticas que "o Chega tem em relação à Europa ou em relação à atual guerra na Ucrânia são muito mais próximas dos conservadores nacionalistas do ECR do que dos partidos de Le Pen e Matteo Salvini.

O Chega, considera o investigador, "é um partido nacional conservador, com vontade de representar uma direita radical, só que eles não gostam muito desta definição".

Em "termos económicos", Riccardo Marchi coloca o partido de André Ventura num espaço político "mais à esquerda do que a IL, numa defesa de uma economia social de mercado, que foi muito a fórmula de origem do PSD".

Extrema-direita? "Não, de todo", responde o investigador. "Eles aceitam as regras do jogo democrático, querem mudanças profundas, mudar o regime sem ir na direção dos regimes antidemocráticos: são uma direita radical. Pelo contrário, a extrema-direita é antidemocrática, subversiva, revolucionária, que até usa meios violentos. A velha direita autoritária do séc. XX ou os partidos extremistas como, por exemplo, a Aurora Dourada, esses permanecem marginais."

O que "de novo" está a surgir é uma "nova direita que, em 20 anos, triplicou o número de votos", constata Riccardo Marchi.

Explicação? André Freire relaciona este crescimento de partidos da "lei e da ordem e do liberalismo económico" com o facto de a "esquerda ter deixado de proteger os mais desfavorecidos e ,claro , a direita radical está a ocupar esse espaço, a prometer proteção para os nacionais, a defender um Estado Social nacionalista".

Tese igual partilha Jaime Nogueira Pinto que vê neste crescimento uma "acomodação da esquerda" que se tornou, ao mesmo tempo, "intelectualmente indigente, instalou-se de tal maneira na sua vitória e no seu domínio do Estado, nalgumas áreas académicas, nos media... isto deu uma certa arrogância que começa a irritar e a fartar".

O "sucesso", defende, vem daí "apesar, de neste momento, o Chega ser mais um partido de negação, de protesto, antissistema... e vamos ver se passa disso, se deixa de ser um partido de protesto. É mais aquilo que são contra do que, digamos, pela afirmativa. Há claramente um problema de conteúdos afirmativos".

E depois, sublinha, "a hostilidade, principalmente a da esquerda, fá-los crescer. E claro, há um fenómeno muito importante: o próprio líder que é, de facto, um tribuno fora de série, de qualidades tribunícias importantes".

Rui Ramos, professor e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e professor convidado do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, fixa no tempo - "os últimos 20 anos" - aquilo que considera ser um "grande reforço ideológico" contrariando a tese de que há uma erosão nas ideologias, um crescendo do pragmatismo. "Assistimos", defende, "a um reforço das ideologias, não exatamente as mesmas que existiam antes, mas voltou uma dimensão ideológica à política a partir do 11 de Setembro, da guerra no Iraque, que depois se confirma com a crise a financeira de 2008".

E "também aconteceu por cá", assegura o investigador, "basta ver o contraste entre o que era o governo de António Guterres, um governo que tentava corresponder a uma espécie de centro reformista, à Tony Blair e Bill Clinton, muito da terceira via, e o que começou a ser o governo de António Costa a partir de 2015".

Esse "fim das ideologias anunciado na década de 90" já não existe, considera. E as "direitas, em particular, criaram um espaço bastante mais ideológico do que aquilo que existia, criaram partidos mais doutrinários, mais restritos. O Chega, eu diria, de cariz nacionalista com um conservadorismo nacionalista e a IL, que se quer liberal. Há claramente hoje uma polarização entre esquerdas e direitas".

Direita, Liberal ou regressão?

"No nosso país é curioso: há fenómenos de regressão", afirma Viriato Soromenho-Marques. "Temos dois fenómenos de regressão muito recentes, a IL e a SEDES [Associação para o Desenvolvimento Económico e Social]. A IL aparece com um discurso que faz lembrar a primeira Constituição de 1822; a SEDES quer, por exemplo, duplicar o PIB português em 20 anos, entraram num processo sideral, saíram do bom-senso".

Na prática "a solução que eles querem é a solução que o capitalismo sempre teve; aumentar a produtividade, aumentar a produção como se tudo fosse ilimitado", tese que Manuel Maria Carrilho, no seu mais recente livro A democracia, o seu momento apocalíptico, considera ser a razão de "termos crise atrás de crise. Vivemos como se tudo fosse ilimitado, mas tudo tem limites (...) vivemos um extremismo do centro (...) que é a raiz do recente exacerbamento dos outros dois, à direita e à esquerda (..) o absoluto e dogmático primado dado à economia substituiu o governo dos cidadãos pela administração das coisas".

Viriato Soromenho-Marques considera, por isso, que a "componente ideológica" e o "discurso estruturado" do partido de Cotrim de Figueiredo representam o que é "a direita liberal, um capitalismo liberal, do cada um trate de si e o mercado trata de todos".

