Montenegro será alternativa de "emergência" nacional contra incapacidade e oportunismo

Com unidade assegurada, 91,7% do congresso aprovou moção do novo líder do PSD, que separou águas do Chega e da IL e atacou as fraquezas do governo.

Com mais uns expressivos 91,7% de votos dos delegados na sua moção de estratégia e uma direção que retrata a união do partido, Luís Montenegro posicionou-se perante o país e o adversário PS no discurso de encerramento do 40.º congresso do PSD, no Porto.

Num discurso muito aplaudido no Pavilhão Rosa Mota, o novo líder social-democrata colocou o partido em modo de "emergência" nacional, desfez no governo, desarmadilhou o fantasma de uma potencial aliança com o extremismo do Chega e o liberalismo da Iniciativa Liberal e avançou com sete prioridades, entre as quais a de um programa de emergência social para responder às necessidades dos portugueses mais fustigados pela subida da inflação. Pelo caminho avisou Costa que não terá o apoio do PSD para o referendo à regionalização em 2024 e prometeu bater-se pela descida de impostos.

"Muito menos nos associaremos a qualquer política xenófoba ou racista. Não somos daqueles que ultrapassam muros para abraçar o extremismo, só para sobreviver politicamente."

Vamos à parte da desarmadilhagem dos populismos a que o PS tenta encostar o PSD. "Nós não somos nem seremos socialistas moderados. Ou dito de outro modo, somos e seremos moderados mas não somos nem seremos socialistas! E é por sermos moderados que também não somos nem populistas nem ultraliberais", garantiu, levantando forte aplauso. Para dissipar dúvidas sobre a sua postura perante o partido de André Ventura logo no início do comando do navio social-democrata - já que durante a campanha para as diretas não fechou a porta ao diálogo - foi categórico. "Muito menos nos associaremos algum dia a qualquer política xenófoba ou racista. Não somos daqueles que ultrapassam muros para abraçar o extremismo, só para sobreviver politicamente!"

A farpa foi direitinha para António Costa e ministros socialistas como Pedro Nuno Santos, que abriram os braços à geringonça com o PCP e BE em 2015, e "violaram os princípios do socialismo moderado para evitar a reforma política antecipada do atual primeiro-ministro". O presidente social-democrata, que viu também a lista ao Conselho Nacional, encabeçada por Carlos Moedas, aprovada por maioria absoluta, separou ainda o trigo do joio em relação à visão da económica dos liberais.

Oposição e prioridades

No ataque ao governo, extensão do discurso de abertura do congresso (muito centrado na crise do aeroporto), e quanto aos planos de oposição que irá fazer por uma alternativa de governo, prometeu não ser populista. "Portugal precisa e chama pelo PSD porque, apesar de estar em funções há apenas três meses, este governo tresanda a velho. Apresenta-se gasto, desorganizado, desnorteado." E as provas estão à vista, dos problemas na saúde, à reestruturação da TAP e "estatização total dos serviços públicos".

E para demonstrar a alegada incompetência reiterada dos socialistas recuou aos incêndios de 2017. "Fez agora cinco anos, que um governo viveu a mais trágica e vergonhosa incapacidade de estar ao lado de quem precisa quando não foi capaz de salvaguardar mais de uma centena de vidas humanas." E dessa postura fez questão de se afastar com a promessa de ir ao encontro do país a começar já hoje, quando estará em Pedrógão a falar com autarcas, bombeiros e vítimas "dessa inconcebível tragédia".

Das sete prioridades que estabeleceu para a liderança, arranca pelo combate "à carestia de vida", com a defesa de um Programa de Emergência Social que "aproveite o excedente criado pela inflação na cobrança de impostos e inclua medidas como o vale alimentar mensal às famílias de mais baixos rendimentos; a renovação de descidas ou suspensões na fiscalidade sobre combustíveis", entre outras.

Prometeu ainda bater-se contra o "caos" na Saúde - "É tempo de exigir ao governo que faça o que tem de ser feito: reformar, reestruturar e reorganizar o SNS" - e pela descida de impostos, que classificou de "combate da legislatura", já a levar a palco na discussão do Orçamento do Estado de 2023. "Com esta asfixiante carga fiscal, não há classe média nem elevador social."

