"A ideia de tentar ilegalizar o Chega é totalmente estúpida e irracional"

Diz que é das esquerdas e dos democratas a responsabilidade pelo êxito de André Ventura e lembra que na democracia todos têm espaço. Na geringonça, continua a não ver vantagens. "Trouxe paz social", mas nada. "Na economia e finanças foi muito, muito, muito negativa."

Joana Petiz e Pedro Pinheiro (TSF)
© Fernando Fontes/Global Imagens

O sociólogo, escritor e antigo ministro que pôs fim às ocupações da Reforma Agrária com a Lei Barreto tem um olhar crítico sobre a política nacional e a gestão da pandemia. Figura incontornável da opinião pública em Portugal, António Barreto lembra que a democracia é de todos, mesmo dos que não creem nela, e continua a não acreditar na bondade da geringonça, defendendo antes acordos sérios, de papel passado e que garantam estabilidade - mesmo que de esquerda. Analisa a agitação interna no PS, no BE e no PCP, teme pelo futuro da realidade nacional sob efeito da pandemia e seus constrangimentos, mas tem esperança de que o país saiba recuperar.

Leia aqui a primeira parte da entrevista a António Barreto

Em agosto, dizia que o Chega não o assustava, no final do ano escreveu que se dá demasiado palco a André Ventura. Essa visibilidade foi o que lhe garantiu tantos votos? Surpreendeu-o o resultado de Ventura nas presidenciais?
Apenas por dois ou três por cento, não é propriamente uma surpresa, foi um pouco mais. Mas continuo a pensar muito seriamente no que disse. O Chega, por enquanto, é um conjunto de fantasias hipertrofiadas, fantasmas hipertrofiados. E vive muito do medo que os democratas e as esquerdas têm da direita e da extrema-direita, do fascismo, dessas coisas do passado. Mas também vive dos defeitos dos democratas e da esquerda. E cada vez que - na justiça, na educação, na saúde, na igualdade - as esquerdas ou os democratas cometem erros ou têm defeitos, o Chega aparece.

Isso explica o resultado?
Penso que sim. A eficácia eleitoral do Chega, até agora, deve-se em grande parte ao que os democratas e as esquerdas fizeram. Repare, qual foi o contributo político, a ideia nova, o projeto que entusiasma a população, o novo grande programa político, social e económico que trouxe ao país? É um zero absoluto. São ideias batidas, completamente banais, um capital de resmunguice e protesto enorme que faz demagogia e a tudo promete tábua rasa. Em vez de ideias, têm vassouras, varrem tudo. Este grupo de pessoas não me parece capaz de capitalizar entusiasmo político, esperança, expectativa ou coesão social. Vive de resmunguice e protesto - que é um capital importante - e dos defeitos dos democratas.

E faz sentido tentar ilegalizar o Chega ou isso só dará mais força a quem o segue?
É um erro crasso e absoluto. A democracia é o regime de todos, incluindo os não democratas. Se os democratas não entendem isto de uma vez por todas, continuarão a errar tanto quanto a extrema-esquerda ou a extrema-direita. O Chega só deve ser ilegalizado se cometer crimes - e crimes por ação, não por pensamento, ideias ou comício. A ideia de ilegalizar o Chega é totalmente estúpida e irracional.

E acredita que o acordo de governo nos Açores pode vir a acontecer também no governo da República? E, nesse caso, deve ser um acordo de papel passado?
Poder pode, eu gostaria que não acontecesse, que em Portugal nem esquerda nem direita dessem palco e cena a um partido como o Chega no governo, que não acontecesse de forma nenhuma.

Já aconteceu nos Açores.
Pode acontecer. É a vida.

Mas há indícios de que pode acontecer no governo da República?
Bom, Rui Rio deu a entender que não era uma hipótese a pôr de parte. Tenho pena que ele tenha dito e pensado isso.

Rio tem condições de federar a direta ou seria mais provável com o regresso de Passos Coelho, uma ideia que tem ganho força?
Não tenho ideia sobre o tema. Parece-me que Passos não quer, não tem vontade de retomar...

E sobre a capacidade de Rio conseguir federar a direita?
O partido social-democrata tem sempre quatro ou cinco líderes supostos, putativos, potenciais. Nunca viveu - exceto num pequeno período com Sá Carneiro e noutro maior com Cavaco Silva, porque tinha o poder nas mãos - sem morgadios, baronagens e feudos. Não creio que, no PSD, seja suficiente ter um programa e vencer - eventualmente o contrário, precisa de vencer e depois ter um programa.

Em outubro, há eleições autárquicas. Deviam ser adiadas?
O fator essencial é a vacina: se em julho 60% da população estiver vacinada e não houver praticamente nenhuns resquícios de confinamento, se não houver comércio, instituições, fábricas ou escolas fechadas, podem decorrer, mesmo que com cautelas. Se no verão não houver 60% da população vacinada deveriam ser adiadas, sim.