"Têm um programa que se fosse levado a cabo conduzia-nos à situação da Grã-Bretanha. Defendem uma política baseada em receitas que já nem o FMI aceita: baixar os impostos, acreditar que, se dermos dinheiro a quem já o tem, há mais investimento; se há mais investimento, há mais produção; se há mais produção, há mais riqueza; se há mais riqueza, há melhores salários; se há melhores salários, há mais consumo. Ora nada é assim", diz .

E os costumes? "Desde que não prejudiquem o funcionamento da economia está tudo bem", responde.

O "liberalismo económico" que André Freire aponta como principal característica da IL é para Riccardo Marchi uma "marca claramente de direita", muito embora o partido "não se defina como sendo de direita", preferem só o "termo liberal para além da esquerda e da direita".

Na questão dos "valores e costumes", Riccardo Marchi vê uma "postura mais virada para a esquerda, mas eles próprios estão divididos entre uma corrente conservadora e outra que é libertária".

Jaime Nogueira Pinto, por seu lado, não tem dúvidas de que, "tirando a questão económica, a IL é de esquerda, tem valores absolutamente de esquerda: é globalista, é extremamente aberto nas questões dos costumes". Dúvida? "Não sei se isso [a IL] vai durar muito tempo. Muita gente, a classe média, urbana, profissional e as gerações mais novas que votaram neles vão começar a perceber que coincidem bastante com a esquerda".

Rui Ramos tem uma visão diferenciada: "Em Portugal, um liberal está à direita, por mais que não queira. Está à direita porque a esquerda é antiliberal".

Derrubado pela concorrência?

"Foi a competição" da IL e do Chega que "esgotaram o que faltava esgotar do CDS", considera Viriato Soromenho-Marques. O que na leitura de Riccardo Marchi significou perder o "liberalismo" e o "conservadorismo" de uma trilogia, reivindicado pelo partido, e restar somente a "democracia cristã".

"Sempre foram claros, sempre estiveram entre o centro e a direita do espetro político. O problema é que a dinâmica dos dois novos partidos criou uma concorrência que o CDS foi incapaz de suportar", afirma.

As dificuldades de "renascer, de voltar ao que eram" são muitas, porque, diz Riccardo Marchi, "os eleitores já os conhecem bem, eles já estiveram no Parlamento, em governos, não há nada de novo, nem a performance de Nuno Melo é particularmente inovadora: nem no estilo, nem na fórmula. Considero difícil que recuperem o terreno perdido, só uma crise da IL e no Chega poderia abrir, acredito, esse espaço".

.Nuno Melo reivindica para o CDS a "única direita, responsável lúcida e confiável". André Ventura diz que o Chega é o "único" partido "verdadeiramente de direita". A IL diz estar "num eixo vertical, ao centro". Luís Montenegro não respondeu às questões do DN.

O que dizem os líderes da "direita"

André Ventura, que considera o Chega o único partido "verdadeiramente de direita" e sem "medo de se afirmar como tal", afirma que a direita representada pelo PSD e CDS "deparou-se com um problema de afirmação" por ter abandonado "as suas principais bandeiras, sendo que o único fator que a distinguia em relação à esquerda era ter uma proposta económica diferente. Em quase tudo o resto abraçou as causas da esquerda, tendo deixado de defender os valores culturais e civilizacionais judaico-cristãos".

Há, afirma o líder do Chega, "uma direita envergonhada, representada pelo PSD, que se distanciou do seu eleitorado e dos problemas do país de tal forma que, desde 2011, não voltou a ganhar a sua confiança (...) e que varia conforme os líderes. Uns mais sociais-democratas, como foi o caso recente de Rui Rio, querendo situar-se ao centro, ou mesmo ao centro-esquerda, e outros com um pendor mais liberal, cujo exemplo máximo foi Pedro Passos Coelho".

A Iniciativa Liberal é, considera André Ventura, "apenas vagamente de direita na economia, mas nem quer ser vista como de direita, pelo que existe alguma dificuldade em classificá-la como tal (...): é o exemplo acabado de um partido que se dirige a algumas elites urbanas, com pontos de contacto com a direita apenas no campo económico, mas muito mais próximo da esquerda nos costumes. Os próprios são os primeiros a dizer que não se sentem confortáveis com o rótulo de partido de direita. No entanto, mesmo no campo económico, defendem um liberalismo extremo, que acaba por culminar num materialismo que se sobrepõe à pessoa e no qual não nos revemos".

O CDS que era "o único", no universo PSD, CDS e IL, "que se afirmava" de direita, "embora com nuances e contradições insanáveis entre a teoria e a prática" acabou por ter um destino: "afastou-se da sua base ideológica e os eleitores afastaram-se do CDS".

O Chega é, por isso, afirma André Ventura, o único partido "verdadeiramente de direita (... ) conservador nos costumes, reformista, liberal na economia, mas com sentido de justiça social, e que, acima de tudo, defende Portugal".

