"Passos está a construir, ou até já tem, o estatuto de patriarca das direitas"

Antigo primeiro-ministro voltou a falar de temas da governação e numa posição contrária a Rio. O que é visto como a sua margem de manobra para se um dia decidir regressar.

Paula Sá
Carlos Moedas e Pedro Passos Coelho© Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens

O ex-primeiro-ministro tem desmentido vezes sem conta que as suas aparições na praça pública e o peso das suas palavras signifiquem um regresso à vida política. Mas as contas estão sempre a ser feitas quando Pedro Passos Coelho, a propósito de iniciativas variadas, dá o ar da sua graça, como aconteceu na convenção do Movimento Europa e Liberdade, que congregou os partidos de centro-direita, ou quando vai mais longe e diz de sua justiça sobre os temas políticos. O que aconteceu esta quarta-feira quando lançou um aviso ao PSD, ou a Rui Rio, de que não vale a pena esperar pelo PS para fazer reformas.

"Ninguém pode controlar o seu regresso à política, a não ser Marcelo Rebelo de Sousa, porque tudo depende da temperatura social e de apoios. É isso que Pedro Passos Coelho anda a fazer, a medir", afirma ao DN José Adelino Maltez.

O politólogo, que se cruzou com Passos na convenção do MEL, diz que apesar das intervenções do antigo líder social-democrata serem espaçadas mostram que "está retirado do exílio" e que é "um ausente presente". E "perante uma direita que está órfã, com um conjunto de pessoas que anda à procura dos "comprimidos" que fazem crescer o Chega, o Pedro Passos Coelho está a construir, ou até já tem, o estatuto de patriarca das direitas deserdadas".

Na última intervenção pública - já que na convenção do MEL se manteve apenas como espetador - o ex-primeiro-ministro avisou que há reformas que só se fazem "em confronto" e até apontou à do Serviço Nacional de Saúde. Passos falava na quarta-feira na apresentação do livro de António Alvim, militante do PSD e membro do Conselho Estratégico Nacional do partido - Um manual para a mudança na Saúde.

Isto um dia depois de Rui Rio ter lembrado que tentou tudo para trazer o governo para as ditas reformas, sem ter conseguido nenhuma resposta positiva.

Mas as palavras de Passos foram um ataque a Rio? "Não vejo que sejam um ataque a Rio. Parto do pressuposto que Rio era um obstáculo facilmente ultrapassado por Passos se quisesse avançar e um patriarca não se mete em questiúnculas de irmãos, antes paira acima de tudo", frisa José Adelino Maltez.

Para o politólogo as incógnitas sobre o regresso do antigo líder social-democrata mantêm-se, mas uma coisa dá por certa: "Um dia pode apetecer-lhe voltar e terá o território da direita com ele." E as ideias que tem vindo a plantar nas suas intervenções fazem perceber que "tem um programa de governo na cabeça".

"Não vejo que sejam um ataque a Rio. Parto do pressuposto que Rio era um obstáculo facilmente ultrapassado por Passos se quisesse avançar e um patriarca não se mete em questiúnculas de irmãos, antes paira acima de tudo"

Talvez em parte o que não conseguiu levar por diante quando a coligação PSD/CDS que liderava em 2015 ganhou as legislativas, mas sem uma maioria capaz de o segurar num governo. Seja como for, Pedro Passos Coelho tem procurado também afastar as especulações sobre o seu regresso à política ativa.

Em fevereiro chegou mesmo a cancelar a presença numa sessão de discussão sobre o futuro do país agendada para 25 de março, integrada na série "Repensar Portugal", da escola de gestão INSEAD e que levou a conjeturas sobre as razões da participação num evento deste género e com o aquele tema.

Pedro Passos tem sido parcimonioso nas intervenções e nas presenças em público que tem feito. Participou no livro elaborado pela JSD e lançado por altura dos 40 anos da morte de Francisco Sá Carneiro, em dezembro de 2020, em que escreveu: "Como chefe partidário, foi um homem mais de ruturas do que de compromissos. Alguns criticaram-no por revelar um pendor conflituoso, intolerante e algo autoritário, e um tanto errático na tática política. Dele conservo, no entanto, a imagem de um político determinado que gostava de separar águas e de assumir responsabilidades nas suas condições. Não era complacente e não se submetia à lógica do poder pelo poder, mas soube criar as condições para tornar o poder ao alcance da direita."

Mas já antes, ainda em dezembro do ano passado, quebrou o silêncio para criticar o Governo, passando pela TAP e pelo caso do ucraniano Ihor Homenyuk, que foi morto nas instalações do SEF, acusando o executivo de António Costa de fugir às responsabilidades. E deixou ainda uma pergunta sobre a situação do país: "Que Portugal é este que não consegue fugir à cauda da Europa?"

Em fevereiro, na apresentação do livro Vento do Suão: Portugal e a Europa, do seu antigo secretário de Estado adjunto e comissário europeu, Carlos Moedas (agora é cabeça de lista da coligação PSD/CDS/PPM/MPT e Aliança à Câmara de Lisboa), Passos aproveitou a ocasião para para ajustar umas contas com o líder do PS, António Costa, a quem apontou falhas de avaliação política e de ter escolhido uma pasta "errada" para a sua comissária europeia, Elisa Ferreira.

paulasa@dn.pt