"É preciso saber como o CDS vai recuperar a importância e ainda não chegámos a esse ponto"

O deputado centrista, cabeça de lista da coligação PSD/CDS à Câmara de São João da Madeira, diz que falta ao seu partido afirmar os valores que o distinguem das novas forças à direita. Depois de ter disputado a liderança com Francisco Rodrigues dos Santos evita agora críticas diretas.

Vai liderar a coligação PSD/CDS à Câmara de São João da Madeira. Apesar de se demarcar da direção do partido, dá a cara nestas eleições autárquicas. Porquê?
Sou candidato há muitos anos, a muitas eleições autárquicas nas listas à Câmara de São João da Madeira, quer em coligação com o PSD quer em listas próprias do CDS. Obviamente que liderar uma candidatura de coligação é um desafio maior. E sempre disse que, mesmo tendo defendido no congresso um caminho diferente e apresentado uma candidatura à liderança, o meu compromisso com o partido se manteria sempre e esta é a altura de o afirmar e estar na primeira linha do combate político e partidário.

Vê esse empenho em outros críticos da direção do CDS?
Vejo, Adolfo Mesquita Nunes. Nuno Melo, Pedro Mota Soares, vários que encabeçam listas, o Pedro Morais Soares que é candidato a uma das maiores juntas do país. Não há pessoas que tenham defendido um caminho diferente que se tenham posto fora do combate autárquico, o que para o partido é muito bom.

Qual é o projeto para convencer os eleitores de São João da Madeira a trocarem de presidente de câmara e o PS pelo PSD/CDS?
É um concelho que apesar de ser pequeno em termos de dimensão teve sempre uma liderança e uma centralidade muito grande por causa da dinâmica industrial que a cidade tem, e que depende essencialmente do privado, e da capacidade que diferentes executivos camarários tiveram de a tornar uma cidade inovadora, dinâmica e liderante e acho que agora está a faltar isso. O que vou dizer às pessoas é que o facto de São João da Madeira ter sido apontada muitas vezes como um exemplo regional e nacional tem a ver com áreas como a criatividade, o empreendedorismo, a capacidade de atrair novo investimento e de segurar o que já existe e acrescentar com projetos que tornem a cidade mais atrativa. O que depende da capacidade que tivermos de financiamento europeu, de contactos multilaterais.

É possível conquistar a câmara?
Aceitei nesse pressuposto de que é possível. Claro que a diferença há quatro anos foi muito grande o PS, mas não faria sentido candidatar-me se não fosse a de procurar inverter a lógica da governação da cidade.

O CDS fez bem em solidificar as coligações com o PSD a nível nacional?
As coligações devem ser, acima de tudo, uma decisão local. Ainda não se discutiram coligações em Conselho Nacional e só nessa altura perceberemos como é que do ponto de vista local essa estratégia é interpretada, mas eu próprio sou cabeça de lista numa coligação. Agora as coligações desde que representem a vontade das estruturas locais do partido e acima de tudo das populações dos concelhos são uma boa solução para a governação autárquica por uma razão simples: ao contrário do que acontece na Assembleia da República, onde o governo sai da maioria parlamentar, nas câmaras municipais quem ganha a eleição para a câmara preside a ela. Isso faz com que a lógica de coligações pré-eleitorais faça sentido.

O CDS conseguiu seis câmaras nas autárquicas em 2017. A expectativa agora, com algumas candidaturas com notoriedade, é que esse resultado possa ser ainda melhor?
Sim, acho que sim. A avaliação que faço da governação do CDS nas seis câmaras que tem neste momento é muito positiva e há quatro anos houve municípios em que ficámos perto de ganhar.

Compreendeu a decisão de Assunção Cristas de não querer nova candidatura a Lisboa, onde em 2017 teve um grande resultado?
Compreendi perfeitamente. Ela explicou como tinha sido todo o processo e acho que ficou muito claro quais as razões da sua decisão.

E Carlos Moedas é um bom cabeça de lista PSD/CDS em Lisboa?
Gosto muito do Carlos Moedas e espero que tenha o melhor resultado possível porque seria um excelente presidente da Câmara de Lisboa. Espero que o trabalho que muitos autarcas do CDS tiveram ao longo dos quatros anos, fruto do resultado de todo aquele projeto liderado por Assunção Cristas, não se perca e que o CDS consiga defender aquilo que é um património de dedicação autárquica, que ajudará também Carlos Moedas.

