Sócrates "está a ajudar o PS a manter a cerca sanitária" ao atacar a direção e António Costa

Analistas políticos consideram que o caso que envolve o antigo primeiro-ministro não atinge o PS. Dizem que não há envolvimento da estrutura partidária na acusação e que Costa foi "racional" a demarcar o partido.

Paula Sá
José Sócrates, antigo primeiro-ministro© MARIO CRUZ/POOL/LUSA

A opinião é unânime entre os analistas políticos ouvidos pelo DN. O ataque de José Sócrates à direção do PS é o melhor que podia acontecer ao partido. A acusação de "canalhice" que o antigo primeiro-ministro dirigiu indiretamente a António Costa, na entrevista de quarta-feira na TVI, "ajuda o PS a manter" a cerca sanitária que impede a sua contaminação da acusação que pende sobre Sócrates na Justiça.

"Afinal, o indivíduo que está a acusar o primeiro-ministro é porque este não o apoia, nem lhe está próximo seja de que forma for", afirma Viriato Soromenho-Marques, professor universitário. O politólogo José Adelino Maltez é ainda mais taxativo: "A cerca sanitária está concluída. Com o livro e com o que disse na entrevista está a prestar um serviço ao PS".

"Afinal, o indivíduo que está a acusar o primeiro-ministro é porque este não o apoia, nem lhe está próximo seja de que forma for"

A mesma perspetiva tem António Costa Pinto já que diz que a "reação radical de Sócrates" ao que as figuras socialistas dizem sobre ele, nomeadamente Fernando Medina, "é favorável ao PS".

O politólogo afirma ainda que "tanto quanto nos podemos aperceber a sociedade portuguesa e o eleitorado já descartaram o efeito Sócrates na relação com o PS". O que se pode verificar, diz, no facto de o partido ter tido sucesso em vários atos eleitorais já depois de ter estalado o caso que envolve o antigo primeiro-ministro.

A leitura do despacho instrutório na semana passada, em que o juiz Ivo Rosa decidiu levar Sócrates a julgamento por branqueamento e falsificação de documentos (deixando cair 25 dos 31 crimes de que era acusado), não veio, na opinião de Costa Pinto, alterar a perceção pública. "Não estivemos perante nenhuma novidade, os factos de que Sócrates é acusado são do conhecimento público há anos".

"Tanto quanto nos podemos aperceber a sociedade portuguesa e o eleitorado já descartaram o efeito Sócrates na relação com o PS"

Outro ponto em que os analistas políticos convergem é de estarmos perante um caso que sai da norma dos que têm acontecido na Europa de corrupção política e que acabam por atingir os partidos. "Os casos de corrupção na Europa costumam ser de políticos, mesmo em altos cargos, como foi o de Helmut Kohl, na Alemanha com a CDU, para ajudar a financiar os respetivos partidos ou campanhas eleitorais", frisa Viriato Soromenho-Marques. "O PS não aparece envolvido neste processo, se se provar na Justiça a corrupção foi só para benefício do próprio [José Sócrates]", acrescenta.

António Costa Pinto subscreve: "O que está em causa são atos pessoais, não há corrupção partidária e não há envolvimento de estruturas". Admite, no entanto que, "sempre que há estas erupções" do caso Sócrates, é um "indicador de saliência política negativo para os partidos".

"António Costa agiu de um modo muito racional, preservando o melhor possível os interesses do partido, evitando a eventual contaminação das acusações que pendiam sobre Sócrates"

Apesar do respingar do caso Sócrates para o PS parecer residual, quando o antigo primeiro-ministro foi detido, em novembro de 2014, "havia o perigo do PS se enredar nisto", afirma Viriato Soromenho-Marques. Diz que António Costa esteve bem a isolar o PS, quando disse duas frases sobre o assunto. "O que é da Justiça à Justiça, o que é da política à política"; e "ele está convencido da sua verdade", o que remetia para Sócrates a narrativa de tudo o que se passou e as contas que teria de ajustar com as autoridades judiciais.

"António Costa agiu de um modo muito racional, preservando o melhor possível os interesses do partido, evitando a eventual contaminação das acusações que pendiam sobre Sócrates", afirma.

Sobre o facto de a eurodeputada Ana Gomes ter elogiado o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, pelas declarações que fez esta semana sobre José Sócrates - cujo comportamento disse que "corrói a democracia" - e criticado António Costa e outros dirigentes por ficarem agora em silêncio, António Costa Pinto vê um acerto de contas. "É um caso que permite a Ana Gomes para criticar a direção do PS, que não a apoiou na recente corrida a Belém", diz.

"Ainda são capazes de falar [Vieira da Silva e Augusto Santos Silva] se as coisas se agravarem no ataque de Sócrates ao PS. O partido e António Costa estão a guardar estes elementos para esse momento se for preciso"

Mas José Adelino Maltez admite que há ainda personalidades no PS que estão na reserva e que ainda não falaram do caso, sobretudo alguns ministros que fizeram parte dos governos socráticos e que tinham o seu prestígio. Cita os casos de António Vieira da Silva e Augusto Santos Silva, atual ministro dos Negócios Estrangeiros. "Ainda são capazes de falar se as coisas se agravarem no ataque de Sócrates ao PS. O partido e António Costa estão a guardar estes elementos para esse momento se for preciso", aponta o politólogo.

Ataque e resposta do PS

Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, foi o primeiro a verbalizar o que pensava após a leitura do despacho instrutório pelo juiz Ivo Rosa. No seu habitual espaço de opinião na TVI24, na terça-feira, afirmou que o comportamento de José Sócrates e as suspeitas de recebimentos avultados sem explicações rompem "laços de confiança" e corroem "a nossa vida democrática".

"Lamento ter que o dizer, mas é evidente que há um rompimento de laços de confiança quando há factos fundamentais de que alguém que foi primeiro-ministro recebeu avultadas quantias financeiras. Ao contrário do que era dito, não resultavam de fortuna pessoal ou familiar. Sem qualquer justificação aparente, que o próprio não dá e entendeu não dar durante todos estes anos, é algo que marca de forma absolutamente negativa o sentimento de bem-estar e de confiança na sociedade portuguesa", afirmou. Sócrates acusou a direção do PS, leia-se António Costa, de ser o mandante do ataque.

A secretária-geral do PS Ana Catarina Mendes foi mais soft na reação à entrevista de Sócrates. A tambem líder parlamentar socialista considerou na quarta-feira, no programa "Circulatura do Quadrado", na TVI24, uma "tremenda injustiça o ataque" do antigo primeiro-ministro. Viriato Soromenho-Marques defende que é assim que o PS agora se deve manter, "sem lhe dar grande im- portância, porque ele vive da que lhe dão".