Rangel: "Se eu for líder do PSD não vai haver um bloco central"

O candidato à liderança do PSD Paulo Rangel considerou que o executivo de António Costa deve manter-se em funções até às eleições, algo que Rui Rio criticou.

Ricardo Simões Ferreira
Paulo Rangel© FERNANDO VELUDO/LUSA

O candidato à liderança do PSD Paulo Rangel, considerou esta quarta-feira à noite que é preferível o governo manter-se em funções até às legislativas antecipadas. Garantiu que o calendário eleitoral que se aproxima é "harmonizável" com o processo eleitoral do partido e prometeu que não fará acordos pós-eleitorais com o PS.

"Se eu for líder do PSD não vai haver um bloco central", garantiu o eurodeputado em entrevista à RTP3.

Após o chumbo da proposta orçamental, Rangel considerou que, "tendo em conta o panorama político", as eleições antecipadas são mesmo inevitáveis -- e não uma mera imposição do Presidente da República.

Com o chumbo da proposta do Orçamento, "o que ficou claro foi a rutura da geringonça", disse Rangel. "E o grande responsável é António Costa e o Partido Socialista, que nos convenceu que era possível diálogo com a esquerda radical".

Lembrando que "com a mesma Assembleia da República pode haver dois ou três governos", mas neste caso, considerou, não faz sentido tentar outra solução que não novas eleições.

Já quanto à manutenção do governo em funções até às legislativas, algo que o atual líder do PSD criticou duramente, Rangel considerou meritório: "Eu acho que o governo faz bem. É melhor ter um governo em funções até às eleições do que não ter um governo em funções até essa altura."

"O melhor para o país era não ter tido crise política", ressalvou. "Mas isso é culpa de António Costa, que andou a enganar os portugueses estes anos todos dizendo que era possível governar com a esquerda radical".

Para Rangel, com este "divórcio litigioso" resultante do chumbo da proposta orçamental, o PS ficou agora mais sozinho. "Vai demorar muito tempo até sarar as feridas".

Pelo que, argumentou, "o voto no PS agora é um voto inútil". E não vê possibilidade de o Partido Socialista conseguir uma maioria absoluta -- "António Costa já foi a votos duas vezes e não o conseguiu".

"Só há uma alternativa para um governo estável em Portugal, para um governo moderado, o PSD", afirmou Paulo Rangel.

Prometendo apresentar um "grande projeto" para "um partido com vocação maioritária", capaz de "cativar, seduzir os portugueses para uma solução governativa", Rangel afirmou ainda que "o PSD se deve apresentar sozinho nas legislativas".

"Vamos pedir uma maioria estável. Se for possível uma maioria absoluta, melhor", afirmou. "Mas se não tivermos, não vamos deixar de liderar um governo, se tivermos condições de liderar uma maioria estável", concluiu.

Quanto a acordos posteriores: "O nosso parceiro preferencial é o CDS, que é tradicionalmente o nosso parceiro. Reconheço na Iniciativa Liberal com quem o diálogo pode ser muito frutuoso, para encontrar soluções comuns para Portugal. Isto se a Iniciativa Liberal desejar, porque em Lisboa não aconteceu."

Calendário "harmonizável"

A questão de saber se a data das eleições antecipadas pode ou não ser prejudicial para o PSD, por estar em processo de escolha de líder, não parece preocupar o candidato ao lugar de Rui Rio.

"Não vamos agora cancelar eleições dentro do PSD, não há nenhum facto excecional que justifique isso", afirmou Paulo Rangel, lembrando que os sociais-democratas já estariam, fosse como fosse, normalmente em processo interno eleitoral. "O PSD não está em estado de emergência, nem em estado de exceção".

Aliás, considerou, esta coincidência de diretas do PSD com legislativas antecipadas até pode ser vantajosa, pois permitirá "aos candidatos proporem a sua visão para o país".

"No fundo as diretas são um processo de primárias. Nós vamos poder escolher o nosso candidato a primeiro-ministro antes das eleições [legislativas]", lembrou. "O tempo é perfeitamente compatível. Os calendários são perfeitamente harmonizáveis."

Com isto, recusou simplesmente opinar sobre o que consideraria uma boa data para as eleições: "Não vou substituir-me ao Presidente da República. Há vários líderes partidários que estão a pressionar o Presidente, mas a marcação das eleições é exclusiva do PR."

Para o partido, promete "uma equipa plural", capaz de fazer "um processo de unidade", que "foi o que falhou na liderança anterior".

"Nunca seremos um partido ganhador se não formos um partido plural", afirmou.

A visita polémica

Rui Rio foi esta quarta-feira muito crítico ao facto de Paulo Rangel ter sido recebido pelo Presidente da República, criando uma polémica que fez com que este tivesse de vir declarar que "não se intromete na vida interna dos partidos".

Esta quarta-feira à noite, Rangel garantiu que se tratou meramente de uma visita de cortesia, solicitada no dia em que apresentou a sua candidatura à liderança do PSD. "É natural que alguém que queira ser líder de um dos maiores partidos se queira apresentar ao Presidente da República", afirmou.

"Fui fazer aquilo que é normal", disse ainda. "Não é normal o Presidente da República receber todas as pessoas que quiser? Agora é um lider de um partido que vai dizer quem é que o Presidente da República pode ouvir ou não?"

Vacinação correu bem, mas não pelo governo

Quanto ao combate da pandemia em Portugal, Paulo Rangel elogiou o trabalho do vice-almirante Gouveia e Melo, o coordenador da task force criada para a vacinação, mas fez questão de lembrar que esta escolha só aconteceu após a primeira opção do governo ter corrido mal.

"O processo de vacinação foi muito bom, mas não foi por mérito do governo. Inicialmente, o governo tinha nomeado um boy para o processo de vacinação", lembrou Rangel. "Quando foi preciso escolher uma pessoa para liderar [a vacinação] escolheram uma pessoa que no mesmo dia estava a tomar posse como diretor de um hospital. Ia acumular as duas funções. Só depois é que, com as críticas, escolheram o vice-almirante."

E se "a vacinação deve ser creditada ao vice almirante e à sua equipa, sem o carisma dele e a disciplina dele não teríamos os mesmos resultados", Rangel considerou que "houve coisas no combate à pandemia que correram mal."

A encerrar a entrevista, houve ainda tempo para esclarecer por que razão, sendo homossexual, Rangel votou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo na primeira votação na Assembleia da República. Explicou que, nessa altura, considerou que o país ganharia com um regime transitório, até porque havia dúvidas sobre a constitucionalidade da norma.