Longe vão os tempos em que Pedro Nuno Santos se sentava na quinta fila da bancada socialista do Parlamento. Por opção, numa altura em que o então "jovem turco" já ganhara proeminência como líder da Juventude Socialista (JS) e já presidia à poderosa distrital de Aveiro do partido. A quinta fila era um sinal da distância que o separava da direção de António José Seguro. Deu sinal disso mesmo quando, no início de 2013, foi um dos socialistas que mais se empenhou em chamar António Costa - então presidente da Câmara de Lisboa - à disputa da liderança do partido. Costa mostrou intenções de avançar, mas à última recuou. Terá sido o primeiro momento de afastamento entre o jovem socialista e o agora primeiro-ministro. Passou: um ano depois, Pedro Nuno Santos voltou a estar na linha da frente no apoio a Costa, quando este avançou contra Seguro. E foi na linha da frente que ficou desde então..A polémica em torno da indemnização de 500 mil euros paga pela TAP à ex-secretária de Estado do Tesouro Alexandra Reis acabou por ditar o fim do caminho governativo do ministro das Infraestruturas, que apresentou a demissão na quarta-feira à noite, assumindo "a responsabilidade política" pelo caso. Agora volta à Assembleia da República - notícia ontem avançada pelo Expresso e que o DN confirmou junto de fontes socialistas. E se é expectável que o ex-ministro não venha a assumir grande protagonismo nos próximos tempos, entre os socialistas é voz corrente que o percurso político de Pedro Nuno Santos não acabou aqui. Por onde seguirá é uma questão que só o próprio - ou o tempo - poderão esclarecer. Mas, como está demonstrado, a quinta fila (agora sob holofotes) pode não ser um mau lugar para congeminar futuras lideranças..Alexandra Leitão, que se tem destacado como uma voz crítica no PS, veio ontem afirmar que o ex-ministro das Infraestruturas "agiu com dignidade", assumindo "uma responsabilidade política que fica sempre bem, que demonstra sentido de Estado". "Tenho muita pena que saia, acho que é um excelente ministro, é uma pessoa com ímpeto reformista, tinha os "dossiers" mais difíceis, não só a ferrovia e a habitação - onde fez um excelente trabalho - mas também o "dossier" da TAP. Poucos teriam a coragem que ele teve para assumir este dossier", afirmou a deputada à Lusa, dizendo esperar que Pedro Nuno Santos desempenhe "um papel ativo no PS, no futuro do PS e do país, da forma que ele agora melhor entenda, naturalmente". Opinião semelhante, ainda que sob anonimato, é partilhada no círculo próximo do agora ex-ministro. "O Pedro Nuno é um dos grandes ativos do PS e vai continuar a ser. Assumiu as responsabilidades políticas, não vejo que fique diminuído por causa disso", diz fonte socialista..Também o ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro - nome próximo de Pedro Nuno Santos - disse ontem respeitar, mas lamentar a saída do ministro das Infraestruturas, deixando uma palavra a "todo o trabalho e as marcas que tem construído"..Desde sempre defensor de que o PS deve governar à esquerda, Pedro Nuno Santos surgiu em 2015 como a escolha mais natural para o cargo de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, responsável pelas negociações com PCP, BE e Verdes. Mas, em 2018, foi notório que as relações com António Costa se tinham deteriorado pelo caminho - Pedro Nuno Santos foi a estrela do congresso do partido, ovacionado de pé pela plateia socialista, ao ponto de António Costa avisar, no discurso de encerramento, que ainda não tinha metido os papéis para a reforma..Em 2019, com o fim da geringonça, o agora ex-ministro assume a tutela das Infraestruturas e Habitação, uma promoção que também foi vista como um presente envenenado, sobretudo pelo difícil dossier da TAP. Precisamente aquele que quase fez cair o ministro em junho deste ano, quando António Costa mandou revogar o despacho sobre a localização do novo aeroporto. A saída de Pedro Nuno Santos chegou a então a ser equacionada, mas o ministro acabou por manter-se no cargo. Na recente entrevista à revista Visão, o primeiro-ministro sustentou que este foi o único "caso grave" de todas as polémicas que têm marcado o Executivo nestes nove meses de governação..Ao contrário do que aconteceu em 2018, nos últimos congressos do PS Pedro Nuno Santos remeteu-se ao silêncio, não voltando a apresentar uma moção, como fez naquele ano. Falta saber o que fará nos próximos: em 2023, os socialistas voltam a reunir em congresso, cenário que se repetirá em 2025, aí já com a sucessão de António Costa em cima da mesa..susete.francisco@dn.pt