De resto, Montenegro tem planos para reter os jovens em Portugal, pelo que voltou à proposta de discriminação positiva em sede de IRS para jovens até aos 35 anos, que ficariam sujeitos a uma taxa máxima de 15%; à implementação de um Programa Nacional de Atração, Acolhimento e Integração de Imigrantes, para ajudar a responder à falta de mão-de-obra em Portugal; e à promoção de um pacto de transição digital, energética e digital.

O "não" a um referendo à regionalização ficou para o remate. "Fazer um referendo neste quadro crítico e delicado seria irresponsável, precipitado, um erro. Os portugueses não entenderiam."

União dos potenciais adversários e o regresso do passismo

O novo líder do PSD tinha prometido unir o partido e surpreendeu ao conciliar os seus mais fiéis apoiantes com os que já se aventuraram na corrida à presidência ou se poderão aventurar, como Carlos Moedas. Foi ainda buscar figuras do passismo, que Rio tinha deixado de lado, mas aos rioístas não seu a mão.

Paulo Rangel
Primeiro vice

A entrada do eurodeputado na direção reveste-se de profundo simbolismo, ja que Rangel tinha sido derrotado por Rio em diretas há muito pouco tempo, mas por pouco.

Miguel Pinto Luz
Vice-Presidente

Depois de ter corrido para a liderança contra o próprio Montenegro, o vice da Câmara de Cascais entra para o e seu núcleo duro.

Margarida Balseiro Lopes
Vice-presidente

A ex-líder da JSD foi apoiante de sempre de Montenegro. Foi ela quem pediu para sair do Parlamento, mas Rui Rio já não devia contar antes disso.

António Leitão Amaro
Vice-presidente

O antigo deputado e secretário de Estado da Administração Local de Passos, foi outro dos apoiantes de primeira linha de Montenegro.

Paulo Cunha
Vice-presidente

O poderoso líder da distrital de Braga do PSD esteve equidistante na disputa entre Rio e Rangel, mas nestas diretas deu apoio claro a Montenegro.

Inês Ramalho
vice-presidente

A escolha da filha do CEO do Novo Banco, apanhou muitos de surpresa, mas esteve com Moedas na equipa do acompanhamento do programa da troika.

Hugo Soares
Secretário-geraL

Já era o braço direito de Luís Montenegro, a quem sucedeu na liderança da bancada e com esta posição vai continuar a sê-lo.

José Matos Correia
Pres. Conselho Jurisdição

O antigo deputado e presidente da Comissão de Defesa chegou a apoiar Rio, mas acabou por ser um dos seus críticos. Regressa aos cargos.

Nunes Liberato
Auditoria Financeira

O antigo chefe da Casa Civil de Cavaco saiu da liderança do Conselho de Jurisdição em fricção com Rio.

Carlos Moedas
1. do Conselho Nacional

O presidente da Câmara de Lisboa, desejado por muitos para liderar o partido, aceitou ser o rosto de Montenegro neste órgão do partido.

Maria Luís Albuquerque
Conselho Nacional

A antiga ministra das Finanças de Passos Coelho estava afastada da política interna do PSD. Regressa ao órgão máximo entre congressos.

Teresa Morais
Conselho Nacional

Mais uma ex-ministra de Passos, profundamente crítica de Rui Rio, que regressa ao ativo nos órgãos do partido.

Luís Menezes
Conselho Nacional

Foi vice-presidente da bancada social-democrata em 2010, quando Passos assumiu a liderança do PSD e deixou a AR em 2014.

Miguel Albuquerque
Mesa do Congresso

O presidente do governo regional da Madeira, que deu apoio a Montenegro, foi o escolhido para substituir Paulo Mota Pinto.

Pedro Duarte
CEN

O antigo líder da JSD, um nome falado várias vezes como potencial candidato à liderança, vai ser o coordenador do órgão de produção de propostas do partido.

Pedro Reis
Mov. acreditar

Ao antigo líder do AICEP foi dada a tarefa de organizar os chamados estados-gerais do PSD, a que Montenegro deu o nome de Movimento Acreditar.

Carlos Coelho
Academia de
Formação

O antigo eurodeputado e diretor de campanha de Montenegro, vai gerir a formação dos quadros do partido. Já era o organizador da Universidade de verão.

paulasa@dn.pt

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