Bloco de Esquerda com convenção de uma nota só: PS debaixo de fogo

Críticas aos socialistas foram a nota dominante do primeiro dia da reunião magna dos bloquistas em Matosinhos. Tudo aponta para novo voto contra o próximo Orçamento

"Não atuamos por ressabiamento, não temos estados de alma, não ficamos zangados pelo facto de o PS ter fechado a porta a uma solução de estabilidade para quatro anos".

Porém, "nada foi mais importante para o PS do que atacar a esquerda nessas eleições [de 2019]". Além do mais, "o Bloco critica-o [ao Governo de António Costa] por ter sido dos países europeus que menos fez pela sua gente [no combate à pandemia]". E mesmo quando se deram entendimentos, as coisas depois não correram bem: "Nas discussões com o Governo ao longo do ano passado, conseguimos bons compromissos para o SNS [Serviço Nacional de Saúde], mas não foram cumpridos. Conseguimos compromissos para os trabalhadores informais, que não foram cumpridos. Conseguimos compromissos para as cuidadoras informais, que não foram cumpridos."

Isto foi, no essencial, o discurso da coordenadora do Bloco de Esquerda na abertura, ontem, dos trabalhos da XII Convenção do partido, em Matosinhos.

Catarina Martins esteve longe, porém, de ser a única interveniente a pôr o PS e o Governo de António Costa no centro da sua intervenção.

Disse Mariana Mortágua: "Não sei se deram conta mas o PS tomou uma decisão nesta legislatura, guardou a sua melhor artilharia para evitar que o BE influencie três áreas, a banca, os serviços públicos e o trabalho, e por isso ficam tão irritados quando conseguimos fazê-lo". Acrescentando: "Perigo, exclamou o primeiro-ministro quando aprovámos o apoio social que já tinha sido prometido pelo Governo, inconstitucional, disseram, quando reconhecemos aos técnicos de saúde o salário que merecem, bomba atómica avisou o PS perante a proposta que travou uma nova injeção no Novo Banco".

Mas também o líder parlamentar do partido, Pedro Filipe Soares: "A pergunta que se coloca é se o PS quer fazer um Orçamento do Estado de esquerda para poder dialogar com a esquerda do país" - dúvida a que o próprio respondeu dizendo que há "alguns indícios desta resposta e eles não são positivos". Enfim: "Ainda está por mostrar que o PS queira um Orçamento do Estado à esquerda."

E ainda um dos fundadores do partido, Fernando Rosas, falando com jornalistas à entrada da convenção - e na prática retomando o que já tinha dito anteontem numa entrevista DN/TSF: "Acho que as dificuldades estão até mais no lado do Partido Socialista, por causa dessa atração ao centro, por causa do peso renovado que um certo centrismo no Partido Socialista está a ganhar e isso prejudica um entendimento à esquerda, sustentado, durável, que não seja ponto a ponto, que não seja pescar à linha, mas seja uma coisa escrita, uma coisa estabelecida." Isto para não falar de Marisa Matias, que, ao falar da situação em Gaza ("mesmo muito grave e a vergonha da humanidade"), depois dispararia: "E qual foi a posição do Governo português? A pior de sempre, uma vergonha, senti-me verdadeiramente envergonhada com as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros no Parlamento Europeu."

Bem pelo contrário: todos os principais dirigentes do partido o fizeram. A relação do BE com os socialistas representou na verdade uma espécie de samba de uma nota no primeiro dia desta convenção bloquista.

O OE2022 é a batalha que se aproxima. Tudo aponta para que o caderno de encargos do BE seja o mesmo apresentado para o OE em vigor: reforço do SNS, revisão do Código Laboral e Novo Banco. Dito de outra forma: tudo o que, negado pelo Governo, levou a que o BE votasse contra.

joao.p.henriques@dn.pt

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