No último Conselho Nacional, que foi muito polémico, disse que não se sentia representado no partido. Mantém esse sentimento?
Desde que perdi o congresso disse que falaria no local próprio e até hoje tudo o que disse sobre a vida interna do partido foi em conselhos nacionais. Lamento que venha cá para fora e não será por mim que direi se foi ou não isso que disse. Obviamente que é natural que tendo apresentado um projeto diferente haja muitas coisas na governação do partido que não representem aquilo que eu faria e, portanto, o Conselho Nacional é o sítio certo para eu dizer o que acho que devia ser de outra forma. Gostava e acho que o presidente do partido também gostaria que o CDS tivesse uma afirmação que neste momento, todos reconheceremos, não é a ideal.

O partido devia ter dado oportunidade a Adolfo Mesquita Nunes para disputar a liderança com Francisco Rodrigues dos Santos?
Agora está ultrapassado, mas na altura achei que fosse para mudar a liderança ou fosse para a manter naquele momento um congresso serviria para o partido sair mais forte. Porquê? Porque se triunfasse a liderança atual sairia reforçada porque teria tido uma prova interna, se se alterasse é porque o partido antes de um grande desafio eleitoral, que são as eleições autárquicas, tinha entendido que era melhor mudar de rumo e isso também fortalecia o partido para fora. Mas isso está ultrapassado, a prova é que o próprio Adolfo Mesquita Nunes está muito envolvido num processo autárquico e todos estamos empenhados nisso. Pouco tempo após as autárquicas haverá um congresso ordinário e nessa altura poderemos discutir o rumo do partido.

"Agora esta ultrapassado, mas na altura achei que fosse para mudar a liderança ou fosse para a manter um congresso serviria para o partido sair mais forte. Porquê? Porque se triunfasse a liderança atual sairia reforçada, se se alterasse é porque o partido antes de um grande desafio eleitoral tinha entendido que era melhor mudar de rumo"

A ligação entre a direção do CDS e o grupo parlamentar, que correu mal em vários momentos, está melhor? Ainda agora houve notícias que não chegaram atempadamente à bancada as propostas sobre o enriquecimento ilícito...
Pode sempre ser melhor e até por esta circunstância de todos os deputados terem estado do lado da minha candidatura e neste processo de eventual convocação de um congresso extraordinário todos terem estado a favor, deve haver um esforço acrescido de articulação que deve partir da direção e ter toda a abertura do grupo parlamentar para que não haja a ideia de que há dois partidos. Sinceramente não gosto dessa ideia, só pode haver um CDS e a dimensão parlamentar é essencial. A direção tem de ver nessa dimensão uma capacidade de afirmação do CDS.

Mas tem havido essa vontade por parte da direção?
É pontual e, por isso, é que digo que é sempre possível fazer melhor.

O partido está pior do que na altura da Assunção Cristas?
A Assunção Cristas teve 20 e tal por cento para a Câmara de Lisboa e teve 4 vírgula qualquer coisa nas eleições legislativas. Eu vivi muito intensamente os ciclos de liderança de Paulo Portas, tivemos momentos extraordinário, os melhores do partido nos últimos 25 anos, no pós-AD, e tivemos também momentos muito difíceis. A questão aqui é o horizonte de recuperação para que sintamos que, apesar de vivemos um momento difícil, saibamos que podemos recuperar e falta ainda ao partido essa capacidade. Com a organização de uma nova direita em Portugal é preciso saber como o CDS vai recuperar a sua importância e vai reclamar, com legitimidade, ser partido fundador do regime e essencial na democracia portuguesa. E acho que ainda não chegámos a esse ponto.