As autárquicas vão coincidir com o processo de negociação do próximo Orçamento do Estado (OE). Essa conjugação de momentos pode ditar o fim do governo PS?
Pode. Se BE e PCP recearem que não ir a eleições vai favorecer o PS, esses partidos derrubam o governo. Se houver então condições para refazer uma maioria com o PSD, um bloco central a sério, pode ser que isso salve o OE e o país. Caso contrário, temos eleições em 2022.

Foi um crítico da geringonça.
Nunca gostei desse nome da geringonça - e nem da solução de governo. Não gostei, não gostava e não gosto, porque significa colocar no centro do governo e das instituições nacionais ativas o PCP e o BE, que eu acho que não merecem lá estar. Merecem estar no Parlamento, ter toda a atividade política, mas têm de ter mais eleitorado... e gostaria que tivessem mais respeito pela democracia, pelas instituições democráticas e pelos valores democráticos. Portanto levar esses partidos para governo foi a razão essencial por que me opus, porque me inscrevi como adversário - num processo que foi completamente democrático, claro.

Olhando para trás, foi tão mau como antecipava?
Em certos aspetos, sou hoje ligeiramente mais benéfico em relação à geringonça no sentido em que conseguiu uma coisa: paz social durante três ou quatro anos. E isso é em si próprio um valor, que não haja greves, arruaças, motins, que não haja verdadeiramente uma conflitualidade de classes profunda e permanente é uma vantagem que esse governo conseguiu. Não tem praticamente mais nada a seu favor: a saúde não foi refeita, investida, reformada e desenvolvida como devia; na educação foi um pandemónio permanente de instrução, orientação, organização, hesitação, contradição; a justiça não avançou; e a economia foi o grande fracasso. Isto é, houve recuperação económica no usar mais rapidamente as instituições que tínhamos, não houve novos investimentos. Continua a enorme área de confusão, corrupção e promiscuidade com as PPP, prosseguiu a venda de empresas portuguesas a estrangeiros em condições que nem sempre foram as melhores e as mais claras. O balanço da geringonça do ponto de vista económico e financeiro foi muito muito muito negativo. O que significa que temos mais dificuldades do que teríamos se tivesse corrido bem.

E este novo governo já só com meio apoio à esquerda e com casos sucessivos - de Eduardo Cabrita a Francisca Van Dunem - estaria ainda de pé se não vivêssemos esta pandemia?
Eu não sou saneador de ministros, não tenho influência nem capacidade para tal. Mas se fosse o primeiro-ministro já me tinha libertado de seis ou sete - todos sabemos quem são, não vale a pena perder tempo. António Costa, que tem certamente muitas qualidades - e também defeitos, é capaz de os ter ambos no mesmo plano ou quantidade -, comete a meu ver um erro gravíssimo na formação e na vida de um governo. Deveria ter ministros com maior capacidade política global. Tem esta tendência - em que é parecido com Cavaco Silva - para ter ministros que são uma espécie de diretores-gerais, que são puramente executivos e só falam no que lhes diz respeito. Um governo que vive de direções-gerais com pasta de governo não é bom e seguramente não dura muito. Costa tem esse defeito de desvalorizar as pessoas e quadros dos ministros.

A sucessão de António Costa já está lançada... Parece-lhe que as presidenciais já foram um indício, com os apoios dos eleitores do PS a dividirem-se entre Marcelo, Ana Gomes e até João Ferreira?
Não tenho sugestão ou previsão sobre quem poderá garantir a liderança do PS. Nem sei se o atual secretário-geral pode renovar o mandato muito tempo ou não. Sei que no PS está aberta uma luta importante pela sucessão e pela reconfiguração política do PS - mais à direita, mais à esquerda, liberal ou estatal, intervencionista... - e todos conhecemos os nomes de quem apareceu. Certamente surgirão mais. Há pessoas muito capazes e competentes nessa lista, uns pecam por excessivamente esquerdistas, outros por direitistas.
Mas também no BE, tudo leva a crer que esteja aberta alguma competição interna - pensa-se que o partido não apoiou Marisa e vice-versa. E pela primeira vez em muito tempo, há uns zunzuns no PCP - o PCP tem de viver sempre de rumores e boatos, mas tudo leva a crer que começa a haver luta séria, pessoal e sobretudo política. É estranho que este PCP continue a diminuir, tenha cada vez menos pessoas, mais idosas, ideias que oscilam entre renovações repentinas que surpreendem e o velho catecismo marxista-leninista e mantenha tanta influência. Tem influência a mais na vida política portuguesa - e continua a definhar, a definhar...

Voltando a Costa, depois da sua liderança ficará aquela imagem do eucalipto que seca tudo em volta?
É capaz. Parece simplesmente ter chegado ao fim. O facto de estarem na cena política pessoas a afirmar-se com ideias próprias - Francisco Assis, Sérgio Sousa Pinto, Pedro Nuno Santos, Ana Gomes, Santos Silva... Há muita gente no PS que de repente se disse "temos de mostrar a nossa diferença, as nossas ideias, deixar de ser uma espécie de adjuntos (que foi uma grande expressão de Cavaco Silva) do secretário-geral do partido". Estou muito curioso para ver como a luta política e o confronto de pensamento no PS se vai desenvolver.

Leia aqui a terceira parte da entrevista a António Barreto