Covid. Porque "temos de parar isto", país recua quase um ano

Com os números da pandemia a baterem todos os dias novos recordes - 156 mortos ontem, mais um que na véspera -, o Governo decreta medidas de confinamento que fazem o país recuar quase um ano. A principal excepção serão as escolas - que ficarão abertas.

Um confinamento geral como o de março de 2020 - mas em modo suave. Ao contrário do que aconteceu então, as escolas, creches e universidades permanecerão abertas; e os tribunais também; e o campeonato nacional de futebol prosseguirá (mas continuando os jogos a decorrer sem público).

Com os números da pandemia a baterem todos os dias novos recordes (há seis dias seguidos que se registam mais de cem mortos por dia e há 12 dias que os internamentos sobem todos os dias), o Governo anunciou o "cardápio" das medidas de confinamento que irão vigorar para o próximo mês (podendo até ser agravadas dentro de suas semanas, quando o estado de emergência for renovado).

A partir das 00.00 de sexta-feira volta a vigorar um "dever geral de recolhimento". Todos os trabalhadores para quem isso for possível terão de regressar ao teletrabalho - quer queiram quer não, tanto os trabalhadores como os respetivos patrões. Para forçar a natureza obrigatória desta medida, o Governo duplicou as multas para quem não cumprir a regra do teletrabalho. E fez o mesmo - duplicar as multas - para quem não cumprir o uso obrigatório de máscara. Quem não cumprir a regra da testagem na chegada aos aeroportos nacionais também poderá ser sujeito a multa agravada (até aos 800 euros).

"Temos que nos mobilizar no sentido de comunidade. Temos de novo de nos unir com o firme propósito de salvar vidas, proteger o SNS, apoiarmos os profissionais de saúde."

"Temos de parar isto", o país vive o seu "momento mais perigoso". Ao apresentar as conclusões do Conselho de Ministros de ontem, o chefe do Governo não escondeu o dramatismo da situação atual. "Quando há mais 156 falecimentos e ontem mais 155 e um total de 535 pessoas que morreram com covid desde domingo, percebemos também que é o momento mais perigoso", disse António Costa. E isto - explicou - deve-se em parte a um relaxamento do cumprimento das regras: "A esperança que vacina nos dá alimenta o relaxamento que torna mais perigosa esta pandemia."

Daí a necessidade de um encerramento geral do comércio - começando pelos restaurantes e acabando nos centros comerciais - e de um imperioso regresso ao teletrabalho. E de reforçar apelos ao sentido de solidariedade de cada um com os outros: "Temos que nos mobilizar no sentido de comunidade. Temos de novo de nos unir com o firme propósito de salvar vidas, proteger o SNS, apoiarmos os profissionais de saúde."

Sem quantificar, Costa reconheceu que as medidas terão um "impacto fortíssimo" tanto nas contas públicas como na economia em geral. Porém, "todas as atividades que são encerradas terão acesso automático ao lay-off simplificado" - e esta quinta-feira o ministro da Economia anunciará as medidas de apoio à economia.

As decisões de ontem do Conselho de Ministro revelaram um vencedor. Na terça-feira o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, tinha-se mostrado no Parlamento fortemente adversário da ideia de se regressar ao encerramento das escolas, devolvendo os estudantes (a partir do 7º ano) a casa e às aulas online.

Ora foi esse o caminho que fez vencimento. As escolas irão permanecer abertas - e essa será, afinal de contas, a principal diferença deste novo confinamento geral face ao confinamento geral de março e abril do ano passado.

António Costa reconheceu que a decisão de manter as escolas abertas divide a comunidade científica mas "une a comunidade educativa", nomeadamente famílias, diretores de escolas e restantes profissionais do setor da educação.

Segundo explicou, o encerramento das escolas no primeiro semestre de 2021 teve "consequências irrecuperáveis para o processo educativo" - daí a decisão de agora as manter abertas. Além disso, do ponto de vista da pandemia, o 1º período do atual ano letivo não revelou as escolas como sendo um problema grave.

"Das coisas mais dolorosas é a forma como coletivamente se vai ganhando uma anestesia relativamente aos números terríveis que Portugal vai registando."

Seja como for, a testagem será reforçada nos estabelecimentos de ensino. "Um dos fatores que melhor nos tem permitido controlar a gestão da pandemia é termos adotado uma política de testagem massiva: testagem, testagem, testagem. Relativamente às escolas vamos acompanhar o funcionamento das escolas com uma campanha de testes antigénio de forma a podermos ir detetando casos não detetados de eventuais contaminados", disse o primeiro-ministro.

Na conferência de imprensa, o chefe do Governo mostrou particular preocupação com algumas mudanças que estão a ocorrer nas perceções sociais da pandemia.

Segundo disse, "das coisas mais dolorosas é a forma como coletivamente se vai ganhando uma anestesia relativamente aos números terríveis que Portugal vai registando". "Caso se comparem os números de hoje com os números da primeira vaga, caso se compare a reação que tivemos todos na primeira vaga e a reação de alguns agora têm nesta fase, percebe-se como anestesia é muito perigosa", acrescentou. "Portanto - concluiu - nada nos consente que nos comecemos a comportar como já estivéssemos vacinados. É isso que torna muito perigoso o momento que estamos a viver. Sem perder a confiança, não se pode desvalorizar o perigo que esta pandemia continua a representar."

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