E como é que isso é possível?
Nas eleições presidenciais percebeu-se que havendo um candidato de cada um dos novos partidos à direita e havendo um candidato do espaço de centro-direita, Marcelo Rebelo de Sousa, havia um discurso que era o do CDS que faltou nestes eleições. O discurso de uma direita que defende três coisas essenciais: liberdade, prosperidade e solidariedade. Isso distingue-nos dos outros projetos de direita. Porque temos uma visão liberal da economia, valorizamos o setor privado, achamos que é importante que o país tenha uma estratégia fiscal que lhe permita ter uma competitividade do ponto de vista económico que não tem tido. Mesmo na melhor oportunidade que tivemos, antes da crise pandémica, continuámos a crescer muito pouco, muito menos do que outros países europeus, temos um PIB per capita que é mais baixo do que países que há dez anos estavam atrás de nós, ou seja, também temos tido uma evolução negativo naquilo que é o bem estar social do país. E porque é que a direita é essencial para isto? Por esta dimensão de atração de investimento, de política fiscal mais competitiva, de promover condições para o elevador social em que as pessoas possam ambicionar ao longo da vida irem conseguindo ganhar bem-estar, ganhar melhor, ter outras condições de vida que à partida não teriam. E em que é que nos distinguimos de uma direita liberal? Porque temos uma dimensão social relevantíssima e isso é um património da democracia-cristã, de um partido que sempre esteve na linha da frente da defesa dos mais fracos. O ideal é termos este país que cresça mais, que ambicione mais, mas que tenha um olhar para quem ficou para trás e que tenha na política social uma dimensão de coesão que muitas vezes é apontado como uma falha da direita, mas não falta ao CDS. Essa dimensão reflete-se em muitas áreas da política para as quais o CDS tem de ter discurso e deve ser por aí a recuperação de uma direita, que é a europeia, a democrática e popular de muitos partidos que estão no Partido Popular Europeu, que governam muitos países na Europa. Depende de nós conseguirmos afirmar-nos. Não podemos cair na tentação de ter a solução mais popular para cada um dos problemas que nos aparece, as que as pessoas gostam de ouvir. Não estou a dizer que é isso que acontece, mas um partido que sabe bem que projeto tem para o país tem que, a cada momento em que aparece um desafio, a cada questão conjuntural, conseguir dar uma resposta ao país.

"Depende de nós conseguirmos afirmar-nos. Não podemos cair na tentação de ter a solução mais popular para cada um dos problemas que nos aparece, as que as pessoas gostam de ouvir."

E o líder do CDS tem passado uma mensagem coerente?
​​​​​​​Tem a dificuldade que todos os outros têm, acrescida da dificuldade de o CDS estar numa conjuntura negativa do ponto de vista daquilo que é a sua realidade política, parlamentar pelo menos. Tem cinco deputados em 230, coisa que não acontecia desde o princípio dos anos 90.

O crescimento eleitoral do Iniciativa Liberal e ainda mais do Chega preocupa-o?
Disse isso no congresso e direi sempre, a mim o que me preocupa é o CDS. Mal de mim se desperdiçasse tempo a pensar nos outros partidos. Quando o CDS cumpriu o seu papel não apareceram ou não tiveram sucesso outros partidos. É natural que haja os que apareçam e que conjunturalmente tenham sucesso, mas se um partido fundador do regime como o CDS continuar a ter a capacidade de defender o seu projeto para o país, ser coerente, confiável e credível, esses fenómenos serão conjunturais. Acredito que o CDS depende muito mais de si do que dos outros para recuperar aquilo que é o seu papel no panorama político português.

E acha bem o apoio do Chega à coligação de governo PSD/CDS/PPM nos Açores?
​​​​​​​Sou um autonomista e acho que quem deve saber o que é melhor para os Açores em determinado momento são as estruturas regionais dos partidos e, portanto, a estrutura regional do CDS entendeu que sim. Acho que a nível nacional não se deve apropriar aquilo que foi uma conquista e uma estrutura regional, mas também não se deve estar a criticar mesmo que se ache que no panorama nacional há uma solução que funcionou ali e que não funcionava a nível nacional.

Não descarta a hipótese de voltar a disputar a liderança?
​​​​​​​Tenho uma ideia muito clara do que deve ser o projeto do CDS para São João da Madeira nos próximos quatro anos e é para isso que estou a lutar neste momento. Não faria sentido nenhum estar a candidatar-me à liderança do meu concelho e estar a pensar em outros voos para o meu partido.

paulasa@dn.pt

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