A "tibieza" de PSD e CDS "na defesa dos princípios e valores, quando não mesmo a recusa destes partidos em afirmarem-se de direita, aplanou o espetro político português e acabou por afastar os eleitores, privando-os de uma alternativa clara ao socialismo. O Chega aparece neste contexto e vem dar resposta aos anseios de quem ficou órfão de um projeto político verdadeiramente de direita".

Mas mais ainda, "também para aqueles que, não se identificando necessariamente com a denominação esquerda ou direita, se reveem nas propostas políticas do partido".

Nem esquerda nem direita?

Nem uma coisa nem outra. Esta é a forma como a IL, a sua Comissão Executiva, olha para si própria: "A Iniciativa Liberal não é estatista e conservadora, como a direita portuguesa, nem é socialista e estatista, como a esquerda portuguesa".

E a explicação está na conceção académica da ideologia, a referência do que "tantos politólogos têm proposto ao longo das últimas décadas: os liberais estão ao centro, num eixo vertical, o eixo liberal".

Para o partido, a direita portuguesa, da qual se dizem afastados, "perdeu a ânsia de futuro e a vontade reformista que poderia fazer os portugueses acreditar numa verdadeira alternativa ao socialismo. Acresce que lideranças erráticas, sem clareza ideológica ou programática, favorecem frequentemente as disputas internas e o debate de temas identitários, que não respondem a nenhum dos problemas dos portugueses".

Tudo isto, dizem, "dificulta ainda mais o reconhecimento de diferenças em relação ao PS" até porque a direita "apresenta o Estado como a solução dos mais diversos problemas e quer muitas vezes, à semelhança da esquerda, usar o Estado para impor comportamentos e estilos e projetos de vida".

E os outros partidos? "O PSD é o que for o líder em cada momento, mas sempre refém dos interesses do seu próprio aparelho partidário; o Chega é da direita populista e estatista, mas vai variando consoante dá jeito para o soundbite do dia, de André Ventura. É da direita unipessoal. O CDS é a direita social-cristã".

"A única direita credível"

Nuno Melo, presidente do CDS, afirma que sim. E acrescenta: "Responsável, lúcida e confiável (...) o único partido de direita em Portugal com credibilidade e experiência governativa" que "foi decisivo, através das suas políticas e dos seus governantes" nos governos em que participou. A dificuldade da direita em ser governo está numa "razão sociológica" e numa "razão política". A sociológica é explicada pelo "número de dependentes do Estado" que "aumentou de 32% em 1980, para 51% em 2020; por um país onde "16 % dos portugueses pagam 80% dos impostos e um terço da população paga os restantes 20%".

Ou seja, diz , a "realidade ajuda a perceber como o socialismo encontra na apropriação do esforço dos outros, através de impostos absurdos, a ferramenta política que permite engrossar a fileira dos que precisam do Estado, perpetuando ciclos de dependência fiéis, porque dão votos".

Esta "lógica cada vez mais difícil de contrariar", afirma o líder do CDS, "perpetua um modelo económico fracassado que arrasta Portugal para o fundo, potencia baixos salários e permite que sejamos ultrapassados ano após ano pelos países mais improváveis de Leste".

A "razão política" é que a consequência de se "distribuir o que não se tem, a pensar na próxima eleição, em vez da próxima geração, também garante votos com maior facilidade".

Os que cedem "menos a essa tentação" [PSD e CDS] apesar de "chamados a pagar dívidas e bancarrotas do socialismo (...), infelizmente também o pagam nas urnas", considera Nuno Melo. E as direitas? O líder do CDS não tem dúvidas de que o "PSD nunca se afirmou como um partido de direita, nem pretende sê-lo. É um partido ideologicamente ao centro".

E se o PSD não quer ser direita, a IL que "não se assume como partido de direita" é, porque assim se "apresenta", "como um partido mimético do Bloco de Esquerda em tudo o que tem a ver com a agenda social".

E o Chega? "É um partido populista que interessa ao PS porque divide as oposições, um megafone de protesto, a conversa de café, a demagogia de propostas que não são exequíveis, nem têm qualquer credibilidade", responde.

Para explicar porque não é o partido de André Ventura "um partido credível nem um partido confiável", Nuno Melo dá como exemplo as garantias do Chega, nas eleições autárquicas, de "que os [seus] autarcas eleitos seriam decisivos para combater a esquerda. Hoje apoiam executivos do PS e do PCP".

Outro exemplo: a proposta "ridícula" de dar "125 euros de apoio, todos os meses do próximo ano, a todos os portugueses" levaria "a um rombo nas finanças públicas portuguesas que obrigaria a um significativo aumento de impostos sobre as famílias e as empresas portuguesas e a um aumento dramático da dívida pública portuguesa".

O PSD é um partido sem "ideologia", a "direita envergonhada". O Chega é a "direita radical" nacional e conservadora. A IL é direita liberal com costumes de esquerda. O CDS perdeu o "liberalismo" e o "conservadorismo" para os adversários: restou a democracia-cristã.

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